sexta-feira, 8 de dezembro de 2017












                     

                                                 

                                                         
Quem não odiaria Védio Polião mais do que os escravos dele? Ele engordava as lampreias com o sangue humano, sendo que a quem lhe causasse alguma ofensa, ele mandava enclausurar num reduto de serpentes
Eis um indivíduo merecedor de mil mortes. Ele jogava  seus escravos para servirem às lampreias de alimento e só delas se servia depois de gordas. Sêneca.“A Clemência”. Ao imperador oferece, Védio, um prândio. E depois quer Condenar o escravo às lampreias por Copo-cristal, quebrado.Esquecestes, Védio, do pai escravo? Rico, forro,  posição social. Estarias mentindo, Sêneca? Aos pésde Augusto, o escravo.
- Quebrem todos os cristais e os aticem ao viveiro, Augusto  para os convivas.
- Achas mesmo que podes tirar  a vida de um homem de nosso convívio, por tão pequena falta e tão ignominioso castigo? Pensas que podes executar alguém na presença de César?Augusto para Védio.
Clemência,  magnanimidade  luxo ontem e hoje.
Pensamentos, a caminho da faculdade. Besta,escolher economia. Vou me dar mal. Matemática e estatística. Por que não, direito? Moda, economia. Cinemainda vou fazer. Védio Polião. Magnanimidade. Perdoar quem roubou meus perfumes? Quem me roubou Syssel? Tenho-te sempre, mesmo que estejas,  Ofélia,  vagando por Elsinore, e algo podre exista no reino da Dinamarca.  As mãos cruzadas. Gumi  entre os dedos,  borrachinha amarrando dinheiro. Hoje longe de teus olhos, numa triste solidão, eu quero o verde, eu quero  paz, guardo comigo teu coração. Toma a  Saint Sulplice, passar pela Igreja. Quantas vezes ouviu aquele órgão? Frei Teodoro, Mundacho  Torto,  números e solfejo. Cantor no coro. Sua missa, o Gloria Et in terra pax hominibus bone voluntatis, laudamus te, benedicimus te.Meu bom Sêneca, devo perdoar os que me fizeram mal?  Ser ou não ser.  Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Derrotas tive, vitórias, tive. Vale viver. Em seu caminho para a faculdade. Noite em Paris. Quartier Latin, bares e cafés.. Noites insones,   manhãs sonolentas.Rue d´Assas. Onde encontrará abrigo um dia chez Madame et Mlle, Zurflux. Varrer a casa, limpar os móveis. Morrer de nojo vendo seu Kiki comer do mesmo pão, beber do seu café na mesma chícara mais amor aos animais que aos humanos. Será por isto as guerras? Encontrará alguém para fazer esquecer as primeiras flechas de Cupido? Ai, vida marvada. Encontraria Hator para descansar sobre seu peito ou passaria a noite zanzando entre em beco e sai em beco, sentindo o cheiro da diamba?  Rua Bruno Seabra, Liberdade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, Todos os Orixás e Todos os Pecados o filho de Afrodite de múltiplos pais  lança a flecha do encantamento. Correndo, chorando para a rua do Céu, seu inferno. Infância. Nem mais pensar.  Aurinha, Carminha e  Mariá, Nem a dos sonhos,  nem outras por onde vagueava seu coração vagabundo. Agora é pra valer. Skrik na ponte do amor vermelho. Ela era pequena, mignon, dizem os franceses. Minhom, se pronuncia. Cabelos curtos de um loiro que não era amarelo. Não tinha os olhos  verdes de Quité, castanhos mesmo. Quase comuns, se não fora  o amor que enxerga tudo colorido. Ai maravilha como vou te chamar? Aimara te chamarei. Impossível ouvir Mercedes Sosa cantando Violeta Parra  e ficar calado, Aimara, me leva pra ti, mi primeiro despertar.
Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
                            Es como descifrar signos sin ser sabio competente.
El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O CARNAVAL DOS SONHOS


                                                                                JESUINO ANDRÉ DE OLIVEIRA
                                                                                         (João Pessoa, Paraiba)












                   Era uma manhã de sábado. Estava assistindo o Carnaval na tevê e atentava para a lembrança.
Para o pobre mortal ela é conhecida como a “festa da carne”, mas não é tão simples assim. Vai muito mais além, esbarrando nos desejos e sonhos que cada um de nós carrega ao longo da vida. É um festejo marcante, principalmente na fase jovem de descobertas, sempre alternada por momentos alegres e tristes.
Lembrei-me, por puro saudosismo, que o Carnaval bom mesmo era de outrora. Em João Pessoa as boas recordações fizeram-se nos clubes da cidade, eventos os quais não tive a oportunidade de presenciar. O do Clube Cabo Branco tinha o mais prestigiado e concorrido entre eles. Carregava a mística do status, da pujança e das convenções sociais inacessíveis para a maioria da população. Um recanto burguês, por isso mesmo deslumbrante aos olhos dos mais jovens. O Carnaval em seus salões tingidos de vermelho e branco era o mais cobiçado e aguardado.
Para os jovens irmãos Fernando e Paulo, esse fato ocorrido nos anos 80 ficou marcado eternamente em suas memórias. Pela primeira vez foram convidados pelos pais do amigo Felipe para a folia do Vermelho e Branco, mas esbarraram na intransigência legal do clube que não permitia a entrada de não sócios, mesmo sendo acompanhados pelos titulares. Lei é lei. Os dois rapazes ficaram barrados, admirando de longe a festa agitada no salão com suas belas mulheres, bebidas e boa música. Ali estava tudo que era desejado, mas seu acesso impedido. Mas onde há vida, há esperança...
Os dois ficaram na porta de entrada observando o momento único de agir, de não deixar escapar a festa – suborno nem pensar, mesmo porque não havia um caraminguá sequer nos bolsos deles.
- Paulo, ficaremos de olho no porteiro e quando ele vacilar na vigilância, nós pulamos  o muro ali na parte mais escura –  arquitetou Fernando na única possibilidade de participar do festejo.

                 - Tá certo. Combinado! - respondeu o irmão mais novo, disposto a tudo.
Não poderiam ficar de fora. Por sinal, eles não eram os únicos, havia outros na mesma situação. Já passava das onze horas e o tempo não apelava, corria fácil deixando à margem o momento oportuno. E ele veio! No instante em que o porteiro saiu para beber água, ou algo parecido, os dois pularam o muro alto dando um bote preciso como felinos. Transportaram a barreira, peitaram a exclusão burguesa e os seus códigos injustos. Nada os impediria de sonhar.
Mal posto os pés no outro lado, os dois caminharam em direção ao salão e quando eles estavam bem próximo, o famigerado porteiro avistou e avisou aos seguranças sobre os penetras.

