sexta-feira, 22 de junho de 2018











                                       O cair da  tarde é para muitos momento de tristeza. Tenho um amigo. Não posso dizer quem. Não sei se gostaria de  ser personagem de um escriba de quinta categoria. Aliás, que tal escrever em arremedo ao nouveau roman? Não, a esta altura, não posso modificar o estilo para esconder personagens, matar histórias, aniquilar enredos e me fixar em descrições que não saberia fazer. Eu até admiro os Robe-Grillets, os Claude Simons, Sarraute e outros malucos daquele momento na França, mas confesso minha incapacidade de seguir seus passos. E para dizer a verdade, é preferível ser um mau escritor original, que um imitador vagabundo. Mas, volto ao amigo. Toda tarde, me disse ele, era atacado de uma tristeza angustiante. Ás vezes saia do trabalho, era delegado federal, pronto, fica só nisto, não mais digo sobre ele, a não que era,também,meu compadre. Procurou um psicanalista, naquele tempo ele ainda acreditava em psicanálise, não sei agora depois que se descobriu as sacanagens que Freud fazia com seus colegas, e os embustes que preparava para manter seus pacientes lhes pagando a peso de ouro, sem nunca ter curado alguém. Pois não é que o psicanalista descobriu a causa de sua tristeza e o curou? Assim diz ele, se não estiver mentindo ou mais louco ainda. Criança ainda, mais ou menos ao fim da tarde, morreu um parente seu, um avô, bisavô ou coisa que o valha, alguém muito importante na família  e foi um chororô danado por toda casa, cheio de parentes e curiosos.
                            Pois, em mim, o cair da tarde não me traz tristeza, talvez algumas lembranças do passado, uma boas, outras não tão boas,  não especificamente triste. Um cantar da nambu, da saracura três-potes, os últimos gritos do bem-te-vi; Mas, lembro com certa nitidez, de meu primeiro encontro com Frei Teodoro. Fui entregue a Frei Virgínio que me deixou esperando a aula de música terminar. Ouvia o baixo de Frei Teodoro, e os meninos fazendo vocalise. Não sei se foi a partir daí que tomei gosto pela música, também batuques lá da roça já me aguçava a sensibilidade. 
                                    As tardes me levam para a Piedade, vejo seu órgão, ouço Tocata e Fuga em ré menor de Bach, seus dedos passam ágeis e tranquilos sobre o teclado. Quando entram as semicolcheias da fuga é um turbilhão. Como um galope, me sacode por dentro. Como te invejo, Sebastian. Queria escrever como tu escreves. Este repetir constante em contraponto e polifônico não se pode fazer aqui. As letras me limitam, tu tens sete notas tão somente, mas uma infinidade de sinais de tempo e tom que não vejo nas palavras de nenhuma língua, todas incapazes de traduzir as setes notas que o compositor usa. E a variedade de instrumentos. A rabeca de agudo tom e o rabecão de sons potentes e profundos.
                                      Já vistes. Sou um apaixonado por musica, não é que não goste d´outras artes. É que a música, como a mais abstrata, não precisa ser entendida, basta gostar. Agora mesmo. O dia todo ouvindo Rameau,  Rondeau des Indes Galantes. E pensas que me cansei? Como se cansar, se além de ouvir Magali Léger, sua voz soprana e doce, vejo um sorriso brejeiro, encantador, sua firmeza em dizer a notas de seu canto. Rameau sorri e agradece do além.
                                       

Forêts paisibles, Jamais un vain désir ne trouble ici nos coeurs. S'ils sont sensibles, Fortune,
ce n'est pas au prix de tes faveurs.
CHOEUR DES SAUVAGES
Forêts paisibles, Jamais un vain désir ne trouble ici nos coeurs. S'ils sont sensibles, Fortune, ce n'est pas au prix de tes faveurs.
Dans nos retraites, Grandeur, ne viens jamais Offrir tes faux attraits! Ciel, tu les as faites Pour l'innocence et pour la paix. Jouissons dans nos asiles, Jouissons des biens tranquilles! Ah! peut-on être heureux, Quand on forme d'autres voeux?
Já te disse. Gosto mais destes teus cabelos cacheados. É? Já te disse. Não gosto quando você dá em cima de mim. Não estou dando em cima de ti, posso elogiar teus cabelos. Te conheço, Didi. Você vem rodando, cercando a gente, devagar e metodicamente, quando menos se espera, ela cai na armadilha. De tímido você não tem nada. Eu? coitado de mim. Quantas chances perdidas. Vai, me engana que eu gosto. Rapaz, você está soberba como Zima. Sim, eras tu que sorrias apaixonada, ou era Zima? Tive gana de subir ao palco, tomar -te a partitura e te esganar com aquela gargantilha. Nossa, que trágico está você, hoje. Olha que meu marido é ciumento. E daí? não é ele que quero. Brincadeira, você sabe que somos amigos e sou leal. Leal? Se pudesse tirar uma casquinha. Eu que não me abro. Deixa disto. Vamos falar de seu trabalho. Que frescor de interpretação. Bondade sua, sempre gosta do que faço, suspeito. Se fizer um trabalho que não goste, te direi logo. Você deve sempre a melhor. Sinto, por exemplo, certa indecisão no verso Ah! peut-on être heureux. Você pode melhorar. É? que bacana, vou verificar. Talvez, uma questão de respiração.




