segunda-feira, 16 de outubro de 2017

PINGO-PINGO
















Fedor Ivanovitch Chaliapin,  “Minha Vida”. Lê. Um livro e a lembrança do palhaço  Pingo-Pingo. Chaliapin. Minha vocação de ator? A Marmonov, devo. Jacob Ivanovitch Marmonov. Tinha doze anos quando o vira atuando, numa barraca de natal. Iachka, (Assim era conhecido em todo volga) cantor e clown, de meia idade, físico notável, um tanto bojudo, de bigodes negros e espessos e olhos ferozes,  divertia o povaréu inculto.
Brasil, sem a tradição  da Rússia, o mais cabotino pode superar grandes dos nossos. Isto não impede um palhaço de circo mambembe influenciar algúem para a arte.  
Pingo-Pingo. Quanta ingenuidade, e no entanto, quanto admirado, por nós crianças e adultos. Foi ele, meu  Iachka? Serás lembrado  nos camarins da Escola ao se maquiar para um espetáculo, o professor João Gama corrigindo o exegero.  Quem nunca viu, venha ver -  Em coro, a garotada: Pingo-Pingo vadiar. Oi de lá, venha ver. Pingo-Pingo vadiar. De rua em rua, em Capela, seguiam as pernas de pau, anunciando o divertimento. Tinham entrada garantida. Um homem comum, começava a crescer, (nem precisava as pernas de pau), com as tintas encombrindo o rosto.  Anos depois vai ouvir. É como se eu fosse deixando de ser Luiz Carlos Vasconcelos e me tornasse pouco a pouco o Xuxu.  Assim nos sentíamos, de cara pintada, transformados. Orgulho em ser pintado até que nos obrigassem  a desfazê-la, sob  protestos e choro, a marca de entrada, no braço, não poderia ser desfeita.  Eu, às escondidas e  a contragosto de papai, seguia o truão, coisa de moleque, dizia. Inveja dos outros. Seus pais não ralhavam e até gostavam, alguns.  Apanhar, não apanhava. Apanhei pouco. Era só um olhar e tudo parava. Assim, com a bola,  em frente a casa de Maria Pinhão. Bola de meia batendo nas portas ou caindo nos telhados.  Era assim, se pegava num  badogue. Coisa de malandréu, dizia.  Ator, nem em sonhos, nem mesmo sabia o que era, mas ali, talvez a iniciação. Mistérios dionisíacos. Mais tarde, na Europa,  enquanto lava um prato e outro, atua. É marroquino e turco. Apache do Tororó, Cavaleiro de Bagdad, indiano e ciclista no Les Cracks de Alex Joffé com Bourvil,  Robert Hirsch e Monique Tarbès, bulletin de paye, trinta novos francos ao dia, chez Regina. Pierrot em "Amor e Vida de uma Colombina sem Amor", de Jesus Chediak, soldado e juiz em Exceção e a Regra Brecht/Hackler and so on. Por minha palhaçada,  perdido  o papel no seminário, primeira vez no palco, seria. Aos gritos,  caído no palco. Exagero. Os frades o mandaram descer. Primeira decepção. Horus, espera  tu hora. Da. Vem, vamos embora, que esperar não é saber, Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Vandré. Onde estás agora? Meu coração chora. Onde te levaram as torturas? Primeiro de abril, a caminho da escola. Tanques cercavam a Faculdade. Voltou correndo. Queimam, os estudante, jornais. Gritos na Praça Municipal. Manifestações. Polícia. Cassetes e cachorros, o couro come.  Correr. Entrou  na Confeitaria Colombo, atravessa o balcão, finge-se de  garção. Que Manolo não ponha porta a fora. Policia socando o cacete na estudantada. Se já tinha vontade de vazar daqui, agora mais do nunca. O último que sair apague a luz. Meninpedra rola, mas não faz limo.




















