segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O CARNAVAL DOS SONHOS


                                                                                JESUINO ANDRÉ DE OLIVEIRA
                                                                                         (João Pessoa, Paraiba)












                   Era uma manhã de sábado. Estava assistindo o Carnaval na tevê e atentava para a lembrança.
Para o pobre mortal ela é conhecida como a “festa da carne”, mas não é tão simples assim. Vai muito mais além, esbarrando nos desejos e sonhos que cada um de nós carrega ao longo da vida. É um festejo marcante, principalmente na fase jovem de descobertas, sempre alternada por momentos alegres e tristes.
Lembrei-me, por puro saudosismo, que o Carnaval bom mesmo era de outrora. Em João Pessoa as boas recordações fizeram-se nos clubes da cidade, eventos os quais não tive a oportunidade de presenciar. O do Clube Cabo Branco tinha o mais prestigiado e concorrido entre eles. Carregava a mística do status, da pujança e das convenções sociais inacessíveis para a maioria da população. Um recanto burguês, por isso mesmo deslumbrante aos olhos dos mais jovens. O Carnaval em seus salões tingidos de vermelho e branco era o mais cobiçado e aguardado.
Para os jovens irmãos Fernando e Paulo, esse fato ocorrido nos anos 80 ficou marcado eternamente em suas memórias. Pela primeira vez foram convidados pelos pais do amigo Felipe para a folia do Vermelho e Branco, mas esbarraram na intransigência legal do clube que não permitia a entrada de não sócios, mesmo sendo acompanhados pelos titulares. Lei é lei. Os dois rapazes ficaram barrados, admirando de longe a festa agitada no salão com suas belas mulheres, bebidas e boa música. Ali estava tudo que era desejado, mas seu acesso impedido. Mas onde há vida, há esperança...
Os dois ficaram na porta de entrada observando o momento único de agir, de não deixar escapar a festa – suborno nem pensar, mesmo porque não havia um caraminguá sequer nos bolsos deles.
- Paulo, ficaremos de olho no porteiro e quando ele vacilar na vigilância, nós pulamos  o muro ali na parte mais escura –  arquitetou Fernando na única possibilidade de participar do festejo.

                 - Tá certo. Combinado! - respondeu o irmão mais novo, disposto a tudo.
Não poderiam ficar de fora. Por sinal, eles não eram os únicos, havia outros na mesma situação. Já passava das onze horas e o tempo não apelava, corria fácil deixando à margem o momento oportuno. E ele veio! No instante em que o porteiro saiu para beber água, ou algo parecido, os dois pularam o muro alto dando um bote preciso como felinos. Transportaram a barreira, peitaram a exclusão burguesa e os seus códigos injustos. Nada os impediria de sonhar.
Mal posto os pés no outro lado, os dois caminharam em direção ao salão e quando eles estavam bem próximo, o famigerado porteiro avistou e avisou aos seguranças sobre os penetras.

                - Ei você cabeludo e o outro aí, borá já pra saída! Pra fora!!! – gritou bem alto os brutamontes, rebocando pelo braço os irmãos constrangidos e decepcionados, levando-os até a rua.
Chamando a atenção pelo flagra, a portaria juntou gente. A frustração e a vergonha foram parceiros nesta derrota. De passagem os foliões ficaram olhando curiosamente para o acontecido. Mais ainda sob o olhar debochado de Felipe, que de longe apontava e gargalhava para a miséria dos amigos.
Ali, agora, morria a folia, entristecendo pierrôs e colombinas. Restaram aos irmãos a máscara desconsolada da madrugada ao descerem a Avenida Epitácio Pessoa em direção ao mar. A rua estava escura, deserta e uma brisa constante, batia forte e fria. Tiveram como consolo a trilha sonora do acanhado muxoxo de um casal de corujas, escondido numa árvore, as únicas testemunhas da solitária caminhada dos irmãos. Restou apenas o gosto amargo da decepção e o sonho desfeito pelo destino.
Evoé, evoé Carnaval, abram alas que eu quero passar...