                - Ei você cabeludo e o outro aí, borá já pra saída! Pra fora!!! – gritou bem alto os brutamontes, rebocando pelo braço os irmãos constrangidos e decepcionados, levando-os até a rua.
Chamando a atenção pelo flagra, a portaria juntou gente. A frustração e a vergonha foram parceiros nesta derrota. De passagem os foliões ficaram olhando curiosamente para o acontecido. Mais ainda sob o olhar debochado de Felipe, que de longe apontava e gargalhava para a miséria dos amigos.
Ali, agora, morria a folia, entristecendo pierrôs e colombinas. Restaram aos irmãos a máscara desconsolada da madrugada ao descerem a Avenida Epitácio Pessoa em direção ao mar. A rua estava escura, deserta e uma brisa constante, batia forte e fria. Tiveram como consolo a trilha sonora do acanhado muxoxo de um casal de corujas, escondido numa árvore, as únicas testemunhas da solitária caminhada dos irmãos. Restou apenas o gosto amargo da decepção e o sonho desfeito pelo destino.
Evoé, evoé Carnaval, abram alas que eu quero passar...

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

DE COMO CHARLES MANSON AMOU SHARON TATE






                                                 Então o Senhor disse a Josué: Saiba que entreguei nas suas mãos Jericó, seu rei, e seus homens de guerra. A cidade, com tudo que nela existe, será consagrada ao Senhor para destruição. Somente a prostituta Raabe e todos os que estão com ela em sua casa serão poupados, pois ela  escondeu os espiões que enviamos. Então, consagraram a cidade ao Senhor, destruindo a fio de espada homens, mulheres, jovens, velhos, bois, ovelhas e jumentos, todos os seres vivos que nela vivia. Está no livro de Josué. E eu digo: Destruam totalmente todas as pessoas dentro da casa, da forma mais horrível possível.
                                       Tu não podes imaginar. Eu quero e tenho, ela, caturra. Diz-me, que conselho tu me dás? Tu a conheces e ela te quer muito bem. Dai-me tua demão.  Sei que me achas estranho, mas quem não é, neste mundo?
                                         

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

EU NÃO ME CHAMO LIL PEEP
















                                       Ninguém merece morrer. Mas, se não morrêssemos onde iriam os Deuses encontrar lugar para tanta gente? Não escolheram eles, a terra como privilegiada? A menos que estejam escondendo o jogo e nos façam uma surpresa, apresentando gente, ou quase gente, ou lá o que seja, de outras paragens deste mundão de meu Deus. Que digo? Pois um cara com tudo pela frente, nas suas vinte e uma primaveras resolve por fim à vida ingerindo dose cavalares de alucinógenos! Dói? dói, mas como posso me lamentar se sei que milhões, neste momento, não acham um punhado de farinha pra comer? Corram o mundo agora, visitem todas as redes sociais, feicebuque, twitter, tumblr, instagram, you tube e o escanbau afora;  Invadam PCs, celulares/telemóveis, Smarphones, yphones, whatsapp e o diabo a quatro e verão: Pelo menos cinco dos que se lamentam pela morte de Lil Peep passam fome ou está abaixo da linha de pobreza. A industria do lazer os distrai. Eles esquecem sua própria miséria e passam a chorar a dos outros. Distraídos, não invejam os felizardos, nem ambicionam seus teres. Muitos ainda pensam, num passe de mágica, chegar lá e apelam para o desporto, a música e até para práticas criminosas. O doce charme da burguesia.
                  Eu, Dá, Horus, Didi, vi. Velho cozinhar pedra, neguinho comer farinha de palmito de licuri - oh quanto azedo - beber água barrenta e salobra, dor de barriga danada,  parto levar mulher, criança moribunda e triste, gado, fome e sede matando, tuberculoso abandonado à própria sorte, padre seduzindo indefesas senhoras, bispo vendendo indulgências, para, foram tantas as coisas que vi. Não tenho tempo de chorar a morte de Peep.  Conselho e água só se dá a quem pede. Tu me pediste. Que disse eu? Toda experiência é válida, o perigo são as consequências. Nem sempre suporta o corpo os delírios da alma. Não nos conhecemos por inteiro, seria  enfadonho se fosse assim. Aventuras trazem vida, trazem morte. Quem sobrevive, aprende, quem não, ensina. Não te disse? Tens a vida pela frente, não vás com muita sede ao pote. E agora Gustav? 

sábado, 11 de novembro de 2017







                                         Cara, odeio esta merda. Depressão. Nueche, chorando, medo, de quê? Quem me atormenta? Sensação de morte, mas não quero, nem vou morrer. Se tivesse de morrer, mataria antes um bando. A noite quase toda acordado, a manhã sonolento e lento.  Só à tarde melhoro. Não choro, é por dentro que ele fica. Assim ninguém me entende. Pensam que brinco, que é má vontade. Incapaz de ver quanto tonto fico num rosto sadio. E assim vou perdendo amigos, filhos e todo elo com o mundo. Me veem como um monstro. Não o sou. Ah, que vontade de dançar um maxixe, o Corta-Jaca. Esta dança é buliçosa, tão dengosa, que todos querem dançar. Mais gostoso de dançar que de comer. Gostaria. Bruna Linzmeyer, dançar um maxixe e me cortar neste azul flamejante. Não te importes, loucuras de noites insones. Fazer-te girar em meus braços e inebriar-me nas profundezas do teu mar. Não, não quero mais do que isto. Mandar ao espaço a deprê. Os olhos, estes olhos, enxergam distorcidos, como um Van Gogh. Eles mentem. Mentem para ti. Resguarda-te de teus olhos. Aurinha de Tuninho Gomes, teus verdes me cortavam como corta a Bruna hoje. Tempo, oh tempo, que fizestes daqueles fachos gloriosos, luzindo sobre nós na Capela de Joaquim Machado? Quando o verde de teus olhos se espalhar, não quero não, fico alegre, fico triste, acaba vadiação.
                                               

                         

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

AMOR AOS BICHOS














                                                 

