sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019












                                 Agora, sim, ele extrapolou. Onde já se viu publicar um poema de uma pessoa que nem personagem é? Acho que está na hora de chamar a todos os personagens à uma assembleia para decidir o que  fazer com este traidor. Um autor não pode sair por aí jogando conversa fora, esquecendo seus personagens, afinal de contas nós somos a verdadeira razão da existência do romance, sem a nossa presença o autor pode chamar de tudo o seu escrito, menos de romance. Que ele não venha pra cá com esta conversa de nouveau roman, de que os personagens são secundários, de que a história não vale nada, de que o homem não é mais o centro do mundo, e todas as papagaiadas de Robbe-Grillet e seus seguidores, que eu perguntar a ele, para que serve esta porcaria de mundo se não for para a gente.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019











                   Meu Porto é velho
            Porque o trataram até ficar assim

             Meu Porto é velho 
             Porque o abusaram até ficar assim

             Meu porto é velho
             Porque abraçou todo mundo que chegou
             Mas não ficaram
             E não ficam
             Chegam bem da água
             Cospem (n)as águas

             O sentimento de pertence
             Que não o pertence

             De tantos imigrantes
             Um ciclo exploratório
             Seguido de outro
             De ouro
             De  outro
             Do outro...

             Meu Porto Velho
             É um Brasil 
             Dentro Brasil
             Com exploradores
             Importadores de outros estados      
             Que o dominam sem pertencer
          
            Seus índios são eleitores saudáveis
            Que em políticos médicos
            E deixam seu povo doente

           Meu porto não é tão velho assim
           Mas basta! Basta de exploração!
           Meu Porto? Reflexo do Brasil
           Onde o povo começa habitar esgoto
           Por causa de político escroto
           Que ainda faz do país colônia
             
          Meu porto, que no nome tem 'velho'
          Ainda é novo, lhe permitam errar...
          Tantos anos de in-de-pen-dên-ci-a
          Sem a decência de lhe deixarem acertar?

          Brasil dentro de Brasís
          Que por falta de memória
          Lhe roubaram a história

          E faz do povo escambo
          Ao invés de heroico
          E o sol, que deveria de liberdade
          Que deveria acordar
          Parece cegar mais
          Os que ainda dormecem

         Mas tudo bem... Quem nunca falou mal?
         Nascendo, crescendo, vivendo aqui?
         Mas tudo bem, o patriotismo é mais bonito pra estrangeiro ver
         Afinal, fomos criados com a ideia
         De que o que é de fora vale mais
         Mais bonito, mais bem feito
         E satisfaz

         Um dos motivos da luta
         (E sim, ainda há resistência)
         É dizer
        Que mesmo não nascendo aqui
         'Sou beiradeiro sim'
        E que não o pertencer
        Meu bem, é só ir embora
        Porque um dia o rio chora
        Mas no outro dia ele sorri... 
                                                     LUCIANA REBOUÇAS
         
              

quinta-feira, 11 de outubro de 2018














                                Rapaz, eu te disse, vai com cuidado, o Brasil é país povoado por pessoas que parecem gente, cagam,mijam, comem e bebem, mas tudo ao mesmo tempo. Te preveni, não preveni? Mas ainda assim, você cometeu um erro imperdoável. Vocês não têm um especialista em comunicação,  não? Temos, mas onde erramos? Em verdade, eles foram até injustos com com você, se eles tivessem pensado um pouco, teriam percebido que você estava fazendo propaganda exatamente do cara que vocês acham que estão combatendo. Veja, Roger, quando você, para atacar alguém fala somente dele, sem mostrar o outro lado, e portanto sua preferência, você estará fazendo exatamente o contrário do que pretende. Você está fazendo propaganda do cara. Olha aí, um idiota anda dizendo por aí, que você é cafonérrimo. Pink Floyd, vocês representam o que de melhor se fazia em música naqueles tempos, a resistência é marca registrada de vocês, não ss pode jogar tudo isto fora. Acho até que você foi enganado pelos promotores do espetáculo. Eles poderiam ter dito que a plateia brasileira é elitista, de direita e até mesmo nazista. Só eles podem comprar um ingresso a turma de esquerda, se comprar um ingresso vai passar o resto do mês passando fome. Te jogaram no meio dos leões. Não é assim que se faz. Uma análise bem feita poderia ter evitado vexames, e se poderia outra maneira de ajudar o candidato de esquerda que você, infelizmente não teve nem pronunciar seu nome, terminando por fazer propaganda gratuita do candidato que você queria combater. Vamos ver na outras cidades, como se deve fazer, mas se você não me ouvir é melhor nem me procurar. Estou cansado de pregar no deserto.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018