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

DE COMO CHARLES MANSON AMOU SHARON TATE






                                                 Então o Senhor disse a Josué: Saiba que entreguei nas suas mãos Jericó, seu rei, e seus homens de guerra. A cidade, com tudo que nela existe, será consagrada ao Senhor para destruição. Somente a prostituta Raabe e todos os que estão com ela em sua casa serão poupados, pois ela  escondeu os espiões que enviamos. Então, consagraram a cidade ao Senhor, destruindo a fio de espada homens, mulheres, jovens, velhos, bois, ovelhas e jumentos, todos os seres vivos que nela vivia. Está no livro de Josué. E eu digo: Destruam totalmente todas as pessoas dentro da casa, da forma mais horrível possível.
                                       Tu não podes imaginar. Eu quero e tenho, ela, caturra. Diz-me, que conselho tu me dás? Tu a conheces e ela te quer muito bem. Dai-me tua demão.  Sei que me achas estranho, mas quem não é, neste mundo?
                                         

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

EU NÃO ME CHAMO LIL PEEP
















                                       Ninguém merece morrer. Mas, se não morrêssemos onde iriam os Deuses encontrar lugar para tanta gente? Não escolheram eles, a terra como privilegiada? A menos que estejam escondendo o jogo e nos façam uma surpresa, apresentando gente, ou quase gente, ou lá o que seja, de outras paragens deste mundão de meu Deus. Que digo? Pois um cara com tudo pela frente, nas suas vinte e uma primaveras resolve por fim à vida ingerindo dose cavalares de alucinógenos! Dói? dói, mas como posso me lamentar se sei que milhões, neste momento, não acham um punhado de farinha pra comer? Corram o mundo agora, visitem todas as redes sociais, feicebuque, twitter, tumblr, instagram, you tube e o escanbau afora;  Invadam PCs, celulares/telemóveis, Smarphones, yphones, whatsapp e o diabo a quatro e verão: Pelo menos cinco dos que se lamentam pela morte de Lil Peep passam fome ou está abaixo da linha de pobreza. A industria do lazer os distrai. Eles esquecem sua própria miséria e passam a chorar a dos outros. Distraídos, não invejam os felizardos, nem ambicionam seus teres. Muitos ainda pensam, num passe de mágica, chegar lá e apelam para o desporto, a música e até para práticas criminosas. O doce charme da burguesia.
                  Eu, Dá, Horus, Didi, vi. Velho cozinhar pedra, neguinho comer farinha de palmito de licuri - oh quanto azedo - beber água barrenta e salobra, dor de barriga danada,  parto levar mulher, criança moribunda e triste, gado, fome e sede matando, tuberculoso abandonado à própria sorte, padre seduzindo indefesas senhoras, bispo vendendo indulgências, para, foram tantas as coisas que vi. Não tenho tempo de chorar a morte de Peep.  Conselho e água só se dá a quem pede. Tu me pediste. Que disse eu? Toda experiência é válida, o perigo são as consequências. Nem sempre suporta o corpo os delírios da alma. Não nos conhecemos por inteiro, seria  enfadonho se fosse assim. Aventuras trazem vida, trazem morte. Quem sobrevive, aprende, quem não, ensina. Não te disse? Tens a vida pela frente, não vás com muita sede ao pote. E agora Gustav? 

sábado, 11 de novembro de 2017







                                         Cara, odeio esta merda. Depressão. Nueche, chorando, medo, de quê? Quem me atormenta? Sensação de morte, mas não quero, nem vou morrer. Se tivesse de morrer, mataria antes um bando. A noite quase toda acordado, a manhã sonolento e lento.  Só à tarde melhoro. Não choro, é por dentro que ele fica. Assim ninguém me entende. Pensam que brinco, que é má vontade. Incapaz de ver quanto tonto fico num rosto sadio. E assim vou perdendo amigos, filhos e todo elo com o mundo. Me veem como um monstro. Não o sou. Ah, que vontade de dançar um maxixe, o Corta-Jaca. Esta dança é buliçosa, tão dengosa, que todos querem dançar. Mais gostoso de dançar que de comer. Gostaria. Bruna Linzmeyer, dançar um maxixe e me cortar neste azul flamejante. Não te importes, loucuras de noites insones. Fazer-te girar em meus braços e inebriar-me nas profundezas do teu mar. Não, não quero mais do que isto. Mandar ao espaço a deprê. Os olhos, estes olhos, enxergam distorcidos, como um Van Gogh. Eles mentem. Mentem para ti. Resguarda-te de teus olhos. Aurinha de Tuninho Gomes, teus verdes me cortavam como corta a Bruna hoje. Tempo, oh tempo, que fizestes daqueles fachos gloriosos, luzindo sobre nós na Capela de Joaquim Machado? Quando o verde de teus olhos se espalhar, não quero não, fico alegre, fico triste, acaba vadiação.
                                               