                                                      
                      Era uma construção bem antiga, onde se encontrava Inicialmente. Não há como descrevê-la por inteiro. As paredes eram pedra, enormes retangulares, sobrepostas sem qualquer outro material que as sustentasse. Um corredor grande e amplo dava para uma esplanada maior ainda. Ele seguiu este corredor, ao que parece com outras pessoas. Na esplanada um imenso mercado a céu aberto. Tecidos, joias, bois, vacas, cavalos, camelos, animais, objetos diversos.  Andou sobre o muro da esplanada observando tudo aquilo. Desceu a um curral de gado. Muito gado preto azulado de chifres retos. Um boi se enfezou e arremeteu.contra ele. Foi rápido, pulou a cerca e subiu no muro. Mais na frente foi um cavalo, cujo adestrador tentava mostrá-lo aos comerciantes. Mercavam-se preços, davam-se lances. O cavalo se lançou sobre ele. Muito destro, saltou  novamente sobre o muro e saiu correndo, buscar um lugar baixo, eis que todo o muro eram alto,  para se atirar fora da esplanada. Quadrada, grande, imensa  a esplanada com suas paredes cobertas de limo, aumentado nos seus quatro cantos onde havia caleiras para escoamento da água. Teve de contorna-la toda para encontrar um local mais baixo que pudesse pular sem se machucar. Chegando ao canto do lado leste, jogou-se lá de ciam e caiu sobre um lamaçal. Tentou levantar-se, não conseguiu, estava grudado à lama. Gritava por socorro, ninguém lhe ouvia, pela algazarra da feira e dos pregões, ninguém deve ter percebido quando se jogou muro abaixo, ninguém lhe deu valimento. Hora de morrer, calma, mas não posso perder a calma. Tenho que me manter tranquilo, como quando quase me afoguei no Farol da Barra, só não morri porque me mantive calmo. Como areia movediça, mais me mexo, mais me afundo.  Sempre encontrei uma solução para tudo, não é agora que vou me deixar morrer. Mais forte do que eu, sou eu. Agora é pensar, a razão há de vencer, não juízo e sentimentos juntos. Aguenta coração, ajuda tua irmã. Entender o dentro e o fora. Dupla luta. O mundo ao redor ficou imenso, ele, ínfima pedra lançada ao lamaçal. Dentro de si. Criança escanchada  na mãe, enquanto ela procurava a chave no telhado,  no chão para melhor procurar. O galo investe contra ele. Esporões no ar quase roçando os olhos. A mãe contra o galo com o rebenque de espantar bichos,preso ao pulso. Minutos podem parecer eternidade, horas podem parecer minutos. Na casa de farinha, vamos trabalhar meu boi, conserto de roda, olha este menino ai,  facão no olho fere,vê Nanã nas poças, colhe folhas de hortelã.  Curar  olho ferido. Pai fugindo de casa,  São Paulo trabalhar.  A irmã comeu jaca. Febre, delírio, do tifo.Caroço e casca,  xá do bom, receitou a rezadeira,  curou. Chegando a Capela no cabeçote de Pedrão, Pedrinho trazia a irmã, a carnaúba plantada  por seu Mané de Rosendo, a escola marcha em torno dela. Não, não vai morrer ali como um porco atolado na lama. Silêncio profundo. Não mais pensar em nada. Em si, nesta hora de aflição. Todas as forças aqui dentro, todas as forças do universo. Seu corpo começa a enrijecer-se, a esquentar, como se estivesse com febre. Via o mundo em torno de si. Era o dono do mundo. Eu posso e te ordeno. Venham  sobre mim, uma só força façamos. Sentiu o mundo rodar, teve medo, mas ficou firme. Como um Deus saído do fundo da terra, um jato d´água lhe atingiu com força e ele foi-se desligando do lamaçal, e jogado ladeira abaixo, como uma pedra rolando. No fim da ladeira, um beco, a água  empurrando-o  até uma praça, nunca dantes vista, humildes casas de telhas e beirais, azuis, verdes, brancas, amarelas. Pessoas corriam para um lado para outro,  perdidas. Uns tentavam se abrigar na Igreja Matriz, outros fugiam em direção ao mato. Ninguém sabia o porquê. Corriam e corriam ou por querer ou porque empurrados pela multidão. Também  ele saiu em disparada. Chegaram a uma grande área aberta, um campo de gramíneas, pasto para animais, talvez. Extenuado,  caiu e  a multidão, como o estouro da boiada, atropelando-o. Por mais que tentasse se levantar e correr, não conseguia, as pernas lhe pesavam e era como se houvesse  alguma coisa segurando-o por baixo, pelas pernas. Percebeu que as pessoas não o viam, porque passavam por cima dele sem se desviarem. Neste momento, caiu uma chuva, ao lado, viu  uma lona amarela, pegou-a e se cobriu. Algumas pessoas suspenderam a lona, mas ainda assim pareciam não vê-lo. Falou, gritou fez gestos, tudo para que o vissem, em vão, ninguém o via. Não, não pode ser possível, isto é um sonho. Tentou, então, acordar-se, não conseguiu. Sonhar acordado, pode ser bom, mas aqui é pesadelo. Quantas vezes sonhou  sonhando? Quantos sonhos interrompidos e continuados a seguir?  Quantos com a mesma pessoa, conhecida só  de sonhos?  Sonhos dos sonhos, lembrando-se de já ter sonhado antes. Com um esforço muito grande e safanão no ar,  acordou, mas não pode levantar-se da cama, algo o sustinha ali. Sentiu puxarem-lhe a coberta, não era ninguém, uma força invisível fê-la voar para o alto e entrar em uma argola que se desfez.  Gritou. Mamãe, mamãe, esticando o braço  para ela. Veja aquilo, Veja aquilo. Aí sim, viu que estava de novo sonhando.  De vez acordou. O telemóvel marcava  seis horas e cinquenta da manhã do dia vinte de dezembro de dois mil e treze (Pois o mundo não acabou em 2000) não havia galo a cantar, nem galinhas a cocoricar, nem cujubim para chamar o dia mas outros pássaros no pequeno bosque da casa de frente a seu prédio chilreavam alegremente anunciando o novo dia. D´outro  lado, na varanda, suas plantas recebiam os primeiros raios do sol. Coaraci alumiando o mundo. Os primeiros automóveis deslizavam no asfalto húmido pela garoa noturna. Ouvia-se o ruído de um liquidificador vindo de um dos apartamentos. Suave soava o elevador no sobe e desce em sua caixa. Primeiros sons da cidade despertando de seu sono. Uma ambulância passava, sua  sirena  emitindo  ondas sonoras em frequência  para si  desconhecida, mas lhe mostrava o caminho de viver. Gozar o dia, o amanhã ninguém sabe.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017
