                                              A Kim me ligou. Sim, cara, a Kim Kardashian, ela enche o saco, com seu papo chato.É uma bela pessoa, mas tem hora que é insuportável. Quando começa falar de uma coisa parece que não acaba nunca. E o pior é que a gente tem de dar-lhe total atenção, senão ela vira uma jararaca. O que conversamos? Rapaz, sobre tudo. Ela não tem limites, fala de tudo e de todos. É até simpática, pode acreditar, apesar de  esparramar esnobismo para todos os lados. Quer por divina força, que volte a Paris, lhe mostrar os lugares que morei, os bares que frequentava, quer esmiuçar minha vida. Não lhe negar tais pedidos, não posso porém, desvenda-lhe toda minha vida. Quem o faria? Quem não tem segredos para levar para o túmulo? Lembro da Sissel. Dizia. Um dia vão te arrancar tudo dentro de ti. Eu dava  risada. 

sábado, 15 de setembro de 2018













                                       


O dedo na porca de olho na porta até estremecer dedo dedos punho punho mão mão inteira em ti nas ruas do Julião  vagidos de gozo e dor no abandono do tempo caído sobre teu corpo por brutos violado cordas  que o tempo viola  aturdida fome de carne e luz  espaço  zaratempô seca a voz beber queremos todos escravos grita serás ouvido na língua do mundo grande pequeno estranha rebeca  diz histórias faz sonhar e correr mundo abre alas  quero passar como Zé Mancambira queria sou eu sou eu o Mancambira do mundo Horus d´Isis sou eu renascido na noite em Paris perdido na porta do globo abandonado n´amplidão hostil perdulário e pobre pede um sou pagar o omelete comido na Saint-Germain com que cara se riu Gandra rio Sena, qui cena atirei no mar o mar vazou atirei na moreninha baleei o  meu amor no mato verde que sonho não vejo o mundo acordado vai ensina o mundo e aprende kar cidade  sol amon  razominorum sacode este coco moreninha não deixe o coco cair desce do céu te quero na terra  saciar a sede matar a fome verte  lágrimas irriga a terra mãe de todos os começos joga teu laço apanha o ar derrama sobre nós folhas caídas sob os pés silvo de vento e água trêmulo e faminto à busca d´aconchego com frio não entende o flic sem fric onde vai dormir está rodado o suplicio da roda chuviscos de outono vento arrastando folhas sapatos molhados nos pés quebrados versos versus mundo estou in mundo ne ‘stou eis a questão d´água surge a mulher a mesma semper  vestes  transparentes vestais renovados sonhos  ondas do infindo de onde vens eterna  visão de noites em criança tenra nas camas de lona e vento das noutes frias de inverno ao fogo do longo verão desperta-me mil chocalhos de mula imaginária cavalgadura dos sonhos de menino ensandecido por los mistérios da vida  pulula em cada canto  brinca de esconde-esconde chama ardente inapagável alimentando o pensamento viagem per Il  mondo ver é vencer é gozar mil cores  noites  gozei  estreladas como um Van Gogh cantigas de roda ouvir meninas Pai Francisco entrou na roda Teresinha de Jesus de uma queda foi ao chão que Ninguém me tribute lágrimas, nem lamente minha morte, a caminho estou  imortal faço meu Rubicão a ti fortuna acompanho aos fados me entrego veneno da solidão  sacode a poeira vencer é amar moço lindo cobra Norato sou eu sou eu corre corre corre mundo já não canta aracuã no pé de juá cantar o canto triste tarde vento quente  sestroso balançando a capoeira, derribando algarobeiras, monzês e aroeiras serenata  batuque acorda Nepomuceno ensina Brasil.




quarta-feira, 15 de agosto de 2018











                                                      
                                                       
E como não lhe davam pedrinhas para comer misturada à ração diária, as aves passaram a comer areia, pedaços de metal, vidro, ossos, pedaços de ladrilho e tudo que encontravam para substituir as pedras de que necessitavam para a trituração dos alimentos. Assim, estes objetos se quedavam na moela, pois não  eram digeridos pelo suco gástrico e às vezes chegavam a obstruir o intestino. As pobres  aves ficavam então tristes, penas ouriçadas, asas caídas, cambaleantes, sem fome, sem defecar ou com diarreia e depois morriam como gado que pela seca, comia pano, papel, papelão, borracha e plásticos. Iam ficando tristes, pesados, lentos, preguiçosos e caíam para não mais levantar. Morto, abria-se o bucho, incrível aonde leva  a fome. Com fome, também o homem faz coisas que ele próprio duvidaria. Como cães comem as próprias fezes, sedentos bebem a própria urina.  Nas noites de Paris, corrido da Feijoada, corria atrás de pratos pra lavar por comida. Enxotado por uns, acolhido por outros. Comer, inda levar para Jussiê,  envergonhado de Quixeramobim. Filho de padre e freira. Trígamo guloso. Aventureiro, irias morrer se fosses  a Florida de jangada, mesmo com rezas ao Nkisi Tempo, Viracocha, Anubis. Tu não atravessarias o Vale. Que sorte, quantos não morreram enterrados nos claustros. Olorum didê. Ficastes para contar.
Estou contando a história de Jussiê, com 18 anos,  analfabeto e aos trinta encontrado na Sorbonne, Universidade de Paris estudando letras e literatura francesa. Falava-me  de seus 11 irmãos, criados no Quixeramobim, terra dos quixarás, comendo jerimum, tocando todos, algum instrumento, que padre e freira revoltados proibiram de estudar.