                         

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

AMOR AOS BICHOS














                                                 

            Noite destas aconteceu um acontecido que se não fosse sonho diria fora vivido. Talvez houvera sido na casa de Antônio Carlos, Creonte para alguns, Carrera para outros e ainda ACF para mim, não sei. Sim que havia alguns cachorros e algumas cadelas, sucedendo que algumas entravam no cio e procuravam as pessoas para si esfregar, como acontece com os cachorros que sobem em nossas pernas procurando se masturbar. Não me lembro se foi a lambiscóia ou outra qualquer entre as mais de cinquenta, trezentas, sei lá quantas as têm o ACF. Sentei-me em um de seus sofás que não mais serviam do que  repouso de cães e gatos, vivendo, alguns, fraternalmente como não vivem os humanos, quando ela subiu no meu colo e começou a se roçar em mim. Asco, senti inicialmente, mas como sofria um jejum não muito adequado ao homem, comecei a acariciá-la e quando me dei conta estava masturbando-a sem a menor cerimônia, embora muito preocupado em chegar alguém e me visse praticando aquele ato. Pensei. Melhor do que atentar contra a dignidade e pureza de uma menor, como estão fazendo por aí afora, havendo casos até de pais  entregando  filhas em troca de alguns trocados por não haver  outra forma  de lhe chegar às mãos o metal.  Estava eu enleado neste ato quando percebi  alguém se aproximando. Tive de parar. Mesmo tentando  esconder, o sujeito iria perceber, porque minha mão estava impregnada de líquido vaginal e a cadela, parecia estar realmente gostando, começou a ganir e subir em mim.  O cara, não me lembro quem, nem quero lembrar,  um dos serviçais de Antônio Carlos, começou, com uma mangueira,  a regar as  plantas.  Para disfarçar e poder continuar pedi-lhe que  lavasse meu carro, fora na calçada. Iria quando acabasse de regar as plantas e limpar os dejectos dos animais. Abelhudo. Uma vasta casa, cercada de jardins, pude adivinhar.Iria se fazer de ingênuo para  ter certeza do que eu estava fazendo. Levantei-me, escondendo as mãos, entrei no banheiro e tranquei a porta, que ninguém visse minha situação. Estava excitado e confesso,  gostaria de ter trazido a cadelinha comigo. Gritei para disfarçar.Vou tomar um banho, sabendo que Creonte não iria ouvir, também pela zoada infernal de cachorros, gatos, papagaios, pássaros diversos e ainda  o estrondo de aviões, a cada cinco minutos,  tão próximos passavam em riba  da casa, situada na rota de pouso do aeroporto, que, estando na laje, não se podia  suspender os braços, por não serem levados por asas, rodas e trens. No banheiro, tirei a roupa e fiz o que não pude fazer no sofá. Deu-me uma sonolência boa e relaxante, mas não me aventurei a deitar no chão, receio de pegar doenças pelas fezes e urina dos bichos, embora parecessem limpos, pois se cuidava bem da limpeza, percebia-se, lá bem longe, um cheirinho de urina e fezes misturado com o odor de detergentes. Ouvia-se o assobio do regador lá fora, já agora mais perto, talvez limpando sujeiras, talvez bisbilhotando meus atos. Iria conversar com meu amigo. A relação entre o homem e os animais no tempo, na cultura dos povos.  Abri a porta do banheiro, chamando-o. Dei-me sobre uma vasta esplanada onde homens trabalhavam como loucos sob as ordens de um senhor que se fazia chamar de Jean-Baptiste Colbert  na construção de um castelo,  enquanto um urbanista de nome André Le Nôtre  comandava outro tanto de homens na construção de um gigantesco jardim e, mais além, um indivíduo a quem chamavam M. Le Brun, Charles Le Brun fazia carregar estátuas colossais sob o olhar de outro senhor que se dizia alarife e se chamar Jules Hardouin-Mansart. Que pomposo. Milhares de anônimos alvanéis, operários de todo tipo e tamanho.  Enormes carroças transportando a terra retirada para se fazer canais e fontes, outras carregando os restos mortais de árvores sacrificadas, ali vinham outras empilhadas de árvores a serem plantadas. Tanta azáfama e esforço de  animais e homens. Pensei. Como estaria o juiz que proibira o uso de jegues na lavagem do Bonfim? Teria ele, uma crise de consciência por nada poder fazer  contra esta maldade? Sim, era o ano de mil seiscentos e sessenta e oito, construía-se o Castelo de Versailles. Quantos homens morrerão, animais, Quantos?  Em nome beleza, da riqueza?  Quem mais vai se importar com sangue e suor derramados nestas alamedas que embevecerão o turista e encherão de euros as burras da França?  Quem contém a besta-fera, bípede, erectus e implume? Nenhum governo, nenhum déspota, nenhum tirano. Todos foram engolidos pela massa bruta  e sanguinária, juntada se torna uma, independente de cada um, aniquilado por um sentimento único, do qual nunca experimentara antes, nem experimentará depois. Estas ondas humanas destroem continuamente o mundo aos olhos atônitos de uns poucos, isolados, foras do mundo, impotentes e loucos. Quem não se lembra de Antônio do cachorro em Gandu? Assim ficou conhecido por ter degolado a facão um companheiro de tropa e barcaça por este, chegado bêbado da rua, de uma lapeada  ter cortado  o rabo  de sua cadela. Derreando-se sobre a barcaça adormeceu. Antônio, que tinha ido ao rio tomar seu banho e comer sua jacuba, encontrou a  cholinha  ganindo, chorando, sangrando. Pegou do biscol e de um só golpe fez rolar a cabeça e sangue sobre as bagas do cacau na barcaça. Zoofilia? Amar os animais? Mais tarde dirá ao juiz  estar arrependido de ter matado o colega, mas, que fora uma morte merecida. Preferia que ele o cortasse de facão à ter cortado sua cadelinha.
       O mundo virou, hoje é mais fácil você se livrar da cadeia matando um negro que xingá-lo de negro. Matar prescreve, xingar não prescreve. Matar um animal? Toda a imprensa publica. Te condena. Crime bárbaro, hediondo. Matar um bichinho tão desprotegido. A mídia agora registra solidão de cachorro deixado em carro, gatos fazendo sinal de amor com rabo, girafa passeando em zoológico, mas não há fotos que mostrem a real situação do mundo, das pessoas, de seu sofrimento para conseguir um pedaço de pão, uma nesga de cuscuz, um punhado de arroz.
       Mundo louco, não é Védio Polião?

