sexta-feira, 25 de março de 2016

CARNAVAL IEMANJÁ



















Hoje é carnaval na Bahia, mas também, e acima de tudo, Dia de Iemanjá. Abiãs com seus contra-eguns, ogãs, babalaôs, apetebis,  babalorixás, dotês e donês, Tatás de Inquice, mametus de inquice, o alapini do Brasil, assobás, yalorixás, iyakekerês, Iyalaxês, agibonãs, Iyabassês, ajoyês ou ekedis, babakekerês, akepalôs, ogans, yaôs-eleguns com seus idês, ebômins, kakanfós, obás, obaxoruns,  abás, balés, aquirijebós, amobirins e até alibãs, todos devotos, e com seus brajás e aladoris na cabeça, diante do peji,  entoam a saudação à Rainha do Mar, Odô Iyá, filha de Olokum e esposa de Olofin-Odudua: Omi ô odo iyá eruiáque, com seu abebê, certamente abençoará seus filhos dando-lhes muito axé. Tocam o rum, o rumlê e o rumpi. Inicia-se o padê. Sacodem-se os agés e os caxixis. Percute-se  os agogôs. Os alabês entoam os cantos. Os adés se sacodem. Começa o xirê. Agbôs ou amassis são feitos. Serve-se o ungê. Acaçás, acarajés, abarás, flores, perfumes, espelhos, enfeites diversos, anéis, colares, fitas, brincos, pentes, bijuterias, jóias, relógios, maquiagens e bonecas, velas, bebidas e comidas, fava  com camarão, cebola e azeite doce e até champanhe são oferecidos, a Dandalunda, Janaína, Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, Maria, Dona Iemanjá, tudo feito numa ânsia maluca de afastar o ajogun e alcançar o axé. Nas ruas, o samba de roda, o  ijexá, a capoeira, afoxés, e muita gente vestida com roupas dos rituais do candomblé. Esta é a festa do Rio Vermelho  da Bahia de São Salvador do Brasil. Quem mora no Ponto da Mangueira é um pulo, nem vale a pena uma condução. Todos iam a pé mesmo. Trabalhara até quatro horas carregando pedra. Fazer um muro de contenção de água, pois, quando chovia a água entrava pela frente e saía pelos fundos. Sua casa ficava bem no pé da ladeira do Sobradinho.  Suas irmãs já tinham ido encontrar com as colegas do Colégio Manoel Devoto. Quantas delas  não cobiçara com o olhar distante e erradio. Que não o vissem apalemardo. Pode lembrar o nome de algumas. Neila, Margarida, Iraildes, Vera. Tomado banho, pôs sua melhor roupa, passou brilhantina no cabelo maracanã, jogou  um pouco de colônia 1010 sobre si e saiu augurando encontrar uma garota e, se tivesse oportunidade, a ela se declarar, como se dizia na época. Andava por cima da linha do bonde. Não sujar os sapatos de lama. Já começara escurecer quando chegou ao Largo de Santana. O Trio Elétrico Tapajós tocava. As meninas faziam cordões e brincavam ora em roda, ora serpenteando. Visão que nunca mais saiu de sua mente e que teve repetida quando viu no carnaval de Colônia um mar de loiras valquírias de olhos azuis que nem o céu da Bahia. Estava em voga um corte de cabelo bem curto que passou a ser conhecido como cabelo de coco. As meninas ficavam com  um aspecto de anjos surucos, barrrocos. Lembra-se bem de uma que tinha os olhos tão verdes que pareciam cortar a alma? Como os olhos de aurinha?  A mágica do flerte que era tocar nos longos cabelos passou a ser passar a mão pela cabeça como a consolar uma criança. Se ela sorrisse, a senha da paquera. Bem poucos ousavam tocar as danaídes porque, a despeito de estarem exatamente à procura de um macho, se uma era tocada,  mas não se agradasse  do tipo, chamava a policia ou seus irmãos e parentes que  estavam por ali e a confusão estava formada. Quantos marmanjos não foram presos por um simples toque no cabelo de uma donzela. Quantas brigas  não testemunhara!  Muitas vezes tinha inicio uma briga onde todos brigavam contra todos e não se sabia de onde surgira.  