            Noite destas aconteceu um acontecido que se não fosse sonho diria fora vivido. Talvez houvera sido na casa de Antônio Carlos, Creonte para alguns, Carrera para outros e ainda ACF para mim, não sei. Sim que havia alguns cachorros e algumas cadelas, sucedendo que algumas entravam no cio e procuravam as pessoas para si esfregar, como acontece com os cachorros que sobem em nossas pernas procurando se masturbar. Não me lembro se foi a lambiscóia ou outra qualquer entre as mais de cinquenta, trezentas, sei lá quantas as têm o ACF. Sentei-me em um de seus sofás que não mais serviam do que  repouso de cães e gatos, vivendo, alguns, fraternalmente como não vivem os humanos, quando ela subiu no meu colo e começou a se roçar em mim. Asco, senti inicialmente, mas como sofria um jejum não muito adequado ao homem, comecei a acariciá-la e quando me dei conta estava masturbando-a sem a menor cerimônia, embora muito preocupado em chegar alguém e me visse praticando aquele ato. Pensei. Melhor do que atentar contra a dignidade e pureza de uma menor, como estão fazendo por aí afora, havendo casos até de pais  entregando  filhas em troca de alguns trocados por não haver  outra forma  de lhe chegar às mãos o metal.  Estava eu enleado neste ato quando percebi  alguém se aproximando. Tive de parar. Mesmo tentando  esconder, o sujeito iria perceber, porque minha mão estava impregnada de líquido vaginal e a cadela, parecia estar realmente gostando, começou a ganir e subir em mim.  O cara, não me lembro quem, nem quero lembrar,  um dos serviçais de Antônio Carlos, começou, com uma mangueira,  a regar as  plantas.  Para disfarçar e poder continuar pedi-lhe que  lavasse meu carro, fora na calçada. Iria quando acabasse de regar as plantas e limpar os dejectos dos animais. Abelhudo. Uma vasta casa, cercada de jardins, pude adivinhar.Iria se fazer de ingênuo para  ter certeza do que eu estava fazendo. Levantei-me, escondendo as mãos, entrei no banheiro e tranquei a porta, que ninguém visse minha situação. Estava excitado e confesso,  gostaria de ter trazido a cadelinha comigo. Gritei para disfarçar.Vou tomar um banho, sabendo que Creonte não iria ouvir, também pela zoada infernal de cachorros, gatos, papagaios, pássaros diversos e ainda  o estrondo de aviões, a cada cinco minutos,  tão próximos passavam em riba  da casa, situada na rota de pouso do aeroporto, que, estando na laje, não se podia  suspender os braços, por não serem levados por asas, rodas e trens. No banheiro, tirei a roupa e fiz o que não pude fazer no sofá. Deu-me uma sonolência boa e relaxante, mas não me aventurei a deitar no chão, receio de pegar doenças pelas fezes e urina dos bichos, embora parecessem limpos, pois se cuidava bem da limpeza, percebia-se, lá bem longe, um cheirinho de urina e fezes misturado com o odor de detergentes. Ouvia-se o assobio do regador lá fora, já agora mais perto, talvez limpando sujeiras, talvez bisbilhotando meus atos. Iria conversar com meu amigo. A relação entre o homem e os animais no tempo, na cultura dos povos.  Abri a porta do banheiro, chamando-o. Dei-me sobre uma vasta esplanada onde homens trabalhavam como loucos sob as ordens de um senhor que se fazia chamar de Jean-Baptiste Colbert  na construção de um castelo,  enquanto um urbanista de nome André Le Nôtre  comandava outro tanto de homens na construção de um gigantesco jardim e, mais além, um indivíduo a quem chamavam M. Le Brun, Charles Le Brun fazia carregar estátuas colossais sob o olhar de outro senhor que se dizia alarife e se chamar Jules Hardouin-Mansart. Que pomposo. Milhares de anônimos alvanéis, operários de todo tipo e tamanho.  Enormes carroças transportando a terra retirada para se fazer canais e fontes, outras carregando os restos mortais de árvores sacrificadas, ali vinham outras empilhadas de árvores a serem plantadas. Tanta azáfama e esforço de  animais e homens. Pensei. Como estaria o juiz que proibira o uso de jegues na lavagem do Bonfim? Teria ele, uma crise de consciência por nada poder fazer  contra esta maldade? Sim, era o ano de mil seiscentos e sessenta e oito, construía-se o Castelo de Versailles. Quantos homens morrerão, animais, Quantos?  Em nome beleza, da riqueza?  Quem mais vai se importar com sangue e suor derramados nestas alamedas que embevecerão o turista e encherão de euros as burras da França?  Quem contém a besta-fera, bípede, erectus e implume? Nenhum governo, nenhum déspota, nenhum tirano. Todos foram engolidos pela massa bruta  e sanguinária, juntada se torna uma, independente de cada um, aniquilado por um sentimento único, do qual nunca experimentara antes, nem experimentará depois. Estas ondas humanas destroem continuamente o mundo aos olhos atônitos de uns poucos, isolados, foras do mundo, impotentes e loucos. Quem não se lembra de Antônio do cachorro em Gandu? Assim ficou conhecido por ter degolado a facão um companheiro de tropa e barcaça por este, chegado bêbado da rua, de uma lapeada  ter cortado  o rabo  de sua cadela. Derreando-se sobre a barcaça adormeceu. Antônio, que tinha ido ao rio tomar seu banho e comer sua jacuba, encontrou a  cholinha  ganindo, chorando, sangrando. Pegou do biscol e de um só golpe fez rolar a cabeça e sangue sobre as bagas do cacau na barcaça. Zoofilia? Amar os animais? Mais tarde dirá ao juiz  estar arrependido de ter matado o colega, mas, que fora uma morte merecida. Preferia que ele o cortasse de facão à ter cortado sua cadelinha.
       O mundo virou, hoje é mais fácil você se livrar da cadeia matando um negro que xingá-lo de negro. Matar prescreve, xingar não prescreve. Matar um animal? Toda a imprensa publica. Te condena. Crime bárbaro, hediondo. Matar um bichinho tão desprotegido. A mídia agora registra solidão de cachorro deixado em carro, gatos fazendo sinal de amor com rabo, girafa passeando em zoológico, mas não há fotos que mostrem a real situação do mundo, das pessoas, de seu sofrimento para conseguir um pedaço de pão, uma nesga de cuscuz, um punhado de arroz.
       Mundo louco, não é Védio Polião?