                                                São mais ou menos 15 horas. Estou numa destas salas de espera de uma clínica médica. Como sempre, todos ou quase todos pregados na televisão. Uma epidemia. Os programas chatos da tarde são vistos e revistos com a paciência de bois que vão para o matadouro. Um ou outro abre um jornal fastidiosamente, ou lê um destes  romances de 3ª categoria, ou mesmo um livro espírita, ou os chamados de auto-ajuda. Espírita, acho que é o daquele fulaninho ali. Lê, Incrível como crêem ser possível atingir o nirvana com a simples leitura de um livro. E o pior é que teorizam sobre o tema. E pensam também na imortalidade, como se fosse possível ser Deus sem mais nem menos.
18.08.2003 – 16:10 - Aquela magricela branquinha, ou amarelinha como gostam de chamar o negro ao branco, aquela branquinha é tão fina  que se tem medo de, ao tocá-la, desmanchar-se, medo que se transforma em prazer, se ao invés de quebrar-se, partir-se em duas divinas criaturas.
O ambiente de um hospital parece frívolo, e talvez o seja, a despeito de as pessoas estarem na vizinhança da morte. Todos falam ao mesmo tempo e noventa por cento do assunto, a saúde é o tema. As velhas costumam misturar o terço com antibióticos, anti-inflamatórios, antidepressivos, anti-tudo. O médico que se acredita o próprio Deus trata o populacho, apenas como um instrumento por onde o onipotente opera suas graças. Os santos também operam milagres, embora, eles mesmos, não tenham curado os males que os levaram ao campo santo ou à imaginada glória do senhor. A televisão. continua soltando suas notas que atravessam a sala semi-adormecida. A magrelinha, ao ouvir o chamado do ortopedista,  passa por mim como um caniço açoitado pelo vento. É o mesmo com  quem vou me consultar. Dizer como está minha coluna, após fazer uma série de perguntas imbecis, porque só depois de fazer todos os exames,  vai  me dar um remédio, não obstante, eu reclame  de muitas dores.
Enquanto escrevo estas linhas observo um velho com quem está a magrelinha, (Saberei chamar-se Angela, após o chamado do médico), me perscruta. Olhos compridos e interrogadores. Que estará ele escrevendo?  Viu-me olhar para ela e sua mãe,  já entraram  no consultório. Imagina se soubesse estar  sua filha, ou lá o que seja, sendo personagem deste escrito!.  E ele mesmo? Qual seria sua reação? Aqui o escritor supera ao pintor ou desenhista, pois este é obrigado a traçar em longas  linhas ou pinceladas  a figura que deseja vir a lume, denunciando, de logo o seu intento. Como filigranas, os dedos de Ângela atravessa, os longos  cabelos finos e negros, negros, como diria José de Alencar,  qual as asas da graúna. Os pés tão finos quase transparentes despertam os mais recônditos desejos, (diriam, levantam defunto). Que pensaria o ancião se soubesse que nestas linhas, neste pedaço de papel amassado  está sua filha sendo despida, antes mesmo que o médico a chamasse e para lá se dirigisse escoltada com muito carinho por sua mãe?  Tu me lembras agora, outra também magra, branca e gostosa. Conheci-a já lá vão alguns anos. Onde fostes tu, coragem? Covarde Horus, não a tiveras, deixaste-a cair nos braços doutro. Não,  agora me concentrar em ti. Ouvir tua voz,  tão diáfana quanto tua pele, deve ser. Cristalina, suave, sensual. Não penses que me vou apaixonar, pois, anos curtidos na solidão não fabricam uma paixão


                                                                 
                                                       
                                               

segunda-feira, 12 de junho de 2017

AMIGO DOS BICHOS

                                             













                                                     
     Não era solitário por querer, mas por timidez. Amava a tudo e a todos, um amor à distância, sem arroubos de romantismo, nem exibicionismo, sem alarde. Prestativo, a todos dava uma palavra de alegria ou conforto, quando solicitado; nem era egoísta, e, até, deixava de fazer por si para fazer pelos outros, mas uma tristeza imensa lhe advinha quando se sentia traído ou explorado por alguém. Era também vítima dos mais absurdos desentendimentos. Colégio Vieira. Internato. Empresta dinheiro a um colega. Fê-lo com prazer. Era pouco, mas entregou-o. Davis, tinha-o como um dos melhores amigos. Poderia precisar também um dia. E Davis, sua família, tinha dinheiro. Uma tarde, depois do recreio, subia a escada para o dormitório dos médios, onde iria tomar banho e vestir-se para a banca da quatro,  ouviu, no alto-falante de frente ao colégio, ao lado da Igreja Batista do Garcia, Nat King Cole. Cantava El Bodeguero do cubano Richard Egües.