quarta-feira, 20 de junho de 2018










                                           




  Vôo de 14.08.2003,  vou, encolhido  na poltrona,  afugentar o medo. Passam nuvens, longe e longe mar e terra. Se cair não vou morrer afogado, os peixes não deixam. Caramba, carambola, peidaram no ambiente. O gordão ao lado? Preconceito indecente. Por que teria de ser? Coitado.  O circunspecto senhor, ledor da frente e não daquele lado?  O jovem  ali detrás? Não acredito, jovem não peida solta eflúvios de juventude. Um peido intelectual, destes que saem de mansinho e, inclementes, rodopiam sobre a vítima. Leal. Porque aspirar flatos, só de amigos, que ao menos um peido não nos negam, embora saibam, o peido  é bom só a seu dono. A ele alivia, ao outro, agonia. Avante, saiamos,  buscar a paz noutro sítio.
Voo 1907. Aquela comissária tem os cabelos pretos como as asas da graúna. Viva Alencar. São todas quase belas, as aeromoças. Não um belo exuberante de arrebatar viajantes, mas suave e aconchegante para envolvê-los na travessia do medo. Que fazes tu, poeta, sobre as asas desta nave? 
Hum mil novecentos e sessenta e quatro. Apenas chegado à maioridade. Corrido do golpe que derrubou Goulart. Um avião da Panair do Brasil, destino Recife.  Na mala, carta. O diretor da faculdade o recomenda ao mundo. Noutra, do diretor do serviço médico ao reitor da Universidade de Recife. O jovem vai ficar 5 dias, destino Paris,  peço para hospedá-lo na Casa Universitária. Vôo da Amizade TAP/PANAIR para Lisboa.
Em Recife a noticia. Antecipação do  vôo para o dia seguinte.   Esperar no aeroporto. Nada mais chato. Aproveitar. Conhecer Recife, o centro. A zona. Aprender que garçom em Recife é baiano. As putas, como na Bahia. Moiçoilas  abandonadas pelos país, depois que deram para o namorado ou um aventureiro qualquer. No mais das vezes eram simples aventureiros que cantavam a donzela prometendo o mundo. Vitimas de um machismo atroz.  Se eram ricas e nobres o castigo era o convento, se pobres e plebeias o prostíbulo que aliás não fazia muita diferença. Nos conventos as noviças continuavam a se encontrar com seus amantes com o beneplácito da madre superiora, quando não se tornavam elas mesmas amantes de suas noviças. Em nome de Deus, viva a sagrada putaria, ante-sala do céu. Não, os muçulmanos são mais felizes quando morrem em combate, teem suas virgens lá no céu. O céu cristão só tem  velhos e velhas, beatas babando os olhos do Cristo, nu na cruz pregado, insinuando-se sensualmente, mas, noli me tangere.  Quem quiser que faça sua putaria lá na terra e depois peça perdão para entrar no céu, como fazia Santa Tereza. Um serafim descia lá do céu e vinha jogar sua lança nas entranhas da santa, um entra lança e sai lança que não se sabe como o danado não a engravidou. Por certo era estéril, como todo animal híbrido. Se quiser pode comprar indulgências a preço de ocasião. O papa precisa de dinheiro, fazer as Cruzadas,  fomentar as guerras,  conquistar almas para o Cristo guloso.
Me  vi debaixo das pernas daquela aeromoça inclinando-se a pedido do passageiro, acomodar sua maleta. Como te chamarei? Não importa. Serás mais umas daquelas sem nome que passam como cometas por nossas vidas, alumiando, apenas por segundos o espaço sideral. Depois, foi aquela francesa,  velha  chata. Reclamava de tudo depois pedia-me que  traduzisse seus xingamentos. Reclamou quando em Aracaju o avião foi reabastecido em tonéis. Novo para ela, para mim, muito mais.