A polícia chegava e prendia, freqüentemente, quem nada tinha com a briga e estava ali apenas tentando separar os brigões. As festas de largo, assim conhecidas, eram os locais onde se fazia a paquera e as brigas. Muitos casamentos tiveram seu inicio nelas. Boa Viagem, Lapinha, Bonfim, Ribeira, Rio Vermelho, Conceição da Praia faziam  a alegria do baiano. Havia um congraçamento de classes, todos compareciam e andavam ombro a ombro pelas ruas, embora alguns privilegiados se beneficiassem do conforto das casas de parentes ou amigos que residiam no local. Só ele estava só naquela multidão colorida, embevecido com os requebros das mulatas, a doçura de olhos cor de mel, o feitiço do verde apaixonado, o mistério do azul da cor do mar, e à profundeza do negro olhar daquelas moiçolas. Só, porque não estava acostumado à algazarra de uma juventude criada com a liberdade das ruas, sem as amarras adquiridas no claustro e no internato, pouco afeitos às meditações e introspecção. Quem tem o privilegio de estudar num internato, sofre as consequências do isolamento que faz com que o jovem tenha medo da multidão e principalmente,  receio de ser rejeitado, especialmente pelo feminino.  Não ter sido introduzido no  mundo do fumo e do álcool,   de certa forma,  muleta e combustível juvenis, foi uma terrível experiência e  por isto, o contato com jovens de sua geração, foi sempre traumático e desolador. Censuravam-lhe a maneira de falar, de se vestir,  de não dizer palavrões, de não usar as gírias da moda e até sorriam de suas conversas. Fala escolhendo palavras, parece  pessoa de outro mundo. Quando no Duque de Caxias, a professora de inglês organizara um passeio à praia de Inema, local já na época privilegiado, (Área residencial de oficiais da Marinha), hoje, famosa no mundo, porque refúgio das lidas de presidentes - Lula e Dilma - descanso  da faina política, no carnaval,  páscoa...  Tempos de rudeza. A tradição, o tabu se debatendo com  as novidades da industria cultural da Europa e Norteamérica. Preso  ao passado, sem roupas de praia, sem sandálias, um alienígena.  As moças, mais afoitas, entraram n´água, os rapazes na areia. A professora ficara na areia com algumas moças. Cadê as mulheres? Perguntou. Todos coraram e ele, atormentado pelo resto do dia.  Todos se entreolharam, um silencio ouvido pelas ondas perpassou. Percebendo sua gafe quis consertar, mas a emenda saiu pior do que o soneto. Mas, não é mulher mesmo? Elas são homens por acaso? Novo silêncio, agora acompanhado de uma certa reprovação no olhar de todos. É que naquela época, dizer mulher era o mesmo que chamar puta. Dizia-se, pomposamente, minha esposa. As solteiras, simplesmente moça, ofensa, chamar moça de mulher. Ofensa  sem perdão.  Traumático, sempre, o embate de gerações. O novo e o passado. Não se admite  mudanças. Sempre perigosa,  quem a quer é louco, ou degenerado. Nas cavernas, quem sabe?  Ser jovem é não ter juízo, sem responsabilidade. Quem mais se parece com os velhos,  é tido como adulto, com juízo,  exemplo a ser  seguido. Por que você não faz como fulano de tal? Ali, sim que é um rapaz ajuizado. Um homem que todo pai queria pra sua filha. Ah se  não fossem os doidos, os sem juízos. Que seria deste mundo? Estaríamos ainda na idade da pedra lascada. Topada é que leva  homem pra frente, diz o ditado.
Mas, como felizmente, o homem não é feito só de barro e sopro divino, como querem os criacionistas,  é antes de tudo o criador do mundo, ou seu próprio criador, na medida em que ele faz sua historia, faz a historia do mundo, ele inventa, ele cria, ele surpreende. Quem duvida de que um dia o homem lascou a pedra e a tomou como instrumento e arma? Que depois a poliu com os mesmos fins? Quem vive o que se vive agora, com as facilidades que a tecnologia lhe garante não pode ter dúvida de que tudo isto foi criado pela mente humana. Se assim não fora, como explicar a diversidade de vida e visões que o homem tem demonstrado ao longo de séculos? Por isto que não se deve lastimar a existência dos arredios e foras do contexto. Serventia, eles têm, é só buscar e ver. Equilíbrio do mundo, por exemplo. Não? Se todos fossem à guerra com igual ímpeto, quantos sobrariam pra contar a história? O mundo é o homem e cada homem tem seu mundo.

Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

quinta-feira, 24 de março de 2016

MAMAN GABRIELLE

















Levou muito tempo discutindo sobre seu nome. Conta-lhe a história  e origem dos nomes. Chamava-se Bernadette, passara  a ser conhecida como maman Bernadette, protetora de estudantes estrangeiros. Conseguira boas colocações aos que ali passaram. Davi Verner, havia-lhe indicado esta mecenas. Havia passado por suas mãos, mas não tivera tempo de burilar o ator que havia dentro dele, nem arranjar-lhe um contato com o grand monde.
Ficou deveras impressionado com a velha senhora. Um turbilhão. Quase nada entendeu,  mas assim mesmo conversaram. Queria fazer  jornalismo, sobreviver com ele. Deixar  de lado o direito iniciado na Bahia. Talvez, uma porta pro  cinema, sua verdadeira paixão. Elle bavardait.  Prometeu apresentá-lo a ilustres personagens, dando-lhe oportunidade de fazer artigos  pra publicar no Brasil. E de logo ficou acertado que deveria levá-la a um jantar, à la campagne. Um jantar e a  vernissage do pintor amigo, anfitrião. Je vous donne rendez-vous pour jeudi, trois heures. Disse e estendeu-lhe a mão. Bela maneira de  mandá-lo embora.
Quinta-feira. Sim. Quinta-feira, maman Bernadette marcou rendez-vous. Meu Deus,  o que poderia acontecer? Uma exposição de pintura, um jantar em casa de um amigo, à la campagne.  Seu conhecimento de francês não chegava a entender o real sentido da palavra rendez-vous. No Brasil rendez-vous é lugar de orgia e libertinagem. Brega. O homem sempre teve o hábito de se apropriar de um termo de outra língua ou mesmo da mesma língua e modificar inteiramente o seu sentido. Os linguistas chamam isto de mudança semântica. Rendez-Vous virou nas bocas tupiniquins, simplesmente  brega, lugar de encontros pouco recomendáveis. Um dia, com Claudio, no Quatier Latin, perto da Coupole, entram cinco brasileiros,  chamava-se embaixadas, viagens de estudantes em fim de curso. Com Claudio quase, se falavam em francês, por isto o grupo não percebeu serem brasileiros. Perguntavam-se. E agora, como é garçon em francês? Cláudio chama o garçon. Aturdidos, vejam, garçon é o mesmo que em português. Isto não é colonialismo? Perde-se  até a noção da língua.  Mas voltemos à  velha, ainda que esta história tenha acontecido realmente, não poderá servir de pretexto a digressões político-filosóficas, em detrimento da verdadeira história de Maman Bernadette ou de seus coadjuvantes, porque parece só existir protagonista, desde que os gregos o inventaram, nos livros, nos romances, nas novelas, na real, na vida de cada dia,  meros coadjuvantes somos, quão  diminutos  diante da portentosa e brava natureza. Imaginou  lindas francesas em orgia no passeio à la campagne, Jeudi trois heures, não obstante se mostrasse aquela velha senhora de uma religiosidade a toda prova, com terço de ouro nas mãos que ela parecia dedilhar mecanicamente, balbuciando aqui e acolá palavras da Ave Maria, do credo, da jaculatória, do Pai