Leda e o Cisne - François Boucher - 1740

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

PINGO-PINGO







Fedor Ivanovitch Chaliapin,  “Minha Vida”. Lê. Um livro e a lembrança do palhaço  Pingo-Pingo. Chaliapin. Minha vocação de ator? A Marmonov, devo. Jacob Ivanovitch Marmonov. Tinha doze anos quando o vira atuando, numa barraca de natal. Iachka, (Assim era conhecido em todo volga) cantor e clown, de meia idade, físico notável, um tanto bojudo, de bigodes negros e espessos e olhos ferozes,  divertia o povaréu inculto.
Brasil, sem a tradição  da Rússia, o mais cabotino pode superar grandes dos nossos. Isto não impede um palhaço de circo mambembe influenciar algúem para a arte.  
Pingo-Pingo. Quanta ingenuidade, e no entanto, quanto admirado, por nós crianças e adultos. Foi ele, meu  Iachka? Serás lembrado  nos camarins da Escola ao se maquiar para um espetáculo, o professor João Gama corrigindo o exegero.  Quem nunca viu, venha ver -  Em coro, a garotada: Pingo-Pingo vadiar. Oi de lá, venha ver. Pingo-Pingo vadiar. De rua em rua, em Capela, seguiam as pernas de pau, anunciando o divertimento. Tinham entrada garantida. Um homem comum, começava a crescer, (nem precisava as pernas de pau), com as tintas encombrindo o rosto.  Anos depois vai ouvir. É como se eu fosse deixando de ser Luiz Carlos Vasconcelos e me tornasse pouco a pouco o Xuxu.  Assim nos sentíamos, de cara pintada, transformados. Orgulho em ser pintado até que nos obrigassem  a desfazê-la, sob  protestos e choro, a marca de entrada, no braço, não poderia ser desfeita.  Eu, às escondidas e  a contragosto de papai, seguia o truão, coisa de moleque, dizia. Inveja dos outros. Seus pais não ralhavam e até gostavam, alguns.  Apanhar, não apanhava. Apanhei pouco. Era só um olhar e tudo parava. Assim, com a bola,  em frente a casa de Maria Pinhão. Bola de meia batendo nas portas ou caindo nos telhados.  Era assim, se pegava num  badogue. Coisa de malandréu, dizia.  Ator, nem em sonhos, nem mesmo sabia o que era, mas ali, talvez a iniciação. Mistérios dionisíacos. Mais tarde, na Europa,  enquanto lava um prato e outro, atua. É marroquino e turco. Apache do Tororó, Cavaleiro de Bagdad, indiano e ciclista no Les Cracks de Alex Joffé com Bourvil,  Robert Hirsch e Monique Tarbès, bulletin de paye, trinta novos francos ao dia, chez Regina. Pierrot em "Amor e Vida de uma Colombina sem Amor", de Jesus Chediak, soldado e juiz em Exceção e a Regra Brecht/Hackler and so on. Por minha palhaçada,  perdido  o papel no seminário, primeira vez no palco, seria. Aos gritos,  caído no palco. Exagero. Os frades o mandaram descer. Primeira decepção. Horus, espera  tu hora. Da. Vem, vamos embora, que esperar não é saber, Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Vandré. Onde estás agora? Meu coração chora. Onde te levaram as torturas? Primeiro de abril, a caminho da escola. Tanques cercavam a Faculdade. Voltou correndo. Queimam, os estudantes, jornais. Gritos na Praça Municipal. Manifestações. Polícia. Cassetes e cachorros, o couro come.  Correr. Entrou  na Confeitaria Colombo, atravessa o balcão, finge-se de  garção. Que Manolo não me ponha porta a fora. Policia socando o cacete na estudantada. Se já tinha vontade de vazar daqui, agora mais do nunca. O último a sair apague a luz. Meninpedra rola, mas não faz limo.













                                                      
                      Era uma construção bem antiga, onde se encontrava Inicialmente. Não há como descrevê-la por inteiro. As paredes eram de pedra, enormes, retangulares, sobrepostas sem qualquer outro material que as sustentasse. Um corredor grande e amplo dava para uma esplanada maior ainda. Ele seguiu este corredor, ao que parece com outras pessoas. Vê um vasto mercado a céu aberto. Tecidos, joias, bois, vacas, cavalos, camelos, animais, objetos diversos. Andou sobre o muro observando tudo aquilo. Desceu a um curral de gado. Muito gado branco azulado de chifres em forma de lira. Guzerá. Um boi se enfezou e arremeteu contra ele. Foi rápido, pulou a cerca e subiu no muro. Mais na frente, um cavalo, cujo adestrador tentava mostrá-lo aos comerciantes. Mercavam-se preços, davam-se lances. O cavalo se lançou sobre ele. Muito destro, saltou novamente sobre o muro e saiu correndo, buscar um lugar baixo, eis que todo o muro eram alto,  para se atirar fora dali. Quadrada, grande, imensa  a esplanada com suas paredes cobertas de limo, aumentado nos seus quatro cantos onde havia caleiras. Teve de contorna-la toda para encontrar um local mais baixo que pudesse pular sem se machucar. Chegando ao canto do lado leste, jogou-se lá de cima e caiu sobre um lamaçal. Tentou levantar-se, não conseguiu, estava grudado à lama. Gritava por socorro, ninguém lhe ouvia, pela algazarra da feira e dos pregões, ninguém deve ter percebido quando se jogou muro abaixo, ninguém lhe deu valimento. Hora de morrer, calma, não posso perder a calma. Manter-me  tranquilo, como no Farol da Barra. Quase afogado, a calma me salvou. Como areia movediça, mais me mexo, mais me afundo.  Sempre encontrei uma solução para tudo, não é agora que vou me deixar morrer. Mais forte do que eu, sou eu. Agora é pensar, a razão há de vencer, não juízo e sentimentos juntos. Aguenta coração, ajuda tua irmã. Entender o dentro e o fora. Dupla luta. O mundo ao redor, imenso, ínfima pedra lançada ao atoleiro. Dentro de si. Criança escanchada  na mãe, enquanto ela procurava a chave no telhado,  no chão, para melhor procurar. O galo investe contra ele. Esporões no ar quase roçando os olhos. A mãe contra o galo com o rebenque de espantar bichos, preso ao pulso. Minutos, eternidade, horas,  minutos. Na casa de farinha, vamos trabalhar meu boi, conserto de roda, olha este menino ai,  facão no olho fere, vê Nanã nas poças, colhe folhas de hortelã.  Curar  olho ferido. Pai fugindo de casa,  São Paulo trabalhar.  A irmã comeu jaca. Febre, delírio, do tifo. Caroço e casca,  xá do bom, receitou a rezadeira,  curou. Chega a Capela,  cabeçote de Pedrão.  Pedrinho trazia a irmã. vê. A carnaúba. Obra de Joaquim Machado. A escola marchando em torno dela. Não, não vai morrer ali como um porco atolado na lama. Silêncio profundo. Não mais pensar em nada. Em si, nesta hora de aflição. Todas as forças aqui dentro, todas as forças do universo. Seu corpo começa a enrijecer-se, a esquentar, como em febre. O mundo em torno de si. O dono do mundo. Posso e te ordeno. Venham  sobre mim, uma só força façamos. O mundo roda, medo, mas firme. Como um Deus saído do fundo da terra, um jato d´água lhe atinge com força e ele foi-se desligando do l charco e jogado ladeira abaixo, como uma pedra rolando. No fim da ladeira, um beco, a água  empurrando-o  até uma praça, nunca dantes vista, humildes casas de telhas e beirais, azuis, verdes, brancas, amarelas. Pessoas corriam para um lado para outro,  perdidas. Uns tentavam se abrigar na Igreja Matriz, outros fugiam em direção ao mato. Ninguém sabia o porquê. Corriam e corriam ou por querer ou porque empurrados pela multidão. Também  ele saiu em disparada. Chegaram a uma grande área aberta, um campo de gramíneas, pasto para animais, talvez. Extenuado,  caiu e  a multidão, como o estouro da boiada, atropelando-o. Por mais que tentasse se levantar e correr, não conseguia, as pernas lhe pesavam e era como se houvesse  alguma coisa segurando-o por baixo, pelas pernas. Percebeu que as pessoas não o viam, porque passavam por cima dele sem se desviarem. Neste momento, caiu uma chuva, ao lado, viu  uma lona amarela, pegou-a e se cobriu. Algumas pessoas suspenderam a lona, mas ainda assim pareciam não vê-lo. Falou, gritou fez gestos, tudo para que o vissem, em vão, ninguém o via. Não, não pode ser possível, isto é um sonho. Tentou, então, acordar-se, não conseguiu. Sonhar acordado, pode ser bom, mas aqui é pesadelo. Quantas vezes sonhou  sonhando? Quantos sonhos interrompidos e continuados a seguir?  Quantos com a mesma pessoa, conhecida só  de sonhos?  Sonhos dos sonhos, lembrando-se de já ter sonhado antes. Com um esforço muito grande e safanão no ar,  acordou, mas não pode levantar-se da cama, algo o sustinha ali. Sentiu puxarem-lhe a coberta, não era ninguém, uma força invisível fê-la voar para o alto e entrar em uma argola que se desfez.  Gritou. Mamãe, mamãe, esticando o braço  para ela. Veja aquilo, Veja aquilo. Aí sim, viu que estava de novo sonhando.  De vez acordou. O telemóvel marcava  seis horas e cinquenta da manhã do dia vinte de dezembro de dois mil e treze (Pois o mundo não acabou em 2000) não havia galo a cantar, nem galinhas a cocoricar, nem cujubim para chamar o dia mas outros pássaros no pequeno bosque da casa de frente a seu prédio chilreavam alegremente anunciando o novo dia. D´outro  lado, na varanda, suas plantas recebiam os primeiros raios do sol. Coaraci alumiando o mundo. Os primeiros automóveis deslizavam no asfalto húmido pela garoa noturna. Ouvia-se o ruído de um liquidificador vindo de um dos apartamentos. Suave soava o elevador no sobe e desce em sua caixa. Primeiros sons da cidade despertando de seu sono. Uma ambulância passava, sua  sirena  emitindo  ondas sonoras em frequência  para si  desconhecida, mas lhe mostrava o caminho de viver. Gozar o dia, o amanhã ninguém sabe.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017