terça-feira, 15 de maio de 2018











                                     




                                                                 
Não, este aí, ainda não foi D. Lela quem o escreveu, nem o padre Antonio dos poemas parnasianos da pomba na mão,muito menos um jovem de agora antenado com o zap-zap, internet e redes sociais. Curto e seco. uma crônica policial dos tempos em que a polícia, ainda ingênua, não tomava  o produto do furto e soltava o preso, com um relatório  sucinto, “o elemento evadiu-se do local do crime”, ou ainda, quando o meliante recalcitrante teima  em não dividir o butim e é sumariamente executado e em seguida  lavrado um “auto de resistência”  fotografando-se-o com uma arma na mão.
- Este o resultado na America Latina, depois da tomada do poder por esquerdistas. Trovejou Amando.
- Engano seu, a corrupção não é privilégio, nem criação da esquerda. Você está sendo inoculado com o veneno de jornalistas corruptos e vendidos ao capital. Estourou Didi.
 Ficava indignado quando alguém atribuía a corrupção unicamente à esquerda, tentando obscurecer o fato de a corrupção ser  um fenômeno tipicamente capitalista.
- Sim, porque, o capitalistmo valoriza  o capital e desdenha do trabalho. Logo,  mais propício à  corrupção, dizia, tu ouves apenas o sino da igreja. É preciso beber informações em outras  fontes. Os jornalistas são empregados do grande capital. Você queria que eles falassem mal do capitalismo, para perder o emprego? A corrupção está grassando porque o capitalismo venceu o socialismo.
- Se capitalismo venceu o socialismo é sinal que o socialismo não presta, sarcasticamente, disse Amando.
- Ter vencido o socialismo não significa ser o melhor, pode-se admitr, e é verdade, que tenha sido mais forte, mais eficaz, inclusive na  corrupção. Foi com a corrupção que o capitalismo elegeu Karol Józef Wojtyła, que se tornou  papa João Paulo II.
- Aí você foi longe demais, disse Amando.
- Longe demais? E que você me diz de João Paulo II ter ajudado a corrupção no Leste Europeu para vencer o comunismo?
Quanto se reclama? Já tem gente dizendo que o autor tirou da algibeira o Amando. Saído não se sabe donde, nem para aonde vai. Acostumados a um anuncio do personagem, uma apresentação, muito prazer em conhecê-lo, o prazer é todo meu. Não suportam uma aparição assim de repente, como se a vida fosse ordenada. Teimo então mantê-lo, que se acostumem. Isto não é matemática. 2+2=quatro. Fica aí Baixinho, era Baixinho seu apelido, só o apelido, porque tem quase dois metros. Para contrastar, no banco onde trabalhavam, existia também o  Grande, talvez menos de metro e meio. Baixinho era do interior de S.Paulo, Grande, potiguar. Amando, Amando? Fica-te por aí para aguçar a curiosidade dos leitores.




sexta-feira, 30 de março de 2018

A VIAGEM OU A MANCHETE








Eram dezoito horas e trinta minutos na estação rodoviária do salvador. Janeiro, dez do ano de mil novecentos e setenta e cinco. Era um vai e vem constante dos que se apressam em viajar. Negócios. O homem corre sacolejando sua pasta e suas esperanças. Abre sua gravata ao calor tropical. A velha arrecada dos viajantes uma moeda: precisa viajar não se sabe onde. Nunca tem o dinheiro completo e vai-se deixando ficar interminavelmente. No ar, o zum-zum-zum da gente, as ondas curtas da Central de Operações, o estampido fumacento dos motores
Na plataforma C “Soldadinho” amava. Brilhavam seus olhos e seu coração. Miriam lhe dava mais segurança que suas armas.. Miriam abria seus lábios na sua boca. Nos seus ouvidos. Sussurravam. Iriam fazer uma linda viagem. Antes de chegar no Recife assaltariam o ônibus e teriam dinheiro para bons dias nos hotéis pernambucanos.
A calma dos que confiam em suas forças. Nem sequer se lembravam dos assaltos praticados na Bahia,  quando deixavam suas vítimas inteiramente nuas. Apenas apreensão. “Paulista e Branquinho” ainda não tinham se reunido a eles. Atrasaram-se, com certeza, iriam perder  o ônibus. E a passagem está custando tão caro! Não vale mesmo a pena trabalhar neste país: o dinheiro não vale nada.
Amavam. Os braços morenos encontravam-se e se entrelaçavam, num apertar e afrouxar quase rítmico. O ônibus entrou na plataforma. Recife. Duas, quatro, seis, oito mãos fortes seguraram seus braços amorosos. E trocaram -  bocas, inda abertas pelo beijo,  o conforto do carro-leito, pela desordem da camioneta policial
- Para a delegacia  – Grita, colérico, o policial, e  mais para si - hoje arranco tudo destes dois.
Sirena, fumaça e medo  fustigaram o ar. Quem depois conseguisse romper o engarrafamento de Salvador  e se aproximasse dos porões  da primeira delegacia, talvez ouvisse os urros abafados de um homem. Não. Não. Os assaltos sim. Não matei Negão Laranjinha, ou o soluço de sua mulher e o grito de ciúme :
 - Deixem minha mulher em paz, seus desgraçados.
A Bahia dormiu e acordou com o alarido dos jornaleiros. Preso o assaltante Soldadinho.















terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

                                                   












                                                     
                                                         
Contozinho mais chulé. Ainda assim, vai ser mais lido que tuas maluquices. Tu vais ver. O ACF me fala sempre. Não adianta escrever assim. Ninguém vai ler, eu não leio, imagine os outros. Foi incapaz de ler uma página do Finnegans Wake. Também, pudera, já começa com um tal de riverrun, rolarriunna que ninguém sabe o que é. Rolembergue numa noite em conversas (Rua D´Assas, 16,  Paris, quando perdi o emprego de lava-privadas da Messageries Maritimes.(Duro levantar-se às cinco, quase sem dormir), se encantou com o enredo de romance, nunca escrito, de seu primeiro amor. Um amor não correspondido. Voltando à real dissera da vontade de se vingar dela, ele ficara muito chateado. Que não estragasse tão linda história. Geraldo, um cearense pai-d´égua, também  metido a escritor, impressionara-se com um conto, tampouco escrito, que se pretendia filme.  Foi-lhe contado na pensão de D. Alice, esquina da Mendes Junior com a Praça Rudge, Alto do Pari. O Cristo Assassino. Aconteceu com Lauria, aluno dos Carmelitas. Um crucifixo de ouro prometido ao melhor aluno, dado ao menos merecido. Procissão, do Carmo a Santo Antônio Além do Carmo. Me revoltei, tomei do usurpador um crucifixo, grande,  pesado, e atirei em sua cabeça, prostrando-o no chão. Inda vejo sua cabeça ensanguentada, os olhos esbugalhados como a sair das órbitas. Boca semi-aberta, expelindo filetes de sangue. Esqueço partes e vou à frente, relembro e volto atrás.  Difícil para mim, principio,  meio e fim. Nada tem principio, nada tem fim, algo sempre existe antes do principio e depois do fim. Até admiro,  esta capacidade, esta loquacidade fluente que vai levando o leitor do muito simples e banal até o paroxismo e o gozo com um final feliz. Bernadim Ribeiro não tinha tanta certeza desta fluência da vida quando disse que o livro haveria de ser escrito  como é a vida porque, das tristezas não se pode contar nada ordenadamente. Porque desordenadamente acontecem elas. Não por acaso muitos começam uma história por seu fim, como se estivesse desenrolando um novelo, cujo fim é o principio de tudo. Outros ficam dando  pulos para frente e para trás, alguns contam histórias em paralelo como se nunca fossem se encontrar. Talvez o cinema, com sua facilidade de cortar imagens, sobrepor-se uma a outra, fundir-se com uma ou mais de uma imagem tenha influenciado esta nova maneira de contar  estórias. Olhemos bem e veremos. O homem sempre foi assim. Incapaz de racionalizar totalmente suas ideias. As vidas se repetem? Prometeu, Osiris, Buda e Jesus tem a mesma história, em suas três fases,  partida, iniciação e retorno? Mas nem todos a contam da mesma forma. Não é atoa que existem gramáticos tentando normatizar a fala, dirigindo-a para se tornarem compreensíveis. Quem seria capaz de continuar um história depois de abruptamente interrompido? Mesmo uma dor de barriga pode mudar o fio de uma história. Não dizem que, ao receber noticias de Portugal  D. Pedro I estava cagando sua dor de barriga às margens plácidas do Ipiranga? Nem mesmo os mais íntimos de Deus, os mais santos se livram de cortes de raciocínio. Madre Teresa, dizem, vacinava o bumbum de crianças em Calcutá, quando foi chamada ao telefone. Ao voltar se confundiu, não sabia onde parou e perguntou: Em qual cu tá? Sejamos francos, um contozinho muito do reles, este. Mas o  pior é  que todo mundo agora quer publicar suas porcarias. Se eu facilitar, até D. Lela, perdida na cozinha do Ginásio Gilberto Viana, lá em  Itambé, vai querer publicar receitas de seus quitutes.  Quero, comer, D. Lela, Quero comer D. Lela, gritava a turma no refeitório para desespero dos padres. Polito, amado professor de matemática; Antonio Rocha de pernas tortas, poemas parnasianos enaltecendo tardes primaveris e vôos de  pombas que não se viam, nestes tristes trópicos, Vicentinho e Vicentão brigando com os maiores do internato, no jogo da bola. Vejam só, já estão  me acusando de já estar fugindo da regra máxima do romance. A unidade. Hydra e outros escritos não teriam nada a ver como os demais.
Ora, unidade, lógica, como se a vida tivesse alguma. Só na cabeça das pessoas, não na vida. Vida, pedaço de surpresas a ser superada  a cada instante. Não dá tempo estabelecer caminhos, impor regras. Eles se nos impõem. O fato é que nem sei mesmo se algo escrito foi sonho ou realidade. Se aconteceu na minha mente de autor ou na dos personagens.  Se o personagem é meu próprio alter ego, ou representa alguém de quem aprendi a história. Quem me disse que sou obrigado a esclarecer tudo isto? Quem me assegura que o conseguiria? Deixemos correr a pena conforme leva a vida. Deixa a vida me levar, vida leva eu. E assim vai outro aí. Talvez seja também um dos mais lidos.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O AVISO

