Tu não aprendestes nada em Paris, cara! De nada adiantou dançares com Brigitte, a Bardot, nem discutires com Jean Paul Sartre no Deux Magots. Vanidade! Nada mais. Pois, tu, cheio de ti, não te permitiste aprender.
Siandra correu por entre o canavial se cortou braços, pernas, rostos sem porquê estava correndo. Antõe Cego colocou um sino embaixo da gaveta para descobrir o ladrão que lhe roubasse. Aloísio Leal era escrivão mas advogava dos dois lados através de dois rábulas que assinavam petição que ele fazia. Mairi, Monte Alegre da Bahia. Totinha. de muletas corria muito mais que nós. Ninguém tinha merenda escola, quando em casa comia fufuta. Com leite é bom. De milho pisado no pilão. Com rapadura tomém é gostosa, fufuta. Branganzala, dava em roçado novo, como era doce, sua batata! João de Rosalina, quando lhe chamam de teiú, batia na bunda e dizia oiá aqui o teiú. Teiú é mãe. E Dom João VI enganou Napoleão? Como também a Inglaterra. Dija roubava um punhado de açúcar do armazém do pai, jogava na boca e punha o polegar direito chupar. Com os indicadores acariciava as sobrancelhas. Jarbas, o mais alto da turma, e, diziam, o mais bonito, tinha um destro. Entortava a boca, suspendia as sobrancelhas e dava toque no cabelo. Carminha de Zé Cadeira, minhom, branquinha, braços cobertos de pêlos pretos, lisos e brilhantes, muito bonita, sexy diziam. Tereza, lá da Rua Nova na saída pros Noventa, ao lado da casa de dona Pureza vinha pedir à sua mãe para dormir com ela todas as vezes que marido viajava. Estaria ela treinando-o para comê-lo mais tardes? Até hoje se pergunta. Vestida numa camisola azul Clarinha e cheirosa, dormia na sua cama. Medo, tinha medo de dormir sozinha. Creba a cara quem pensa ser sabido, tem sempre um mais que ele. Linda noite! que nunca te faças dia. O quam tristis et aflictus fui. E quando eu, distraidamente, reparava, com inveja, um lindo casal beijando-se, ardorosamente, na Rua Jean-Pierre Timbaut, bem em frente ao bistrô Au Chat Noir, quem vejo eu? Claude. Falou-me de Madame Faure, de suas eternas brigas e prometeu me ajudar. E foi assim que terminei por tocar meu berimbau no Au Chat Noir, onde ganhava dinheirinho. Dava pra comer e pagar o Hotel du Globe na Rua du Quatre Vents.
Tu non sabe nada, Mancambira, há coisa pior neste mundo, Mancambira, nas barbas de quem chora a morte de um cachorro, crianças e idosos vivem vida de cão; nas barbas deste mundo imundo, gente, muito mais, chafurda no lixo o pão que lá se atiça e nos nada dizemos. Nem gestos, nem grito, nem palavras, tuas, nem minhas, ninguém. Todos. Por moda, exibição condenam os cães danados, matadores d’Orelha, o cão, mito e herói. E choram e gritam e pedem pena de morte, prisão perpétua. Dia chegará, Zé Mancambira. Pedirão, carne humana pra ração. Perto estamos. Como Brigitte, gritava pelos cães do Egito e silenciava a morte em Gaza. No, nam quero retornar. Frio, gelado lá embaixo. E quando chove? De doer. Melhor seria que me atirassem aos perros famintos de rua ou às lampreias de Védio Polião.
Antre mim, antre você distam verões, invernos distam, ainda assi p’ra ti eu corro e não descanso e só me canso. Extenuado estou, sem te encontrar e pois “Comigo me desavim, sou posto em todo perigo; não posso viver comigo, nem posso fugir de mim”. E tudo não vale ren, porquê ren vale la vida porquê a vida é um sonho. Um sonho, apenas, não é Calderon? Oh, samicas, deste sonho, um dia, acorde.
Um barão assinalado, sem brasão, sem gume, nem lume, nem fama cumpre apenas o seu fado: (Não é, Jorge de Lima?) Ai, pois, amar, louvar sua dama, dia e noite navegar. Oh, intocável mar! Que é de aquém e de além-mar, a ilha que busca e mar que ama. A ilha não encontraste, o amor querido não veio. Que mais buscas neste mundo?
Oxente, gente, non tá vendo que tá tudo errado? Curandeiro, rezador, benzedor, sangoma. A razão tem limites, né, Gödel? E onde a razão não chega, corre-se, pra não perder o tino, atrás da fé. Eita mundo veio danado, ninguém, contigo, fica acostumado. Trem maluco, este mundo, né, não Mancambira? Ah que vontade de comer branganzala. Lá no Salgado, quando se fazia roçado novo era que. E como eram doces suas batatas, inda meladas de terra cujo suco escorregava pelas mãos, meninos. Oh tempos! Não, não lamento a escuridão, a fome, o medo, a solidão das noites, das muriçocas sobre nossa cabeça. Rapaz, tou admirado. De que Mancambira? O ex-presidente pediu ao relator de seu processo a redução de sua prisão pela leitura de livros. É um direito dele, Manca. Sei, Horusdidi, mas, quando ele aprender a ler já se esgotou o tempo de sua prisão.