Nosso  denunciando sua devoção e fidelidade à recomendação de Maria quando, dizem,  entregou-o a São Domingos como arma poderosa contra as tentações do demônio e conversão dos hereges. Vestidinho composto, negro como as roupas das portuguesas, mas de corte elegante como são as roupas dos franceses, mestres do vestuário e da perfumaria. Semiparaplégica, andava  com dificuldade com o auxilio de muletas. Um rostinho  quadriredondo, como costumam ter as francesas. Tipo mignon,  que se pode traduzir como  pequena e  bela. Uma mulher feia não é mignon, é petitte. Precisa, o francês,  talvez mais  que o português. O partitivo,  por exemplo, evidências da precisão. Não se bebe água, bebe-se da água, não toda água do mundo.  Boire de l´eau. Talvez, por isto o positivismo francês. Não podia imaginar aquele rosto encostado ao meu,  aqueles lábios finos, quase uma lombriga, tocando os meus. Nas manhãs calorentas ou chuvosas, mães acordavam os filhos, caneca de  óleo de rícino na mãos. Segurar uma colher, não vomitar. Expulsar os vermes. A saia saía botando vermes de todos os tamanhos. As vezes iam saindo dois, três, e a gente era obrigado a puxá-las como macarrão puxado pelo filete do escorredor. Quando saído do sertão, viu o macarrão pela primeira vez, lembrou-se dos vermes saídos do fiofó.  Estão rindo de quê? Nojo? Que culpa tenho de que não tenham vivido a vida? Não tenham nada par  contar?  Só mentiras. Conquistas nunca realizadas? Posso voltar a Maman Bernadette?  Seu hálito exalava um cheiro apodrecido, mas  simpática no seu sorriso. Carecia dela. Ajudar nos meus sonhos. Errado, usar as pessoas. Prostituição, corrupção.  Muitos pensam que só se corrompe por dinheiro.  Poder-se-á ser traído pelos próprios pensamentos. Alguém também estará tentando usar você. Vence o melhor, como na natureza. O mais preparado. Eu, o mais fraco.  A educação  franciscano-jesuítica impedia avançar sobre as barreiras da moral. Neanmoins, deixemos que o barco da vida nos conduza. Sem atropelo, sem premeditação. Seja o que Deus quiser. Mundacho torto, como dizia o bom frei Teodoro nos corredores do Convento da Piedade da Bahia. O mundo é mesmo torto, mas ainda assim, vale. Anos depois ouvirá alguém dizer: Oh mundão, não acaba não, mundão.
Quinta-feira, do português, como quis Martinho de Braga. Dia de Júpiter. Jeudi. La mama o recebe esplendorosa em seu tailleur noir e manteau Cardin. Não era uma paraplegia que a atormentasse, mas, muito mais uma espondilite que a mantinha curvada sobre o próprio corpo, com certa elegância, entretanto. As muletas eram-lhe útil, certo que não se movia sem elas. Pena que morasse no quinto andar. Posso  dizer-te que desceram a escada? Ou pegaram  o elevador? Ela, pelo elevador, sem dúvida. Engenhoca em metais, barulhenta, cujas portas gradeadas se abriam encolhendo como sanfona, usado só na subida, descer pela escada, medida de economia. Que importam estes detalhes? Num realista isto é importante. Tudo é importante. Mas se se disser que tudo não passa de um sonho? Como se lembrar inteiramente de um sonho?  