      el bodeguero bailando va,
      en la bodega se baila asi,
      entre frijoles papa hay aqui,
     el nuevo ritmo del cha cha cha,
     toma chocolate paga lo que debes,
    toma chocolate paga lo que debes,
  Corria, porque, quando se é jovem, tudo é na carreira, escada acima, cantarolando a canção,  alegre e despreocupado, quando encontra. já no dormitório o amigo Davis, e canta em tom de brincadeira: Toma chocolate, paga lo que debe, apressou-se a tomar seu banho. Não demorou uma semana, Davis chega com o dinheiro para lhe pagar. Tão aturdido ficou,  nem tentou explicar-se, envergonhado. Não lhe estava cobrando. Hoje ainda não se redimiu do mal entendido; Ah,  quase bota a perder uma amizade. Assim era. esperava dos outros mais do que  lhe podiam dar. Compenetrado, dava aos sábados aulas de religião nas escolas do Garcia e Federação. Nem imaginava como falava em sala de aula. Meninos e meninas da mesma idade ou pouco menos que a sua. Parecia iluminado. Furtivos olhares, para a moreninha de olhos claros. Marly era ela? Apoquentado, nem sabia o nome de seus alunos. O mundo hoje o vê criando animais abandonados na rua. Cachorros, gatos e até periquito.  Se enreda cada dia mais nesta atividade. Deixa de frequentar os amigos.  Cuida de suas feridas e doenças. Leva-os ao veterinário. Castra o machos, esteriliza as fêmeas. Não venham a se reproduzir e sofrer mais do que já sofrem  na mãos do  homem, egoísta e malvado. Sonha. Ganhar uma fortuna na Mega-Sena, comprar um sítio, criar bichos. Fede a cachorro,alguns animais, dormem com ele.  Transforma a casa adaptando-a, no seu pensar, aos animais. Sanitários, móveis readaptados.  Não há lugar para o humano se sentar. Cortam-se todas as árvores do jardim. Que os gatos não as façam de trampolim para  pular o muro. Gatos gostam de altura. São feitas prateleiras, lá eles dormem. Cachorros nos sofás e nas camas. Uma enormidade de dinheiro com ração e remédios. A aposentadoria, sim, era também aposentado, uma história de loucura que vale um livro, ia-se minguando, quase não sobra para si. Já aparece na mídia de vez quando, em entrevistas e todos o tem em boa conta e respeito. Sempre aparece um para lhe trazer mais bichos. Dificilmente os recusa e faz questão de mostrar seu plantel a todos. Chama-os pelo nome, quase todos nomes de gente, acaricia-os e apresenta-nos ao visitante. Uma menina linda, parecia Chapeuzinho Vermelho, sempre passava em frente à sua casa e ficava curiosa em conhecer o interior da quela casa e aquele misterioso  homem. Dia destes, ele estava na porta com um gato nas mãos. Ela o olha com olhar de simpatia, ele lhe devolve o olhar e pergunta se não quer acariciar o bichano, indecisa, se aproximou e passou a mão sobre a cabeça do gatinho. Ele a convida a entrar, conhecer a casa e seus habitantes. Ela, ainda indecisa, entra na casa e ele, todo  solícito, vai mostrando-lhe e apresentando-a a cada um dos animais. Este, atropelado e trazido para cura-se e foi ficando. veja, uma beleza, ninguém mais o reconhece, de sequela, apenas um pequeno aleijão,  em uma das patas. Aquela é Lambiscóia, sofre de epilepsia. Tenho de medicá-la todas as noites para evitar as crises. Onde estiver, tenho de estar em casa até as 19 horas.  Dar seu remedinho. Completamente absorto na história de cada bicho,  não percebeu, de imediato,  o quanto a cativava, com tantas  palavras de carinho. Deve de ser uma doçura de pessoa. Esqueceu a pressa  para a escola. Sim estudo ballet na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia, minha mãe trabalha na Escola de Teatro da Araujo Pinho, sabe onde é? Aproximou-se dela, tomando-a pela mão, chamou-a para mostrar-lhe, o segundo piso, onde ficava o príncipe de seus animais. O mais bonito, o mais querido. Magnetizada por aquela voz, aquele amor. Levou-a ao quarto. Lá estava o príncipe, confortavelmente deitado na cama do casal, sim ele era casado. Alisou-lhe o pelo e pediu a ela que fizesse o mesmo. O Príncipe se arrepiava todo, deitando de patas para cima, excitando-se ao toque  carinhoso das mãos. Ela começou a sentir uma sensação estranha e de repente sua mão tocou a dele. Ambos se olharam e uma faísca saiu de seus  olhos, deles. Se atracaram, e rolaram na cama à vista do príncipe que também se excitara e roçava sobre eles, com ganidos de prazer. Ele tentava tirar príncipe de cima deles, mas o cão mais se excitava, subindo sobre os dois. Naquele embolar de corpos ela toca o pênis do príncipe e enquanto o homem metia-lhe o dele, ela masturbava o príncipe. Não se sabe quantos minutos duraram  aquela cena, eu não estava lá, nem ela, nem ele me contou. No momento do êxtase foi um grito só. Homem, mulher e cão. Cansados, adormeceram sob a vigilância do príncipe, agora com o sentimento de amante dos dois. Não durou muito o sono dele. Acordou e a viu adormecida, com o braço sobre o príncipe que cochilava apenas. Teve uma ideia. Macabra. Ficou indeciso por muito tempo. Voltou às cavernas quando o homem comia o próprio homem para saciar sua fome. Os tupinambás comiam seus prisioneiros para adquirir sua força, matar a fome e economizar a caça. Pensou enforcar a moça. Não, ela poderia acordar e gritar. Depois a bichinha ia sofrer muito com a asfixia. Depois teria uma "morte suja". Haveria um descontrole dos esfincteres e ela se cagaria e se mijaria toda, denunciando o ato. Foi à cozinha. Pegou um cutelo. Tampouco lhe daria morte instantânea. Se acordasse seria um deus no acuda, depois não queria que ela sofresse. Em boa hora, lembrou-se do pilão de Horus. De seus bisavós, dissera, Didi. Trazido de Mairi, estava ali guardado, por enquanto.  Feito de massaranduba, com mãos de imirá-itá, madeira pesada e resistente. Os índios a usavam para fabricar seus tacapes.  Bila, ele era conhecido assim, pegou u´a mão-de-pilão e  caminhou para o quarto. Sua amada inda dormia o sono dos justos, Príncipe brincava com sua calcinha preta. Quando ele viu seu senhor com a mão-de-pilão,largou a calcinha e  murchou as orelhas. Teria o perro sonhado o que iria fazer seu patrão? A quem ele pretendia matar a si para dar de comer a ela? Teve medo, mas se sentia feliz em servir de repasto para quem lhe proporcionou uns momentos de prazer. Também Baleia, quase  serviu de pasto para Sinhá Vitória, Fabiano e os meninos se não fosse o infeliz do louro. Bila não queria que Príncipe visse, nem mesmo adivinhasse o que iria fazer. Puxou-o delicadamente da cama, com cuidado para que ela não acordasse, pô-lo fora do quarto e fechou-o. Príncipe reclamou com leves ganidos, mas se conformou ou fez como se estivesse conformado. Bila mirou com ternura aquele corpo sobre seu leito, nua, os seios, como o corpo,  ligeiramente pendidos para esquerda. Rescendia um cheiro forte do amor. O vento sacudia fios de seus cabelos. Tão bela, não acredito que tenha algum pintor pintado quadro igual. Um tênue sorriso se viu de seus lábios. Talvez estivesse sonhando com lindas cenas de amor, que o jovem não ganhou ainda o tempo de sonhar cenas de sangue e desamor. Bila suspendeu o tacape, mirou sua cabeça, indeciso, mas depois decidido e desceu sobre ela o pau ferro. Não houve tempo para choro, nem grito. Como estivesse de lado o olho direito saltou da órbita e bateu no guarda-roupa. Para se certificar da morte, deu-lhe de novo com o tacape, o da misericórdia. O sangue jorrou mais abundantemente. Os Cachorros e gatos que não podem sentir cheiro de sangue começaram a ganir e a miar. Ele pegou da faca e começou a descarná-la. Cortou primeiro a cabeça, depois os braços, as pernas. Abriu a porta e começou a distribuir sua carne aos animais. Alimentado os animais, pegou a sobra, enrolou em pedaços com papel alumínio e foi colocar no  freezer. Depois lavou o resto de sangue que os animais não conseguiram lamber usando detergentes. Enrolou também os ossos  em papel alumínio para que não emitissem cheiro e os enterrou no quintal da casa. Terminado  todo o serviço, tomou banho. Ligou a tevê, pegou uma cerveja na geladeira, sentou-se e saboreou-a. Uma nesga de  alegria estava surgindo. Pegou o celular e mandou um zape para Didi. Resolvido o problema da alimentação dos bichos.
Mas porque falas disto? Não tens tu também a cabeça de um falcão? Não és tu a pomba que os cristãos chamam Espirito Santo. Por que condenas teu amigo que dá de comer aos bichos de carne humana? Por acaso não dilaceras tu os corações dos humanos que não te seguem?   