Leda e o Cisne - François Boucher - 1740

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

PINGO-PINGO







Fedor Ivanovitch Chaliapin,  “Minha Vida”. Lê. Um livro e a lembrança do palhaço  Pingo-Pingo. Chaliapin. Minha vocação de ator? A Marmonov, devo. Jacob Ivanovitch Marmonov. Tinha doze anos quando o vira atuando, numa barraca de natal. Iachka, (Assim era conhecido em todo volga) cantor e clown, de meia idade, físico notável, um tanto bojudo, de bigodes negros e espessos e olhos ferozes,  divertia o povaréu inculto.
Brasil, sem a tradição  da Rússia, o mais cabotino pode superar grandes dos nossos. Isto não impede um palhaço de circo mambembe influenciar algúem para a arte.  
Pingo-Pingo. Quanta ingenuidade, e no entanto, quanto admirado, por nós crianças e adultos. Foi ele, meu  Iachka? Serás lembrado  nos camarins da Escola ao se maquiar para um espetáculo, o professor João Gama corrigindo o exegero.  Quem nunca viu, venha ver -  Em coro, a garotada: Pingo-Pingo vadiar. Oi de lá, venha ver. Pingo-Pingo vadiar. De rua em rua, em Capela, seguiam as pernas de pau, anunciando o divertimento. Tinham entrada garantida. Um homem comum, começava a crescer, (nem precisava as pernas de pau), com as tintas encombrindo o rosto.  Anos depois vai ouvir. É como se eu fosse deixando de ser Luiz Carlos Vasconcelos e me tornasse pouco a pouco o Xuxu.  Assim nos sentíamos, de cara pintada, transformados. Orgulho em ser pintado até que nos obrigassem  a desfazê-la, sob  protestos e choro, a marca de entrada, no braço, não poderia ser desfeita.  Eu, às escondidas e  a contragosto de papai, seguia o truão, coisa de moleque, dizia. Inveja dos outros. Seus pais não ralhavam e até gostavam, alguns.  Apanhar, não apanhava. Apanhei pouco. Era só um olhar e tudo parava. Assim, com a bola,  em frente a casa de Maria Pinhão. Bola de meia batendo nas portas ou caindo nos telhados.  Era assim, se pegava num  badogue. Coisa de malandréu, dizia.  Ator, nem em sonhos, nem mesmo sabia o que era, mas ali, talvez a iniciação. Mistérios dionisíacos. Mais tarde, na Europa,  enquanto lava um prato e outro, atua. É marroquino e turco. Apache do Tororó, Cavaleiro de Bagdad, indiano e ciclista no Les Cracks de Alex Joffé com Bourvil,  Robert Hirsch e Monique Tarbès, bulletin de paye, trinta novos francos ao dia, chez Regina. Pierrot em "Amor e Vida de uma Colombina sem Amor", de Jesus Chediak, soldado e juiz em Exceção e a Regra Brecht/Hackler and so on. Por minha palhaçada,  perdido  o papel no seminário, primeira vez no palco, seria. Aos gritos,  caído no palco. Exagero. Os frades o mandaram descer. Primeira decepção. Horus, espera  tu hora. Da. Vem, vamos embora, que esperar não é saber, Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Vandré. Onde estás agora? Meu coração chora. Onde te levaram as torturas? Primeiro de abril, a caminho da escola. Tanques cercavam a Faculdade. Voltou correndo. Queimam, os estudantes, jornais. Gritos na Praça Municipal. Manifestações. Polícia. Cassetes e cachorros, o couro come.  Correr. Entrou  na Confeitaria Colombo, atravessa o balcão, finge-se de  garção. Que Manolo não me ponha porta a fora. Policia socando o cacete na estudantada. Se já tinha vontade de vazar daqui, agora mais do nunca. O último a sair apague a luz. Meninpedra rola, mas não faz limo.