Perdem-se os contornos, como se fora num lusco-fusco a caminho da noite.  Como se se tivesse nos olhos uma espessa membrana, que mau deixa entrever a massa disforme das coisas. Tempo é a noite da memória. Realidade vira sonho perdido na escuridão, mesmo que se tente puxá-la pra perto. Se vêm, chega em pedaços disformes, sem cronologia, truncados um nos outros, como num quadro abstrato, religar impossível.
Me vi, se viram no táxi. Ela, a mãezinha bavardait como um papagaio, como a nega do leite, diriam avoengos.  Vovô. Batia colher de pau em minha cabeça, que  eu falasse sem gaguejar. Falar não me é mais constrangedor, enjoa, mais ainda  quando  se entende o que se diz e o que se não diz.  Toda palavra tem um sentido, o que tu vês e o que não vês. La mère falava. Com a cabeça, ora com os olhos  acenava-lhe, apenas. Por que mentir? Não estava entendendo muita coisa. Falam depressa os franceses, pouco se lhes importam que estejamos ou não entendendo. Nós nos esforçamos pra sermos  entendidos, até tentamos falar com  o sotaque estrangeiro. Parecer  chique. Orgulhamo-nos de falar inglês, mas não temos vergonha de assassinar o português. Mentalidade de colonizado, de escravo. Não o francês. Vive cem anos em um país e continua falando com sotaque, mesmo que pareça  amar este país mais do o seu próprio, como Pierre Verger, o babalaô  Fatumbi  que renasceu na Bahia pela graça de Ifá.
Cedo chegaram. O taxi os deixou à porta do castelo. Era um destes castelos entre tantos existentes na França, de construção medieval. Acostumados à taipa e telha vã dos musseques de Salvador da Bahia seus olhos cresceram, como os de um gato na escuridão. Recebidos por Monsieur Grillon, um senhor   circunspecto, mas simpático que os levou a uma sala ao rés-do-chão na ala esquerda do prédio, onde estavam expostos seus quadros em pintura abstrata.  Nada entendia  de pintura,  muito menos abstrata. Poderia se enfeitiçar pelas cores, porque em verdade a cor é tudo na vida. Se tudo fosse visto em preto e branco a vida seria muito monótona. As cores tornam a vida doce e agradável. Quando bate a seca no sertão, esturricado, ocre e chato o chão. Também o gelo virado lama, o branco é cinza, é preto, desolação. Flocos de neve caindo à  noitinha. Paris, mais que uma festa. Como tanajuras caindo nas tardes do sertão. Não só ele, abestalhados, todos ficam com a neve. Crianças e adultos brincam,  batalhas no gelo. Um punhado de neve na cara. Sorrisos largos. No Ceará não tem disto não. No degelo, o coração gela. Um café, um chá, um conhaque, suportar o frio. Foi  no degelo,  vindos de Maman Bernadette, ele e Jussiê,   ofendidos porque, sem dinheiro, entraram num bar,  esquentar o frio.  Dehors étranger de la merde, berrou o francês com seu hálito azedo de vinho barato. Uma gorda senhora gloterava como cegonha, mostrando, despudoradamente, os dentes apodrecidos pelas cebolas malcozidas de sua sopa.





