Somos todos inocentes. Massa de manobra para quem detém um mínimo de poder neste mundo de meu Deus. Sentinelas, homens comuns no meio da multidão para informar a chegada da polícias ou de facções rivais no pedaço.
Eu sei um homem, venusto e bom, melhor que todos, e, no entanto, pior, basta querer. Não me perguntes, quem, procura-o, tu, descobre, tu, tua verdade. E ele, numa piscina, escura, não n’água, em caca. Jogavam-lhe frutas que ele tentava alcançá-las, mas só de fora o pescoço. O vento atiçava longe a inhaca, no entanto, pessoas permaneciam em torno da piscina, comendo, bebendo, dançando, fornicando. Frei Leão chegou, portando a cruz do exorcismo, extendendo-a para o homem, recitando: Exsurgat Deus et dissipentur inimici ejus; et fugiant qui oderunt eum a facie ejus. Mais n’agonia de salvar-se do lodoçal que na crença no maligno, agarrou-se, com força, o lenho. O capucho não suportou o peso e estatelou-se no lago impuro, conspurcando hábito, barba e cruz. A moeda na boca do defunto encomendada a Caronte estava quase intacta, apenas com o desgate do tempo, o que significa que Deus nenhum está-se importando com as preocupações humanas, melhoria se tivessem dado aquela moeda a um verdadeiro necessitado.
Três Palavras, Zé Mancambira, que só existem no papel. Nunca houve democracia, nem liberdade e muito menos justiça. A prova está nesta Copa do Mundo. Os times dos países do chamado terceiro mundo são literalmente roubados e eliminados desta Copa. Foi o caso do Egito, hoje. É o caso de toda uma comunidade de Sento Sé flagrantemente roubada por grileiros com a chancela, hoje, de parcela do Judiciário baiano. Hoje, pro mode, o futebol e a Copa, a Argentina é um dos países mais odiados do mundo. Mas, aí de ti, Copacabana, se contares a verdade. Eles te apunhalarão, a despeito da tua beleza cantada em versos e prosas.
Apesar de áptero, quando em perigo, ou pra me distrair, de vez em quando, eu alço vôo. Mas não é fácil e às vezes não dá certo. E há o perigo de me esborrachar lá embaixo. É sempre uma aventura. Como daquela vez no cemitério da Graça. Numa baixada, não conseguia voar muito alto, caindo sempre alguns metros adiante, enquanto a turba me perseguia com paus, pedras e o mais que conseguisse pegar para jogar em mim.
E eu, Mancambira, queria tanto! À vera, que existisse céu, que existisse deus. De vera, Horusdidi, Deus? Sim, cuspir na cara daquele safado! Você, não diz qu’ele nam existe? E é, nem posso me vingar dele. Vingar-se, professor? Não a mim, contra mim, ele, nada pode fazer. E ele pouco está-se lixando comigo, né, Bento Espinosa? Eu, Didi? Sei de nada, o sei, você está vendo, polir minhas lentes. Não basta o que fizeram comigo na sinagoga? E tu, inda me futucas, grande amigo? Muy amigo, Horus, Cabeça-de-falcão o que a mim, fizeram, os meus, não desejo a ninguém muito menos a ti, caro Didi. Sei, sei disto, Bento, não menos foi o teu penar, de quem, pregado na cruz. O menosprezo, a cafifa são alfanges criminosos. Mas, tudo fantasia, nós, simples espectadores da caravana que passa. Não, Lacan, não, não somos responsáveis por nada. Quem nos legou esta responsa? Seria o livre arbítrio? Ninguém se entende o que, hoje, digo apoiado em alguém, amanhã outro me convence de estar errado. Ouço Mercedes no ar, vejo Alfonsina no mar.
E você vai deixar ele escrever? Vou, Mancambira, se não ficar bom, não publico. Boa sorte, pra ele. Obrigado. E é assim. Hotel du Globe, Nadine, me disse, de Strasbourg, por isso falava rápido. Ela, Nadine, dos olhos tão azuis, bateu na porta do meu quarto. Não foi um bater calmo e amigável, nervoso e insistente.