                                               














                                                          
O senhor Gregório Teixeira tinha o hábito de mandar sua esposa dormir em casa do sogro, pois este era velho e vivia só.
- Vai, Venância, dormir com teu velho. Coitado, tão só naquele casarão!
       E lá se ia D. Venância passar a noite com seu velho pai. Bem que gostaria de trazê-lo para morar consigo, mas o ancião insistia dizendo: - Só saio daqui para o campo santo. Aqui eu nasci,  aqui vou morrer. Ela não o entendia aquele agarradio a tão bisonho casarão. Seu Gregório aproveitava estas noites para dar umas fugidas. Não tinham filhos, pois dois que tiveram morreram. O Governo não cuida de nossas crianças. Eram três horas da madrugada deste setembro de setenta e quatro. O calor vinha do inferno. E enquanto não tinha dinheiro para adquirir um bom ventilador, ia dormindo com a janela aberta para amenizar seu sofrimento. Entrava um ar fresco, e sua casa sobre o rés-do-chão, montada numa das colinas baianas respirava melhor.
       A cama era de uma madeira barata, comprada à prestações na “Casa do Bem Vender”. Dois meses atrasados  e a ameaça do gerente de vir buscar a qualquer momento o móvel que fazia seu Gregório e sua mulher sonharem sonhos de amor e de esperança. Um lençol encardido escondia o colchão de molas que  lhes fizera o bico de papagaio. Tinham de comprar logo um colchão ortopédico. Era esperar a gratificação natalina. Braços abertos sobre o leito, cuecas fedendo a mijo e bosta, seu Gregório roncava a tranquilidade. Subitamente sentiu uma onda de luz sobre os olhos que só abriram, entre o sonho e a realidade. Viu um indivíduo de estatura mediana. As mãos pretas seguravam um revolver. No rosto, uma toalha. Na cabeça, um gorro. Na cintura, uma corda enrolada.
       Levanta, puto - Ouviu e atendeu.
       - Para o sanitário - Tentou resistir, mas um empurrão mostrou-lhe a força, a sentina e a empusa. Estava sendo trancado. Sentiu. Não teve coragem de gritar. Será que ouviriam? - Ele não ira me matar?
       Uma dor de barriga invadiu seu corpo. Sentou-se no vaso. Espremeu-se. Não saia nada. Se demorou muito não sabe. Se era um homem só, tampouco. Lenta e calmo destrancaram-lhe a porta da latrina. Saiu-lhe um jato de fezes-água.
       - Se quiser morrer, saia daí agora, viu  seu puto?
       Fez-se eternidade. Lembrou-se de que não havia papel higiênico. Não quis limpar-se com a cueca e muito menos com o dedo. Tinha que abrir a porta. Procurar um jornal. Até sorriu. Para que servem os jornais?
    Aventurou-se a abrir a porta Viu não haver mais ninguém. Antes de achar o jornal, achou o lugar vazio do aparelho de TV. O rádio desaparecera. No guarda-roupa camisas e calças se foram. Roubaram-lhe até um mealheiro contendo cem cruzeiros talvez.
    Na mesinha de cabeceira, um bilhete com os garranchos.
  “Ver se fexa sua jinela, viu, seu puto”