Continua no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

sexta-feira, 18 de março de 2016

NECO PRETO


















Passa o gancho, disse Neco Preto. Vi e ouvi. Pegou da rabeca e foi derreando-se sobre o tapete verde do bilhar. Seu corpo crescia sobre a sinuca e o silêncio invadiu o ar daquela tarde. João de Maninho,  dono do bar,  (um fuzuê podia acontecer)  lançou um olhar de gato assustado sobre o preto Neco.  É tudo ou nada, disse este, num disfarce. Ariston sorria pelos cantos. O de fora desconfiava. Apruma o taco, Neco danado. Dizia como querendo convencer ao meteco de que era um pixote. Um pouco à direita. Não, demais,  esquerda. Atrás,um pouquito. Afasta-se, cismando, como indeciso da jogada. Manha de quem quer enganar os incautos. Já perdera mais de cinco e esta era a negra, valendo tudo o que tinha no bolso, o outro que depositara na caçapa,  o que ganhara e o que trouxera. Cantou. Bola sete. Limava, limava a bola. Suave saiu bola branca rolando sobre o tapete verde. Ouvia-se o zunir d´insetos, como num coro, em contraponto. Nem o assum-preto, na gaiola, cantou.  Bate a branca, a bola preta, devagar caminha, mansa, serena, baqueando-se em boca aberta, sem dó, sem compaixão do fulano forasteiro, revoltado pela enganação. Quem quer ganhar não quer perder, mas quem há de contestar o nego Neco? Assim  fazia, com quem aparecia com ares de bom jogador de sinuca. Roubar, não era roubo. Ensaiava fífias, repiques e furadas no inicio, astúcia:  ganhar o dinheirim do caba que chegava bufando sabedoria e fidúncia na sua roupa engomada. De quem arrelia fazia, arreliado ficava. Sinuca, quase distração única daquela gente, sacudida por secas, valentões e borrascas que amedrontavam a todos, obrigados a cobrir espelhos e metais, por medo de coriscos e raios infernais. Almas crentes e simples dominadas por lendas brancas, negras e indígenas.  Caiporas castigando caçadores desobedientes das regras da natureza;  o preto velho, bom pra uns e maligno paroutros. Neco Preto era a arrelia do sertão. Engomado no seu fato de linho branco contrastando com sua pele de azeviche, podia-se ver, por entre as calças, o cabo do punhal incrustado de oiro e prata.  Nem a valentia de Duardo da Pedra Bonita o amedrontava. Mas ninguém, nunca num viu o preto Neco numa briga de verdade. Apenas respeitavam. O nego tinha mandingas africanas aprendidas dos pretos velhos do sertão. Sabia jogar cangapé como ninguém e derrubava qualquer um que se fizesse de besta.  Medo dos negros,  advindo, talvez, com divulgação da revolta dos Nagô-Minas, adeptos do Alcorão, a Revolta dos Malês, propiciando  o desenvolvimento de um latente racismo e discriminação contra toda sorte de cafre. Negro era inimigo. Herança maldita, vergonha de ser negro, mesmo quando deixou  de ser coisa, com a abolição. E  apesar de se tratá-los  de maneira carinhosa,  por medo ou respeito, sentia-se no ar certo ressentimento de parte a parte. Todo negro sabia lutar cangapé, tocar o berra-boi, de som exótico, e era senhor de mandingas e mistérios d´África capaz de transformar um cristão num sapo ou numa pedra. Em Capela, n´ Aroeira, negro morava em pequenas comunidades, quase sempre em terrenos pouco férteis que o branco não se apropriara. Vendiam o dia no macaco, e poucos tinham chegado à condição de proprietário. Abolição formal, mais prejuízo que beneficio: Deixou o negro ao deus dará sem nem mesmo ter pronde ir. Neco não tinha profissão definida, mas andava sempre com dinheiro e bem vestido, e, à parte as trapaças no jogo, era de uma honestidade à toda prova. Quem nunca o viu, preto no chapéu baeta, engomado no linho branco? Mais de jogo vivia que de trabalho, só com a chuva sumia: mandioca, milho, feijão, mamona,  fumo em manoca, de suas mãos. O povo de Baio padeiro, de Monte Alegre, negros corridos da morfeia, eram mestres charuteiros. Dobra fumo, enrola fumo, arte nas mãos. Do lado da Rua Nova, Baio fazia pão. Marcados, ritmados murros, a massa, o cocho, o baticum até noitão. Fazer a liga, esticar o bolo e cortar o pão nosso de cada dia, (só na oração),  jogado ao forno em brasa ardente.  