                                                São mais ou menos 15 horas. Estou numa destas salas de espera de uma clínica médica. Como sempre, todos ou quase todos pregados na televisão. Uma epidemia. Os programas chatos da tarde são vistos e revistos com a paciência de bois que vão para o matadouro. Um ou outro abre um jornal fastidiosamente, ou lê um destes  romances de 3ª categoria, ou mesmo um livro espírita, ou os chamados de auto-ajuda. Espírita, acho que é o daquele fulaninho ali. Lê, Incrível como crêem ser possível atingir o nirvana com a simples leitura de um livro. E o pior é que teorizam sobre o tema. E pensam também na imortalidade, como se fosse possível ser Deus sem mais nem menos.
18.08.2003 – 16:10 - Aquela magricela branquinha, ou amarelinha como gostam de chamar o negro ao branco, aquela branquinha é tão fina  que se tem medo de, ao tocá-la, desmanchar-se, medo que se transforma em prazer, se ao invés de quebrar-se, partir-se em duas divinas criaturas.
O ambiente de um hospital parece frívolo, e talvez o seja, a despeito de as pessoas estarem na vizinhança da morte. Todos falam ao mesmo tempo e noventa por cento do assunto, a saúde é o tema. As velhas costumam misturar o terço com antibióticos, anti-inflamatórios, antidepressivos, anti-tudo. O médico que se acredita o próprio Deus trata o populacho, apenas como um instrumento por onde o onipotente opera suas graças. Os santos também operam milagres, embora, eles mesmos, não tenham curado os males que os levaram ao campo santo ou à imaginada glória do senhor. A televisão. continua soltando suas notas que atravessam a sala semi-adormecida. A magrelinha, ao ouvir o chamado do ortopedista,  passa por mim como um caniço açoitado pelo vento. É o mesmo com  quem vou me consultar. Dizer como está minha coluna, após fazer uma série de perguntas imbecis, porque só depois de fazer todos os exames,  vai  me dar um remédio, não obstante, eu reclame  de muitas dores.
Enquanto escrevo estas linhas observo um velho com quem está a magrelinha, (Saberei chamar-se Angela, após o chamado do médico), me perscruta. Olhos compridos e interrogadores. Que estará ele escrevendo?  Viu-me olhar para ela e sua mãe,  já entraram  no consultório. Imagina se soubesse estar  sua filha, ou lá o que seja, sendo personagem deste escrito!.  E ele mesmo? Qual seria sua reação? Aqui o escritor supera ao pintor ou desenhista, pois este é obrigado a traçar em longas  linhas ou pinceladas  a figura que deseja vir a lume, denunciando, de logo o seu intento. Como filigranas, os dedos de Ângela atravessa, os longos  cabelos finos e negros, negros, como diria José de Alencar,  qual as asas da graúna. Os pés tão finos quase transparentes despertam os mais recônditos desejos, (diriam, levantam defunto). Que pensaria o ancião se soubesse que nestas linhas, neste pedaço de papel amassado  está sua filha sendo despida, antes mesmo que o médico a chamasse e para lá se dirigisse escoltada com muito carinho por sua mãe?  Tu me lembras agora, outra também magra, branca e gostosa. Conheci-a já lá vão alguns anos. Onde fostes tu, coragem? Covarde Horus, não a tiveras, deixaste-a cair nos braços doutro. Não,  agora me concentrar em ti. Ouvir tua voz,  tão diáfana quanto tua pele, deve ser. Cristalina, suave, sensual. Não penses que me vou apaixonar, pois, anos curtidos na solidão não fabricam uma paixão


                                                               
                                                     
                                               

segunda-feira, 12 de junho de 2017

AMIGO DOS BICHOS

                                             