sábado, 20 de maio de 2017

VIAGEM A BONFIM DE VILA NOVA DA RAINHA














Pedes que te conte o acontecido, em quatorze  de junho de 1990, para que possas com veracidade narrar aos pósteros. Contarei à maneira de Plinio Cecílio Segundo, ainda que me traga horror e tristeza.
Cheguei às 12 horas a Senhor do Bonfim de Vila Nova da Rainha, Arraial do Senhor do Bonfim da Tapera, ou ainda Arraial da Missão do Sahy, indicado pela OAB, assistente de acusação no júri do homicídio de Helio Pombo Hilarião, advogado assassinado, tal Eugenio Lira, por defender posseiros. Fui ao fórum, ver o processo e depois, saí, matar saudades. A catedral, um barroco tardio,  singela, mas, torres imponentes. O prédio da prefeitura, amarelo ocre. O Colégio N.S. do Santíssimo Sacramento (Sacramentinas). Sonhar. Donzelas belas por seus corredores. O Ginásio S. Coração, os Maristas, de imponentes palmeiras reais. Jovens sertanejos buscam a sabença.  Companheiros de badogadas em Capela do Alto Alegre, falavam. As moças do Sacramentinas iam à missa no Marista, ou quando iam eles às Sacramentinas. Não mais olhar o Senhor na cruz, ver nas estudantes o amor carnal à Bernini. Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada, em êxtase, cabeça para trás, boca entreaberta e pálpebras semi-cerradas. A mão do.anjo toca suas vestes,  descobre-lhe os seios. Com a outra, segura uma flecha, aponta suas entranhas, já penetrada outras vezes. Dor e prazer. O corpo, envolto em vestes drapeadas, levita sobre  revoltos lençóis. Da expressão podia se ouvir palavras: Um êxtase caiu sobre mim tão de repente que quase me ausentei de mim mesma. Eu ouvi aquelas vozes, agora  eu quero falar não com o homem mas com  anjos.  Perto de mim, um anjo apareceu em forma humana, em sua mão eu vi uma enorme lança dourada e na sua ponta de ferro, parecia haver fogo. Eu senti como se ele a enterrasse várias vezes em meu coração, de forma que penetrou todas minhas entranhas. Quando ele a puxou, tirou com ela minhas tripas, e me deixou totalmente inflamada com o grande amor de Deus. A dor foi tão grande que me fez gemer várias vezes; Que gemidos. Ver o casario antigo, A igreja N.Sra. da Maravilha, a Cruz da Redenção, na Antônio Gonçalves, A casa  do Coronel Antônio Félix Martins, hoje, o bispado, e onde se hospedou Ruy Barbosa, única do sertão por ele visitada,  Terra do Bom Começo, chamou-a. Um intelectual livresco, alheio à realidade brasileira. Caçadores de ouro e pedras preciosas nas minas de Jacobina, boiadeiros, tangedores de gado, descendentes, empregados de Garcia D´Avila; Paiaiás, pataxós  e Kariris correndo campo, abatendo o tapir; negros servindo brancos,  fugindo para o quilombo de Tijuaçu; O encourado vaqueiro lascando a catinga, derrubando o pé-duro; moças casamenteiras adornando missas na catedral. As meditações de  Anatole France: E se procurarem saber porque é que todas as imaginações humanas, frescas ou murchas, tristes ou alegres, se voltam para o passado, curiosas de nele penetrarem, acharão sem dúvida que o passado é o nosso único passeio e o único lugar onde possamos escapar dos nossos aborrecimentos quotidianos, das nossas misérias, de nós mesmos. O presente é turvo e árido, o futuro está oculto. Chega à estação do trem. Um prédio sem estilo, laivos do barroco, ainda assim belo, de 1944. A linha férrea, de 1887. Fotografia da primeira estação, demolida. Um onjunto harmônico:  armazém, casas de funcionários. A destruição do passado;  Uma paisagem ainda bucólica. Ao fundo, Serra do Gado Bravo, Cordilheira do Espinhaço. O fim das ferrovias em beneficio das montadoras de automóveis e industrias afins.
 Ali corria a  vida. Reunia-se, ali aos domingos, depois da missa. As novidades da Bahia. Beber, papear, namorar, fofocar. Malas e pacotes embalavam anseios. Pressa, apreensão de quem parte, a miúde regado a choros e abraços demorados; Alegria dos que chegam, rever os seus, encontrar novos. De Lisboa a Paris. Santa Apolônia e Montparnasse, nem se lembra,  Gare Du Nord?  Noite em Paris. Amontoados nos bancos da estação. Brasileiro e portugueses. Hoteis cheios ou caros. Os tugas, órfãos de Salazar, vomitando  a ditadura. Eu, em fuga de 64.  Ah!  estações, um mundo. Onde estivesse, visitava-as sempre a ver, rever, relembrar, e sonhar. Buscar nos gestos, no olhar  o sentimento do viajante. Novas, estranhas terras. Os portugueses. Navegadores intrépidos sobre ondas bravias, enquando a Europa se escondia sob as saias do clero. E ao imenso e possível oceano , ensinam estas Quinas, que aqui vês,  que o mar com fim será grego ou romano:  O mar sem fim é português. Eu, Diogo Cão, navegador, deixei  este padrão ao pé do areal moreno  E para diante naveguei. Vasco da Gama no caminho das índias; Camões gesta os Lusíadas, em Macau e  retorna  a Goa e de um só braço nada, doutro salva o escrito do revolto mar:

Cessem do sábio Grego e do Troiano / As navegações grandes que fizeram; / Cale-se de Alexandro e de Trajano / A fama das vitórias que tiveram; / Que eu canto o peito ilustre Lusitano, / A quem Netuno e Marte obedeceram. / Cesse tudo o que a Musa antiga canta / Que outro valor mais alto se alevanta.

Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve na livrarias.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

HORDÉOLO









Acorda sonordelento o menino, passa cuspe na remela. Abrir os olhos. Inda a voz rouquenha do guru sertanejo e o responso dos fieis, como vozes vindas do além, ressoam  em sua mente.
                        Maria valei-me
                        Aos vossos devotos
                        Vinde socorrei
                        Vosso amor se empenha
                        Ó Virgem da Penha
                        Penha onde mora
                        Na fonte vital.
E o responso em coro:
                         Na fonte vital
                         Na fonte vital.

Todo menino é rei,  faz castelos de cristal,  encostado ao muro do  quintal. Pensa. Meninpedra, filosofal. Remelento, dedo na mão, esfrega. Tocar terçol. Quenturinha boa pra curar.  Olha o monturo chamusquento. Nojenta alfurja, onde se joga as imundícies. Restos crus, cozidos, palhas de grãos, cereais, panos, molambos, penicos de mijo e bosta, pasto de cães, porcos e  jumentos, galinhas e urubus. Dava um fogo quase morto. Fumo subindo, redemoinhos,  odores que aos animais não parecem incomodar. Queima a toda noite, um gosto especial aos restos  sapecados, como carne de fumeiro ou moqueada. No fim do mundo tudo vai pegar fogo, nojento,  de fazer medo.  Devia ser de água como se havia acabado antes.  Não, água também é muito agoniado. A morte vem boiando, zombando da gente. De braços abertos, estatelada. Pra lá e pra cá. Como bosta n´água. De fogo é melhor. Eterno, transforma, purifica  o homem,  um dia tudo será fogo, disse o obscuro Heráclito.O fogo do inferno, anunciado por Mr. Fanali, sous les toits de Paris. Queima tudo, até os ossos. Adeus viola. Não vem fazendo careta. Enfurecida. De uma vez. Mesmo que se corra. Fuçama de noites mal dormidas, canto aos mortos,boates de cigarros fumegantes entre lábios femininos. Aqui, nem sempre é uma festa.
Filomena, não a Moretti da guitarra em Asturias de Albeniz,  a do padeiro do violão,  também morena, gamela na cabeça, dar comida aos porcos, passa. Toca a viola:
- Pensando no fim do mundo? Tu já tem  juízo pra pensar?
 Tocou na sua matadura. Pôs a viola no saco. Ouvirá Ana Vidovic na Catedral do paraguaio Agustin, o Mangoré,e se lembrará, não sem saudade, de não caber dentro de si, não sem saudosismo,  não tanto salutar, mas com um pingo de vida porque como disse alguém, relembrar é viver duas vezes, lembrará sim, de Lilinha, irmã sua, no  violão, nas noites de Capela. Contraponto aos cagas-sebos no arvoredo, os trinados de sangue, cabeça de cardeal. Canarim, assanha  sanhaço. Xéxeus xiando  sacudidos nos seus ninhos, como bolsas, de gravetos, pelo vento. Polifonia do sertão, milho pilando no pilão, manteiga a chacoalhar na cabaça, Mancambira, a gungunar, remedando caminhão, o  bate-bate na bigorna Zé Cadeira, Zé Ferreira e Tunin Gomes. Bate, bate coração, bate o ferro na bigorna, bate a seca no sertão. Bate o vento balançando a cerração. Bate o vento balançado  coração.Quando tu balança, toda a  terra dança.
  

Quando tu balança
Dá um nó na minha pança
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança

Madrugada entrando
E o fole gemendo
Poeira subindo
E o suor descendo
Quem não tava "bêbo"
Já tava querendo
E eu cambaleando
Ia te dizendo
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança

Tava requebrando
E eu naquele jogo
Eu tava me esquentando
Mesmo sem ter fogo
Só batia palmas
De pernas puxada
Como quem atira
Em onça pintada
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança 


                      Mas não é mesmo, Gonzaga? Ô macho, manda esta muié parar  qui já tou todo molhado, senão, para o fole Seu Gonzaga, para este fole marvado.


Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

ANTÕE CEGO

















Tempo de menino, de molecada, dos causos contados, vistos  e vividos. Seu Antônio, o dia  negociava, tocando  venda com um pouco de tudo, e como toda boa venda, tinha a cachacinha como carro chefe. Cego,  um  sininho  pendurado na gaveta, controlava o ogó. Que nenhum ladrão se aventurasse a puxar aquela gualdra, o badalo  denunciaria  o larápio. Até mesmo um de seus  filhos foi um dia vítima de sua esperteza. Tentou  afanar alguns trocados.  Dlim, dlam, num pulo, alcançou o aventureiro, agarrando-o pelo saco. Um grito o denuncia, passando a sofrer da vergonha à sova,como costumavam dar os pais  aos filhos em erro. Hoje, poderia ir até para cadeia. O mundo mudou, os filhos, como não aprenderam a apanhar,  batem nos pais. Filhos apanhavam de pais, tios, avós, e até de irmãos mais velhos,  nem por isto havia revoltados, ladrões ou trombadinhas, como hoje. Palavras bonitas, por castigos, psicólogos, pedagogos e quejandos, o caminho para a permissividade, o culto à beleza, à juventude e discriminação dos mais velhos dos diferentes. Professores achincalhados,  mortos por alunos.  A pedagogia do medo pela pedagogia do medo. O lente é quem tem medo.
À noite, mestre Antônio transmudava-se. “Nesta terra de Índia usam  muito de feiticeiros e de advinhadores e  mormente nesta costa da ìndia que se chama Costa do Malabar e chamam a estes advinhadores, de canaiates.Dizia Gaspar Correia em 1563 sobre o curandeirismo na ìndia, prova da universalidade desta prática. Este Tirésias nordestino atendia a todos com igual denodo e heroísmo. Na tasca, labuta o dia. No templo noite e magia. Olhos de menino. Acordam cantares lúgubres, o mantra de tambores tangidos. Mãos d´enxadas amainando a terra, o enxó, o tosco tronco, a bigorna gemendo nas tardes, e o  martelo que não é a torre de Sandicove que Joyce imortalizou no Ulisses, comendo.
M´inin´ainda. Olhos abertos para as trevas. Máquina de costura. O correr da roda, o fiar d´agulha sobre o tecido. Plangor de alegria e dor. A sineta chacoalha com força e alarde. Via. Longos vestidos brancos, xales na cabeça, escondendo a beleza das mais jovens. Calças brancas e camisas de punhos longos brancos. Se branco para os egípcios era a cor da alegria,  para o africano afasta a morte, para si,  tristeza e morte. Não se enterravam os mortos de branco?
O desconhecido traz medo, mas também curiosidade. Quando a mãe não queria,  ia sozinho ver. Era só passar uma casa, pelo quintal. Do alto de seu altar comandava a cerimônia e dava inicio às litanias. Sacudia-se um  xexerê e uma sineta marcando o inicio do ritual, a chegada de um espírito levando ao transe um ou mais dos fieis. Quando o espírito era bom se festejava o mais que se pudesse até o axirê. Quando o espírito era mal, todos reverenciavam com temor, mas solicitando, implorando e imprecando para que deixasse aquela alma penada. Na cura do doente, fazia-se  procissões, conduzindo-o embaixo de lenços brancos à maneira de pálio, com varas sustentados por acólitos, acompanhadas de cantos às vezes  estranhos. Deviam sortir efeito, pois  a casa estava sempre cheia.
Santa Maria, Mãe de Deus, dizia o demiurgo, Rogai a Jesus por eu, respondido por beatas e beatos.
A molecada dizia que a certa altura, quando as beatas entravam em transe o curandeiro gritava: Vou virar bicho do mato, pra comer vocês todinhas. Elas respondiam : Primeiro eu, padinho, Primeiro eu, padinho.
Pela fé o homem mata, morre e move montanhas, não dizia o pregador de Nazaré? Como explicar a saga de Matota e Marata, os beatos José Maurino e Maria Nilza que, em ritual da chamada Igreja Universal Assembleia dos Santos, sacrificaram  crianças por afogamento na praia de Stela Maris? Que dizer do pastor Jim Jones da Igreja Templo do Povo cuja pregação  levou quase 900 pessoas ao suicídio na Guiana? Não está escrito?  A cidade, com tudo o que nela existe, será consagrada ao Senhor para destruição. Somente a prostituta Raabe e todos os que estão com ela em sua casa serão poupados, pois ela escondeu os espiões que enviamos.
E Consagraram a cidade ao Senhor, destruindo ao fio da espada homens, mulheres, jovens, velhos, bois, ovelhas e jumentos; todos os seres vivos que nela havia. Ô, Javehzinho escroto. Por que não poderia mestre  Antônio,  em noites de lua cheia, com  hinos e cânticos, gritos e gemidos levar seus pacientes ao transe?

          Santo de Todos os Santos
          Todos venham me ajudar
          Os trabalhos qu´eu fizer
          Ninguém possa desmanchar.
          Sou barro forte
          Massapê, barrostroá
          Sou caboclo da jurema
          Só faço o bem, não faço o mal.


           Mistérios da cura, sem explicação, tudo o que se não pode explicar é mistério. Muitos se diziam curados. Nas noites mal dormidas acompanhava a função até o final. Nunca viu alguém entrar de muletas e sair com as próprias pernas. Rituais eternos, transmitidos de século a séculos. Casta privilegiada, segredos guardados, poder e magia. Em Capela vi, cego sem curar sua própria  cegueira,  cuspir  no chão, fazer lama e, orientado seus acólitos,  passar sobre o olho do fiel tão  cego quanto ele. Também posso fazer milagres. Quando crescer. Começar vendendo passarinho. Pensava, em vigília. Hoje é maldade, contra a ecologia. Crime ecológico. Milhares de animais em extinção. Não se ouve mais o canto da juriti nas manhãs de sol. Comprar  os panos brancos, fazer as roupas. Fazer milagres e enriquecer. Antõe era pobre, por querer, ou por burrice. Eu não, vou ficar rico.



Breve, Noite em Paris, nas livrarias.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

HOTI HUÑ









                        “Levai à minha  amada
                         Estas poucas e duras palavras...
                        Que ela não conte mais, como antes, com meu amor.
                        Por sua culpa, ele morreu,
                        Como, à margem do prado morre a flor,
                        Que a charrua, ao   passar, tocou”.
                        (Caio Valério Catulo, poeta latino,  em Carmen XI)


Salvador, 06 de fevereiro de 1975

                       ANA LUZIA,
Soube que você vai se casar. Cago pra isso, mas aqui estou como prometi,   te dizer algumas coisas que ainda não saíram de minha cuca.

                                                                                                                                                   Jeme souviens de toi                 
Il souffit
J´attache la porte de ma voiture
Avec le cordon bleu.