                                                      
                      Era uma construção bem antiga, onde se encontrava Inicialmente. Não há como descrevê-la por inteiro. As paredes eram de pedra, enormes, retangulares, sobrepostas sem qualquer outro material que as sustentasse. Um corredor grande e amplo dava para uma esplanada maior ainda. Ele seguiu este corredor, ao que parece com outras pessoas. Vê um vasto mercado a céu aberto. Tecidos, joias, bois, vacas, cavalos, camelos, animais, objetos diversos. Andou sobre o muro observando tudo aquilo. Desceu a um curral de gado. Muito gado branco azulado de chifres em forma de lira. Guzerá. Um boi se enfezou e arremeteu contra ele. Foi rápido, pulou a cerca e subiu no muro. Mais na frente, um cavalo, cujo adestrador tentava mostrá-lo aos comerciantes. Mercavam-se preços, davam-se lances. O cavalo se lançou sobre ele. Muito destro, saltou novamente sobre o muro e saiu correndo, buscar um lugar baixo, eis que todo o muro eram alto,  para se atirar fora dali. Quadrada, grande, imensa  a esplanada com suas paredes cobertas de limo, aumentado nos seus quatro cantos onde havia caleiras. Teve de contorna-la toda para encontrar um local mais baixo que pudesse pular sem se machucar. Chegando ao canto do lado leste, jogou-se lá de cima e caiu sobre um lamaçal. Tentou levantar-se, não conseguiu, estava grudado à lama. Gritava por socorro, ninguém lhe ouvia, pela algazarra da feira e dos pregões, ninguém deve ter percebido quando se jogou muro abaixo, ninguém lhe deu valimento. Hora de morrer, calma, não posso perder a calma. Manter-me  tranquilo, como no Farol da Barra. Quase afogado, a calma me salvou. Como areia movediça, mais me mexo, mais me afundo.  Sempre encontrei uma solução para tudo, não é agora que vou me deixar morrer. Mais forte do que eu, sou eu. Agora é pensar, a razão há de vencer, não juízo e sentimentos juntos. Aguenta coração, ajuda tua irmã. Entender o dentro e o fora. Dupla luta. O mundo ao redor, imenso, ínfima pedra lançada ao atoleiro. Dentro de si. Criança escanchada  na mãe, enquanto ela procurava a chave no telhado,  no chão, para melhor procurar. O galo investe contra ele. Esporões no ar quase roçando os olhos. A mãe contra o galo com o rebenque de espantar bichos, preso ao pulso. Minutos, eternidade, horas,  minutos. Na casa de farinha, vamos trabalhar meu boi, conserto de roda, olha este menino ai,  facão no olho fere, vê Nanã nas poças, colhe folhas de hortelã.  Curar  olho ferido. Pai fugindo de casa,  São Paulo trabalhar.  A irmã comeu jaca. Febre, delírio, do tifo. Caroço e casca,  xá do bom, receitou a rezadeira,  curou. Chega a Capela,  cabeçote de Pedrão.  