                                           
     Não era solitário por querer, mas por timidez. Amava a tudo e a todos, um amor à distância, sem arroubos de romantismo, nem exibicionismo, sem alarde. Prestativo, a todos dava uma palavra de alegria ou conforto, quando solicitado; nem era egoísta, e, até, deixava de fazer por si para fazer pelos outros, mas uma tristeza imensa lhe advinha quando se sentia traído ou explorado por alguém. Era também vítima dos mais absurdos desentendimentos. Colégio Vieira. Internato. Empresta dinheiro a um colega. Fê-lo com prazer. Era pouco, mas entregou-o. Davis, tinha-o como um dos melhores amigos. Poderia precisar também um dia. E Davis, sua família, tinha dinheiro. Uma tarde, depois do recreio, subia a escada para o dormitório dos médios, onde iria tomar banho e vestir-se para a banca da quatro,  ouviu, no alto-falante de frente ao colégio, ao lado da Igreja Batista do Garcia, Nat King Cole. Cantava El Bodeguero do cubano Richard Egües.

      el bodeguero bailando va,
      en la bodega se baila asi,
      entre frijoles papa hay aqui,
     el nuevo ritmo del cha cha cha,
     toma chocolate paga lo que debes,
    toma chocolate paga lo que debes,
  Corria, porque, quando se é jovem, tudo é na carreira, escada acima, cantarolando a canção,  alegre e despreocupado, quando encontra. já no dormitório o amigo Davis, e canta em tom de brincadeira: Toma chocolate, paga lo que debe, apressou-se a tomar seu banho. Não demorou uma semana, Davis chega com o dinheiro para lhe pagar. Tão aturdido ficou,  nem tentou explicar-se, envergonhado. Não lhe estava cobrando. Hoje ainda não se redimiu do mal entendido; Ah,  quase bota a perder uma amizade. Assim era. esperava dos outros mais do que  lhe podiam dar. Compenetrado, dava aos sábados aulas de religião nas escolas do Garcia e Federação. Nem imaginava como falava em sala de aula. Meninos e meninas da mesma idade ou pouco menos que a sua. Parecia iluminado. Furtivos olhares, para a moreninha de olhos claros. Marly era ela? Apoquentado, nem sabia o nome de seus alunos. O mundo hoje o vê criando animais abandonados na rua. Cachorros, gatos e até periquito.  Se enreda cada dia mais nesta atividade. Deixa de frequentar os amigos.  Cuida de suas feridas e doenças. Leva-os ao veterinário. Castra o machos, esteriliza as fêmeas. Não venham a se reproduzir e sofrer mais do que já sofrem  na mãos do  homem, egoísta e malvado. Sonha. Ganhar uma fortuna na Mega-Sena, comprar um sítio, criar bichos. Fede a cachorro,alguns animais, dormem com ele.  Transforma a casa adaptando-a, no seu pensar, aos animais. Sanitários, móveis readaptados.  Não há lugar para o humano se sentar. Cortam-se todas as árvores do jardim. Que os gatos não as façam de trampolim para  pular o muro. Gatos gostam de altura. São feitas prateleiras, lá eles dormem. Cachorros nos sofás e nas camas. Uma enormidade de dinheiro com ração e remédios. A aposentadoria, sim, era também aposentado, uma história de loucura que vale um livro, ia-se minguando, quase não sobra para si. Já aparece na mídia de vez quando, em entrevistas e todos o tem em boa conta e respeito. Sempre aparece um para lhe trazer mais bichos. Dificilmente os recusa e faz questão de mostrar seu plantel a todos. Chama-os pelo nome, quase todos nomes de gente, acaricia-os e apresenta-nos ao visitante. Uma menina linda, parecia Chapeuzinho Vermelho, sempre passava em frente à sua casa e ficava curiosa em conhecer o interior da quela casa e aquele misterioso  homem. Dia destes, ele estava na porta com um gato nas mãos. Ela o olha com olhar de simpatia, ele lhe devolve o olhar e pergunta se não quer acariciar o bichano, indecisa, se aproximou e passou a mão sobre a cabeça do gatinho. Ele a convida a entrar, conhecer a casa e seus habitantes. Ela, ainda indecisa, entra na casa e ele, todo  solícito, vai mostrando-lhe e apresentando-a a cada um dos animais. Este, atropelado e trazido para cura-se e foi ficando. veja, uma beleza, ninguém mais o reconhece, de sequela, apenas um pequeno aleijão,  em uma das patas. Aquela é Lambiscóia, sofre de epilepsia. Tenho de medicá-la todas as noites para evitar as crises. Onde estiver, tenho de estar em casa até as 19 horas.  Dar seu remedinho. Completamente absorto na história de cada bicho,  não percebeu, de imediato,  o quanto a cativava, com tantas  palavras de carinho. Deve de ser uma doçura de pessoa. Esqueceu a pressa  para a escola. Sim estudo ballet na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia, minha mãe trabalha na Escola de Teatro da Araujo Pinho, sabe onde é? Aproximou-se dela, tomando-a pela mão, chamou-a para mostrar-lhe, o segundo piso, onde ficava o príncipe de seus animais. O mais bonito, o mais querido. Magnetizada por aquela voz, aquele amor. Levou-a ao quarto. Lá estava o príncipe, confortavelmente deitado na cama do casal, sim ele era casado. Alisou-lhe o pelo e pediu a ela que fizesse o mesmo. O Príncipe se arrepiava todo, deitando de patas para cima, excitando-se ao toque  carinhoso das mãos. Ela começou a sentir uma sensação estranha e de repente sua mão tocou a dele. Ambos se olharam e uma faísca saiu de seus  olhos, deles. Se atracaram, e rolaram na cama à vista do príncipe que também se excitara e roçava sobre eles, com ganidos de prazer. Ele tentava tirar príncipe de cima deles, mas o cão mais se excitava, subindo sobre os dois. Naquele embolar de corpos ela toca o pênis do príncipe e enquanto o homem metia-lhe o dele, ela masturbava o príncipe. Não se sabe quantos minutos duraram  aquela cena, eu não estava lá, nem ela, nem ele me contou. No momento do êxtase foi um grito só. Homem, mulher e cão. Cansados, adormeceram sob a vigilância do príncipe, agora com o sentimento de amante dos dois. Não durou muito o sono dele. Acordou e a viu adormecida, com o braço sobre o príncipe que cochilava apenas. Teve uma ideia. Macabra. Ficou indeciso por muito tempo. Voltou às cavernas quando o homem comia o próprio homem para saciar sua fome. Os tupinambás comiam seus prisioneiros para adquirir sua força, matar a fome e economizar a caça. Pensou enforcar a moça. Não, ela poderia acordar e gritar. Depois a bichinha ia sofrer muito com a asfixia. Depois teria uma "morte suja". Haveria um descontrole dos esfincteres e ela se cagaria e se mijaria toda, denunciando o ato. Foi à cozinha. Pegou um cutelo. Tampouco lhe daria morte instantânea. Se acordasse seria um deus no acuda, depois não queria que ela sofresse. Em boa hora, lembrou-se do pilão de Horus. De seus bisavós, dissera, Didi. Trazido de Mairi, estava ali guardado, por enquanto.  Feito de massaranduba, com mãos de imirá-itá, madeira pesada e resistente. Os índios a usavam para fabricar seus tacapes.  Bila, ele era conhecido assim, pegou u´a mão-de-pilão e  caminhou para o quarto. Sua amada inda dormia o sono dos justos, Príncipe brincava com sua calcinha preta. Quando ele viu seu senhor com a mão-de-pilão,largou a calcinha e  murchou as orelhas. Teria o perro sonhado o que iria fazer seu patrão? A quem ele pretendia matar a si para dar de comer a ela? Teve medo, mas se sentia feliz em servir de repasto para quem lhe proporcionou uns momentos de prazer. Também Baleia, quase  serviu de pasto para Sinhá Vitória, Fabiano e os meninos se não fosse o infeliz do louro. Bila não queria que Príncipe visse, nem mesmo adivinhasse o que iria fazer. Puxou-o delicadamente da cama, com cuidado para que ela não acordasse, pô-lo fora do quarto e fechou-o. Príncipe reclamou com leves ganidos, mas se conformou ou fez como se estivesse conformado. Bila mirou com ternura aquele corpo sobre seu leito, nua, os seios, como o corpo,  ligeiramente pendidos para esquerda. Rescendia um cheiro forte do amor. O vento sacudia fios de seus cabelos. Tão bela, não acredito que tenha algum pintor pintado quadro igual. Um tênue sorriso se viu de seus lábios. Talvez estivesse sonhando com lindas cenas de amor, que o jovem não ganhou ainda o tempo de sonhar cenas de sangue e desamor. Bila suspendeu o tacape, mirou sua cabeça, indeciso, mas depois decidido e desceu sobre ela o pau ferro. Não houve tempo para choro, nem grito. Como estivesse de lado o olho direito saltou da órbita e bateu no guarda-roupa. Para se certificar da morte, deu-lhe de novo com o tacape, o da misericórdia. O sangue jorrou mais abundantemente. Os Cachorros e gatos que não podem sentir cheiro de sangue começaram a ganir e a miar. Ele pegou da faca e começou a descarná-la. Cortou primeiro a cabeça, depois os braços, as pernas. Abriu a porta e começou a distribuir sua carne aos animais. Alimentado os animais, pegou a sobra, enrolou em pedaços com papel alumínio e foi colocar no  freezer. Depois lavou o resto de sangue que os animais não conseguiram lamber usando detergentes. Enrolou também os ossos  em papel alumínio para que não emitissem cheiro e os enterrou no quintal da casa. Terminado  todo o serviço, tomou banho. Ligou a tevê, pegou uma cerveja na geladeira, sentou-se e saboreou-a. Uma nesga de  alegria estava surgindo. Pegou o celular e mandou um zape para Didi. Resolvido o problema da alimentação dos bichos.
Mas porque falas disto? Não tens tu também a cabeça de um falcão? Não és tu a pomba que os cristãos chamam Espirito Santo. Por que condenas teu amigo que dá de comer aos bichos de carne humana? Por acaso não dilaceras tu os corações dos humanos que não te seguem?   