Je me souviens de toi
Quand je prends mon bain
Au savon “chuvas de rosas”

Je me souviens de toi
Et je te déteste
Quand je me rapelle
De tes mensonges bourgeoises
Ah! ma petite fille!
Si tu savais  la douleur qui vient de toi
Pourrais-tu savoir ce qui se passe dans mon coeur?
Garde tes yeux de ma face.
Mon coeur pourra vaincre ma conscience.
Meu coração poderá vencer minha consciência.
Amiga. Amiga? Quero ser o teu demônio. O teu “amigo”, o teu “admirador” o teu detrator.  O imbecil que passou em tua vida. O madeiro que te  conduz ao silêncio. Os dejectos que jogas na latrina. O algoz que te leva ao cadafalso.
Ah! As mentirinhas pequeno-burguesas. Como fazem doer as minhas carnes! As intriguinhas. Os enredos pré-fabricados. A monotonia do que se entregam à mediocridade, dos que tem medo dos sentimentos fortes.
Se eu morrer amanhã. Ah!. Se eu morrer amanhã!. Dormirei la primeira noite fria no teu corpo quente.
O tal que estava esperando você e a prima, a loura, naquele dia lá embaixo na casa de Ivonete foi o Ivon. Mais uma das suas. Se eu chegasse naquela hora você tinha se mandado e eu ficava a ver navios. Aliás, fiquei. Você aproveitou o embalo e zangou-se de araque. Bruxa e criança, você é.
O rio leva a água pro mar. O mar solta pro ar. O ar descarrega no rio.
Passo pelo Hospital Português. Podridão. Pelo hospital português. Ódio. Hospital Português. Dedicação. Português. Amor. Arrependimento. Passo. Passas. Passo. Passas.
                  
Aquele chocolate sujou  mîa boca.
Aquele chocolate não deveria ter vindo
À minha boca.
Aquele chocolate  arde  minha boca.
Aquele chocolate
Teus olhos, chocolate, teus olhos;
Cortai
Todas as linhas para Brasília
Cortai
Todas as linhas pra Bel’ Horizonte
Cortai
As linhas do meu coração.
Eu nunca digo adeus
Nem, amém.






(Publicado  na Coletânea O RETORNO DA ESPERANÇA  -   Art-Contemp Editora, Salvador/Ba,1996 ).

terça-feira, 14 de março de 2017

HYDRA














Estava tudo claro-escuro. Era um povoado de casas caiadas, esparsas, numa planície de mato ralo e arbustos retorcidos, de onde se via, ao longe, a imponente Hydra. Eu tinha sede e precisava  telefonar.  Um aldeão me deu de beber,  que bebi a contragosto, água barrenta e salobra. Não havia telefones na aldeia. Você pode encontrar água boa e telefones no topo da cidade. Muito e distante e alta estava, teria de andar muito, por íngremes ladeiras. Há tempos não exercitava minhas asas. Chegando ao topo de uma ladeira, fiquei indeciso. Não tinha certeza de que poderia voar.e um tope E foi com enorme esforço que, de um topo de ladeira, levantei vôo. Para Hydra, homem-pássaro. Levantar vôo de pequenas elevações exigia muita energia para manter a altitude e isto me cansava muito, por isso tive  que parar inúmeras vezes. E era outro sacrifício para levantar vôo novamente, porque tinha sempre de fazê-lo do cume de alguma ladeira. Sou como as pardelas de Cipango. Tenho de escalar uma árvore ou qualquer elevação para alçar vôo.
Que alivio quando comecei a distinguir os primeiros arranha-céus da cidade de Hydra. Seus tetos de vidros coloridos refletiam a luz mortiça do sol-poente.
Posei no primeiro teto que encontrei pela frente. Desci à rua. Entrei num bar. Tomei uns goles de um refresco verde vendido por um homem de cabelos também verdes. A sede não morreu por inteiro. Não quis, porém, beber outro trago. Precisava telefonar, ou melhor, tinha vontade de telefonar.
Indaguei das mulheres da cidade. Lindas diziam. Amáveis cochichavam um pouco temerosos, alguns. Adoráveis,  asseguravam, outros, mais convictos.
Andei, por entre ruas, becos e vielas, milhões d´olhos de um vago olhar aflito, cobrem-me o corpo,  assustados e curiosos, mas  pacíficas e simpáticas. Corri, de qualquer sorte era um intruso. Subi num murro e passei para outro mais alto, daí para um telhado de uma casa de onde  tomei vôo, sempre pousandoem prédios mais altos para retomar vôo. Bem  alto, já, vi um teto que era uma cuia. Que era u’a mesa. Que era uma agulha.
Abri os braços-asas na busca daquela que era a dona da cidade. Hydra.
Hydra. Mulher linda. Mulher rica. Mulher inteligente. Mulher-mulher.
E vi no mais alto dos prédios, um lindo terraço colorido e perfumado pelas flores de toda terra. Posei em seu tapete aveludado.
Hydra falava ao telefone. Hydra. Falava ao telefone.
Seus olhos verdes cor de fogo saíram de seu rosto e tocaram minha pele queimada. Seus cabelos voaram e taparam o sol.
O amarelo ficou negro. Eu apenas balbuciei: Eu ... Eu queria telefonar. - Sua presença era o mundo.
Seus braços se abriram. Looongos. Caiu o telefone que se partiu.
Suas pernas partiram,  enormes, para mim.
- Lindo, lindo homem, me  ama.
E vi sua língua em forquilha soltar pequenas gotas de um líquido que me atingiam o corpo, queimando-me a roupa e assando-me a pele. Quis tapar as narinas para não sentir o hálito fétido que exalava, mas pouco efeito fazia. Já estava todo empestiado de sua saliva.
Eu tentava voar e não mais podia. Maior era o esforço, mais perto estava ela de mim. De seus braços que esticavam. De suas cabeças, mil. De seus olhos coruscantes.
Me ama. Me ama.
E mostrava os seios  lindos. O corpo ondulante, qual uma serpente e com o fremir da dança do ventre.
Molhado estava. Queimado estava. Era uma ferida só. De sua saliva. De seus olhos.
E vi minhas asas caírem. Meus dedos. Meus braços. Minhas pernas. Meu corpo. E o nada..
Agora sou.
Sua voz. Seus olhos. Seu corpo. Seu cheiro. Sua beleza.
Eu sou a Hydra. Eu sou Hydra.




 (Publicado  na Coletânea LITANIA – O Grito da Esperança -   Contemp Editora Ltda, 1989, Salvador-Ba).