Pedrinho trazia a irmã. vê. A carnaúba. Obra de Joaquim Machado. A escola marchando em torno dela. Não, não vai morrer ali como um porco atolado na lama. Silêncio profundo. Não mais pensar em nada. Em si, nesta hora de aflição. Todas as forças aqui dentro, todas as forças do universo. Seu corpo começa a enrijecer-se, a esquentar, como em febre. O mundo em torno de si. O dono do mundo. Posso e te ordeno. Venham  sobre mim, uma só força façamos. O mundo roda, medo, mas firme. Como um Deus saído do fundo da terra, um jato d´água lhe atinge com força e ele foi-se desligando do l charco e jogado ladeira abaixo, como uma pedra rolando. No fim da ladeira, um beco, a água  empurrando-o  até uma praça, nunca dantes vista, humildes casas de telhas e beirais, azuis, verdes, brancas, amarelas. Pessoas corriam para um lado para outro,  perdidas. Uns tentavam se abrigar na Igreja Matriz, outros fugiam em direção ao mato. Ninguém sabia o porquê. Corriam e corriam ou por querer ou porque empurrados pela multidão. Também  ele saiu em disparada. Chegaram a uma grande área aberta, um campo de gramíneas, pasto para animais, talvez. Extenuado,  caiu e  a multidão, como o estouro da boiada, atropelando-o. Por mais que tentasse se levantar e correr, não conseguia, as pernas lhe pesavam e era como se houvesse  alguma coisa segurando-o por baixo, pelas pernas. Percebeu que as pessoas não o viam, porque passavam por cima dele sem se desviarem. Neste momento, caiu uma chuva, ao lado, viu  uma lona amarela, pegou-a e se cobriu. Algumas pessoas suspenderam a lona, mas ainda assim pareciam não vê-lo. Falou, gritou fez gestos, tudo para que o vissem, em vão, ninguém o via. Não, não pode ser possível, isto é um sonho. Tentou, então, acordar-se, não conseguiu. Sonhar acordado, pode ser bom, mas aqui é pesadelo. Quantas vezes sonhou  sonhando? Quantos sonhos interrompidos e continuados a seguir?  Quantos com a mesma pessoa, conhecida só  de sonhos?  Sonhos dos sonhos, lembrando-se de já ter sonhado antes. Com um esforço muito grande e safanão no ar,  acordou, mas não pode levantar-se da cama, algo o sustinha ali. Sentiu puxarem-lhe a coberta, não era ninguém, uma força invisível fê-la voar para o alto e entrar em uma argola que se desfez.  Gritou. Mamãe, mamãe, esticando o braço  para ela. Veja aquilo, Veja aquilo. Aí sim, viu que estava de novo sonhando.  De vez acordou. O telemóvel marcava  seis horas e cinquenta da manhã do dia vinte de dezembro de dois mil e treze (Pois o mundo não acabou em 2000) não havia galo a cantar, nem galinhas a cocoricar, nem cujubim para chamar o dia mas outros pássaros no pequeno bosque da casa de frente a seu prédio chilreavam alegremente anunciando o novo dia. D´outro  lado, na varanda, suas plantas recebiam os primeiros raios do sol. Coaraci alumiando o mundo. Os primeiros automóveis deslizavam no asfalto húmido pela garoa noturna. Ouvia-se o ruído de um liquidificador vindo de um dos apartamentos. Suave soava o elevador no sobe e desce em sua caixa. Primeiros sons da cidade despertando de seu sono. Uma ambulância passava, sua  sirena  emitindo  ondas sonoras em frequência  para si  desconhecida, mas lhe mostrava o caminho de viver. Gozar o dia, o amanhã ninguém sabe.