sábado, 20 de maio de 2017

VIAGEM A BONFIM DE VILA NOVA DA RAINHA






Pedes que te conte o acontecido, em quatorze  de junho de 1990, para que possas com veracidade narrar aos pósteros. Contarei à maneira de Plinio Cecílio Segundo, ainda que me traga horror e tristeza.
Cheguei às 12 horas a Senhor do Bonfim de Vila Nova da Rainha, Arraial do Senhor do Bonfim da Tapera, ou ainda Arraial da Missão do Sahy, indicado pela OAB, assistente de acusação no júri do homicídio de Helio Pombo Hilarião, advogado assassinado, tal Eugenio Lira, por defender posseiros. Fui ao fórum, ver o processo e depois, saí, matar saudades. A catedral, um barroco tardio,  singela, mas, torres imponentes. O prédio da prefeitura, amarelo ocre. O Colégio N.S. do Santíssimo Sacramento (Sacramentinas). Sonhar. Donzelas belas por seus corredores. O Ginásio S. Coração, os Maristas, de imponentes palmeiras reais. Jovens sertanejos buscam a sabença.  Companheiros de badogadas em Capela do Alto Alegre, falavam. As moças do Sacramentinas iam à missa no Marista, ou quando iam eles às Sacramentinas. Não mais olhar o Senhor na cruz, ver nas estudantes o amor carnal à Bernini. Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada, em êxtase, cabeça para trás, boca entreaberta e pálpebras semi-cerradas. A mão do.anjo toca suas vestes,  descobre-lhe os seios. Com a outra, segura uma flecha, aponta suas entranhas, já penetrada outras vezes. Dor e prazer. O corpo, envolto em vestes drapeadas, levita sobre  revoltos lençóis. Da expressão podia se ouvir palavras: Um êxtase caiu sobre mim tão de repente que quase me ausentei de mim mesma. Eu ouvi aquelas vozes, agora  eu quero falar não com o homem mas com  anjos.  Perto de mim, um anjo apareceu em forma humana, em sua mão eu vi uma enorme lança dourada e na sua ponta de ferro, parecia haver fogo. Eu senti como se ele a enterrasse várias vezes em meu coração, de forma que penetrou todas minhas entranhas. Quando ele a puxou, tirou com ela minhas tripas, e me deixou totalmente inflamada com o grande amor de Deus. A dor foi tão grande que me fez gemer várias vezes; Que gemidos. Ver o casario antigo, A igreja N.Sra. da Maravilha, a Cruz da Redenção, na Antônio Gonçalves, A casa  do Coronel Antônio Félix Martins, hoje, o bispado, e onde se hospedou Ruy Barbosa, única do sertão por ele visitada,  Terra do Bom Começo, chamou-a. Um intelectual livresco, alheio à realidade brasileira. Caçadores de ouro e pedras preciosas nas minas de Jacobina, boiadeiros, tangedores de gado, descendentes, empregados de Garcia D´Avila; Paiaiás, pataxós  e Kariris correndo campo, abatendo o tapir; negros servindo brancos,  fugindo para o quilombo de Tijuaçu; O encourado vaqueiro lascando a catinga, derrubando o pé-duro; moças casamenteiras adornando missas na catedral. As meditações de  Anatole France: E se procurarem saber porque é que todas as imaginações humanas, frescas ou murchas, tristes ou alegres, se voltam para o passado, curiosas de nele penetrarem, acharão sem dúvida que o passado é o nosso único passeio e o único lugar onde possamos escapar dos nossos aborrecimentos quotidianos, das nossas misérias, de nós mesmos. O presente é turvo e árido, o futuro está oculto. Chega à estação do trem. Um prédio sem estilo, laivos do barroco, ainda assim belo, de 1944. A linha férrea, de 1887. Fotografia da primeira estação, demolida. Um onjunto harmônico:  armazém, casas de funcionários. A destruição do passado;  Uma paisagem ainda bucólica. Ao fundo, Serra do Gado Bravo, Cordilheira do Espinhaço. O fim das ferrovias em beneficio das montadoras de automóveis e industrias afins.
 Ali corria a  vida. Reunia-se, ali aos domingos, depois da missa. As novidades da Bahia. Beber, papear, namorar, fofocar. Malas e pacotes embalavam anseios. Pressa, apreensão de quem parte, a miúde regado a choros e abraços demorados; Alegria dos que chegam, rever os seus, encontrar novos. De Lisboa a Paris. Santa Apolônia e Montparnasse, nem se lembra,  Gare Du Nord?  Noite em Paris. Amontoados nos bancos da estação. Brasileiro e portugueses. Hoteis cheios ou caros. Os tugas, órfãos de Salazar, vomitando  a ditadura. Eu, em fuga de 64.  Ah!  estações, um mundo. Onde estivesse, visitava-as sempre a ver, rever, relembrar, e sonhar. Buscar nos gestos, no olhar  o sentimento do viajante. Novas, estranhas terras. Os portugueses. Navegadores intrépidos sobre ondas bravias, enquando a Europa se escondia sob as saias do clero. E ao imenso e possível oceano , ensinam estas Quinas, que aqui vês,  que o mar com fim será grego ou romano:  O mar sem fim é português. Eu, Diogo Cão, navegador, deixei  este padrão ao pé do areal moreno  E para diante naveguei. Vasco da Gama no caminho das índias; Camões gesta os Lusíadas, em Macau e  retorna  a Goa e de um só braço nada, doutro salva o escrito do revolto mar:

