segunda-feira, 6 de abril de 2020













                             
                                    Téo trazendo leite de jumenta na garrafa. Encho uma de Noite em Paris, jogo no mar, ver onde vai chegar. Ô caminhozão. Singrando na vastidão sem-fim, Achar-te-ão um dia? Saberão ler-te? Ao mundo, contarás estas estórias e dirás estou poranga, estou odara que me leiam.Verde era, quando não, vinha Zidório,  leixa uma cheia, leva outra, vazia, pra despois, dia sim, dia não.   

sábado, 4 de abril de 2020







                                            Nissan pegou do badogue,  da espingarda e foi pro mato caçar. Comer, nem que fosse uma fogo-pagô, a fome, mais feia que matar. Suzuki, bom de caça, o acompanhou, sacudindo o rabo, focinho no chão. Na catinga, perro e homem se igualam. Roubar para comer, poderia adivinhar um dia? Cão de mundo! Pois não parar na cadeia. Duzentos gramas de manteira, para a baguete, Carrefour, rue du Bac. Burro aziago, lembra-me  grades e samangos, bófias insolentes. Na cabeça, a nata. Bat´isso direito, menino, não desandar manteiga. Papai Nezinho n`Ourissanga. Vovô Leôncio na Ponta Coroa gostava de bater direto na garrafa.

quarta-feira, 1 de abril de 2020
















                                   Fácil ser vanguarda, experimental em música. Sons e ritmos. Eu luto com letras, palavras, rebeldes por natureza. Não é simples compor, digo, todo som é lindo, a palavra não. A música, abstrata, não precisa ser entendida, a palavra sim. Não é bem assim, Didi. Como não é bem assim, Cristóvão? Você insiste em me chamar assim, já disse, meu nome é Krzysztof, Krzysztof Penderecki. Calma, cara, difícil para nós, Penderecki tudo bem, mas este tal de Krzysztof é impronunciável. Então me chama Penderecki, não este nome horrível, nasalado como vocês pronunciam. Opa, você me dá razão, as palavras não são como os sons de um instrumento. 

quarta-feira, 25 de março de 2020













                    

                               O índio chorou, o nego pranteou, Neco Preto lamuriou, Zé Mancambira se lastimou, Maria Cagona s´esperneou, Zé Pretinho choramingou, o mandacaru soluçou, a cassutinga lacrimou, o alecrim suplicou, o caroá gotejou, a aroeira nunca parou, o tatu se estrebuchou, o gambá gritou, a jiboia se esfolou. Tudo, tudo chorou, chorou, menos o branco de cabeça, que ninguém aqui é branco, viu arder o mato e gozou. Não foi biatatá, não foi. Meninos, eu vi. Meu canto de morte, guerreiros, ouvi: Sou filho das selvas, nas selvas cresci; Guerreiros, descendo da tribo tupi.

segunda-feira, 23 de março de 2020














                                   Tempo de famina e milhares morrerão. O luxo, o vinho dos banquetes, o oiro amealhado, tudo, tudo irá ao mar profundo, como em Pompeia e Herculano, avaladas por larvas do Vesúvio. Assim, de derrota em derrota, atravessando a borrasca, mais fortes nos tornamos e, os que ficam, relatarão com empáfia, bravura e destemor e voltarão as sandices e sandices, como sempre. Oh, que digo eu? O homem não aprende? Por um momento.

sábado, 21 de março de 2020
















                                        Seu Rube dançava o carnaval, fantasiado, lembro vagamente as cores, verde, vermelho, rosa, do Ponto da Mangueira um estandarte na mão, ô afilá lá ê, ô, pedia uma cachaça e lá se ia cantando pegar o ônibus na Vasco. O tempo, aproveitar. Um dia vai chegar. Ninguém vai poder pisar os pés na rua. Sim, depois do ano dois mil. Uma senhora de mil cabeças, cuspindo fogo, quem lhe chega perto, só do seu ar, morrerá, porque não tem remédio, nem o homem vai descobrir, porque ela muda de cor, se transforma. Dona Morena mangando dele, profecia de bebum.








        
                           

sexta-feira, 20 de março de 2020


















                                            De bellum, de incendio mundi per coronavirus, tu viste? E estão dizendo por aí que Nostradamus havia profetizado esta praga em sua obra. Disto não tenho certeza, talvez a tenha previsto Antonio Conselheiro. O sertão vai virar mar e o mar virar sertão. Mundão de perna pra riba. Pessoas apavoradas com mosquitos invisíveis que se agarram à gente, entra em nosso corpo, tomando o ar, incendiando o mundo. Que fizemos nós? Diz Mancambira. bellum, bella. Não entendi. Guerra, guerras. O homem em eterna guerra. Ganhar, ganhar. Ninguém quer ser cú, todo mundo só quer ser pica. Não dá, não dá. Pára tudo, começar de novo. Quem fez isto, fez errado. Rapaz, tu tá doido? Vocês não andam dizendo que sou doido, que falo sozinho? Logo que doido sou, deixa eu falar o que quero. Falo o que vejo, não tenho se você não vê o que vejo. Vejo e ouço, porque me dizem coisas. Quem te fala estas coisas, Mancambira? Eles. Eles, quem? E eu sei? Pessoas que não conheço, mas vejo sempre e falam comigo. E como são estas pessoas, Zé Macambira? Gente como nós. E em que língua te falam, Zé? E eu sei lá, sei que entendo o que falam. Nós falamos português, Zé. E lá sei eu? Não somos brasileiros? Porreta,esta.