Cessem do sábio Grego e do Troiano / As navegações grandes que fizeram; / Cale-se de Alexandro e de Trajano / A fama das vitórias que tiveram; / Que eu canto o peito ilustre Lusitano, / A quem Netuno e Marte obedeceram. / Cesse tudo o que a Musa antiga canta / Que outro valor mais alto se alevanta.

Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve na livrarias.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

HORDÉOLO


Filomena Moretti, Asturias - Isaac Albeniz


Acorda sonordelento o menino, passa cuspe na remela. Abrir os olhos. Inda a voz rouquenha do guru sertanejo e o responso dos fieis, como vozes vindas do além, ressoam  em sua mente.
                        Maria valei-me
                        Aos vossos devotos
                        Vinde socorrei
                        Vosso amor se empenha
                        Ó Virgem da Penha
                        Penha onde mora
                        Na fonte vital.
E o responso em coro:
                         Na fonte vital
                         Na fonte vital.

Todo menino é rei,  faz castelos de cristal,  encostado ao muro do  quintal. Pensa. Meninpedra, filosofal. Remelento, dedo na mão, esfrega. Tocar terçol. Quenturinha boa pra curar.  Olha o monturo chamusquento. Nojenta alfurja, onde se joga as imundícies. Restos crus, cozidos, palhas de grãos, cereais, panos, molambos, penicos de mijo e bosta, pasto de cães, porcos e  jumentos, galinhas e urubus. Dava um fogo quase morto. Fumo subindo, redemoinhos,  odores que aos animais não parecem incomodar. Queima a toda noite, um gosto especial aos restos  sapecados, como carne de fumeiro ou moqueada. No fim do mundo tudo vai pegar fogo, nojento,  de fazer medo.  Devia ser de água como se havia acabado antes.  Não, água também é muito agoniado. A morte vem boiando, zombando da gente. De braços abertos, estatelada. Pra lá e pra cá. Como bosta n´água. De fogo é melhor. Eterno, transforma, purifica  o homem,  um dia tudo será fogo, disse o obscuro Heráclito.O fogo do inferno, anunciado por Mr. Fanali, sous les toits de Paris. Queima tudo, até os ossos. Adeus viola. Não vem fazendo careta. Enfurecida. De uma vez. Mesmo que se corra. Fuçama de noites mal dormidas, canto aos mortos,boates de cigarros fumegantes entre lábios femininos. Aqui, nem sempre é uma festa.
Filomena, não a Moretti da guitarra em Asturias de Albeniz,  a do padeiro do violão,  também morena, gamela na cabeça, dar comida aos porcos, passa. Toca a viola:
- Pensando no fim do mundo? Tu já tem  juízo pra pensar?
 Tocou na sua matadura. Pôs a viola no saco. Ouvirá Ana Vidovic na Catedral do paraguaio Agustin, o Mangoré,e se lembrará, não sem saudade, de não caber dentro de si, não sem saudosismo,  não tanto salutar, mas com um pingo de vida porque como disse alguém, relembrar é viver duas vezes, lembrará sim, de Lilinha, irmã sua, no  violão, nas noites de Capela. Contraponto aos cagas-sebos no arvoredo, os trinados de sangue, cabeça de cardeal. Canarim, assanha  sanhaço. Xéxeus xiando  sacudidos nos seus ninhos, como bolsas, de gravetos, pelo vento. Polifonia do sertão, milho pilando no pilão, manteiga a chacoalhar na cabaça, Mancambira, a gungunar, remedando caminhão, o  bate-bate na bigorna Zé Cadeira, Zé Ferreira e Tunin Gomes. Bate, bate coração, bate o ferro na bigorna, bate a seca no sertão. Bate o vento balançando a cerração. Bate o vento balançado  coração.Quando tu balança, toda a  terra dança.
  

Quando tu balança
Dá um nó na minha pança
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança

Madrugada entrando
E o fole gemendo
Poeira subindo
E o suor descendo
Quem não tava "bêbo"
Já tava querendo
E eu cambaleando
Ia te dizendo
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança

Tava requebrando
E eu naquele jogo
Eu tava me esquentando
Mesmo sem ter fogo
Só batia palmas
De pernas puxada
Como quem atira
Em onça pintada
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança 


                      Mas não é mesmo, Gonzaga? Ô macho, manda esta muié parar  qui já tou todo molhado, senão, para o fole Seu Gonzaga, para este fole marvado.



Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.