Luxo na mesa  do sertão. Pisara muito milho, peneirou xerém,  quirera do angu. Cuscuz, mingau e mungunzá eram  nossa tamina, como as que se davam aos escravos. Os pernambucanos moíam o milho na mó. Ver cair o milho quebrado pelas beiradas da pedra era uma festa, como os metais da nona em Dvorak. Ver isto, não é sonhar, é ser iniciado. Mistérios da vida.  Mestre não é o lar, nem a escola,  é a própria vida transbordando a cada momento, que embora pareça obedecer a uma cronologia deixa de o ser,  na medida em que sua rememoração ressurge,  basta  qualquer detalhe, uma fagulha qualquer e lá está inteira a cena vivida em datas imemoriais. O passado é o presente que é passado que é futuro. Prova disto tive e mais de uma. Anos se passaram quando me apareceu um cliente.  Havia-se aposentado e levara deste jubilamento um bom dinheiro. Largara a mulher e arranjou uma amante. Com o dinheiro da aposentadoria construiu uma casa em terreno desta mulher, a qual, logo se vendo dentro dela, expulsou-o de casa e ficou de posse do bem. Interrogado um dia sobre um assunto do qual nem me recordo mais, ele lançou um olhar e um sorriso que me fez voltar mais de cinqüenta anos, ao esplendor da minha juventude. Repentina e claramente vi Renato em sua singela  casa, espremida entre os casarões senhoriais da Barra Avenida, os dias na Escola Santa Rita, no Chame-Chame, com  seu irmão Reginaldo. Ao largar da escola passeávamos pelas chácaras, onde hoje é Avenida Centenário, chupávamos doces mangas roubadas e ofertadas pelos chacareiros e depois de esquadrinhar todos aqueles lugares à sombra de mangueiras, tamarineiros, araçazeiros, abacateiros, jaqueiras e bananeiras subíamos a ladeira. Avenida Princesa Leopoldina e na esquina do Hospital Português e tomávamos a Princesa Isabel até sua casa. Quase que não tínhamos mais fome de tanto comer frutas nesta caminhada. A divisão do tempo, presente, passado e futuro é artificial, atende apenas a nossa incapacidade de perceber o todo como eternidade. Bento Espinosa não disse que é impossível atribuir tempo a Deus? Que no momento em que lhe atribuíssemos uma seqüencia de passado, presente e futuro estaríamos reconhecendo sua finitude o que seria impossível em se tratando de Deus? Este eterno revolver, esta constante mudança, como, observou Heráclito, acaba por ser o próprio Deus.  Deus não seria o criador, mas a própria criação, a eterna mudança, em contraposição ao pensamento de Parmênides que via no passado, no estático o próprio ser. Não se pode obscurecer o principio da dinâmica porque ela é palpável, observável, sentida. Se me lembro de Neco Preto vejo todas suas peripécias,  capaz até de ouvir sua voz é porque dentro de mim, como dentro de cada um de nós, há um deus que não queremos reconhecer, mas que existe, existe. Está presentepassadofuturo, presenpassafutu, prepasfu.
Sonhos de  menino embalado por cantigas de roda na lua bonita, por chulas e batuques  dos Santos Reis, São Pedro  e  São João. Cada vaqueiro um herói, amansador de burro bravo, carregador de caminhão, cantador de cantoria, violeiro do sertão, homem valente na enxada, foice, machado, facão. Lembranças, cicatrizes ficam n´alma e  corpo,  passado, presente, futuro.
Doce, amargo, azedo pode ser, um sorvete, ou queimar  como flama. O da Primavera, (lá no Farol da Barra),  queimou su´alma. O bom é um eterno inocente, montaria dos sabidos e perversos, escada dos gananciosos.
Um dia, lendo as confissões de Jean-Jacques Rousseau, teve a luz do que lhe acontecera mais vinte anos antes. Menino, saiu com a patroa,  comprar sorvete.  Morava com uma família tradicional e abastada de Salvador da Bahia. Ele, deputado estadual,  ia receber um deputado federal do Partido Republicano. Levava D. Aurea Maria,  uma nota de vinte cruzeiros. Desce do carro com um vasilhame  do sorvete, o menino fica,  volta ela sem ele. Estranhou não ter comprado o sorvete. Por que não comprou o sorvete, D. Áurea? Inocente pergunta.  Não, não quero mais comprar sorvete. Fria resposta.


Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias. 

terça-feira, 15 de março de 2016

O PRAZER É AGORA



















         Se arrependeu de ter emprestado seus dólares. Confirmado, brasileiro, eta, povinho enrolado. Francês não gosta de brasileiros, com razão. Zuadentos, metidos a gás com água e  mal-educados. Se  acham o  rei da cocada preta,  de repente se dá conta, não é ninguém. Ufanismo besta, apenas, atrapalha o crescimento. Horas perdidas, contemplando o próprio umbigo e a queda no primeiro round, a fome rondando passos, seguindo sombras nas catingas, brutos  sertões, esquálidas figuras nas favelas. Oras,  Horus  por seu povo, nestas horas?  Quem te disse meu nome? Falam  em frente  ao quadro de anúncios  d´Aliança Francesa. Didi, te chamam, mais conhecido que Pelé.  Não queria mais ajudar ninguém, depois de lhe terem roubado tudo, em uma festa que dera. Perfumes, roupas, sapatos  ganhos em comissão por levar turistas às lojas.  Ouvira falar dele. O cônsul particular do Brasil. Desconfiavam até. O sujeito é do DOPS Quem não vê? Está sempre discutindo política, descobrir comunistas.  Esta, uma das táticas do DOPS. Infiltração.  Lá, tudo minado, informantes até nas latrinas. Deve-se  ter cuidado. Não é bolsista, não é rico, quem o sustenta? Não é exilado político, como Valdir, Juscelino  e Arraes. Alcaguete, com certeza, dedo-duro, (naquele tempo as pessoas tinham medo de serem tachadas de Dedo-duro, hoje têm orgulho, todo mundo quer ser delator,  dá status). Diz, com orgulho, ter criado o termo racista significando os que vieram a Paris sem bolsa de estudos, foi o primeiro racista a chegar. Quem viu?   Ele realmente veio na raça, me  procurou na Cité, Casa do Brasil, diz o Quertezer.  No DOPS, Nossa ficha deve estar como pau de galinheiro. Não porra, ele é mesmo um cara retado. Veio praqui sozinho. Não esperou a “gloriosa”  intervir, se picou logo. Quem espera tempo ruim é lagêdo. Ou jegue. Nordestino é gente? Estão em todas.  Você é do Nordeste, não é? Perguntou. Não, sou do Leste. Do Leste? Onde é o Leste? A Bahia fica no Leste. Ah, então eu também sou do Leste, porque sou de Sergipe. É? O quintal da Bahia. Não, o jardim.  Queria um studio,  você me consegue?  Chegando agora,  não conheço nada, nem falo francês, não queria incomodar, sabe, né, mas a precisão... Me prometi não ajudar mais ninguém. Brasileiro só quer  levar vantagem. Quando consegue o que quer, adeus. Nem todos são iguais, desculpe,  você não deve generalizar. Esta minha experiência com brasileiros. Só  um favor, em nome da  cordialidade. Tá legal, só porque  você é sergipano, vou dar uma ajudinha, tenho alguns amigos lá. Verdade?  Diga um, talvez conheça. Rolembergue. Mas, sou eu, Rolembergue. Abraços, chorôrô,  abraços. Terra, apenas mantissa do universo. Quanto orgulho tem  o terráqueo, nada mais são que um cisco no universo intergaláctico.  



Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias. 

segunda-feira, 14 de março de 2016













Madame Faure abriu, grande, os olhos. Verdazulados. Faure, tradicional família entre os francos. Há Faure pra tudo, até presidente. Felix Faure, pois não morreu de língua?. Fazia sexo oral no Palácio do Eliseu,  com  Marguerite Steinheil.  Não se sabe que língua o matou, se a dele ou a dela. Também mais tarde, o Cardeal Jean Danielou vai morrer fazendo sexo com uma prostituta. Fica provado: Putaria e corrupção rondam o poder como fazem urubus com gado faminto no nordeste. Nem deixam o boi morrer, começam estripando o mais vulnerável das vitualhas:  o anus, a vagina, os olhos, a língua amolecida na boca do  animal agonizante, estremecendo e contorcendo-se de dor pelas bicadas. Lixeiros do mundo, aves e cães. Lida  pelo melhor pedaço, vence o mais forte.  Também o homem, quando se entrona  ou  busca o poder. Pior, insaciável. O animal quer matar sua fome, mas limpa terra. Ele quer ser jornalista, imaginem o  quanto insólito será escrever daqui a vinte anos sobre nós, adivinha-se personagem. Claude, pragmático, menos filosófico. Gostaria de ser lembrado como um amigo.  Não se pode negar que o fora, como pode ser de estrangeiros um francês. Apelidou-o carinhosamente, Didi, homenagem ao meio-campista, eleito melhor jogar da Copa de 58, o Mister Football, o Folha-Seca.. Prova de amizade. Formal o francês. sem intimidade não apelida ninguém.  Usam o nome de família. Mr. Tel, Mr. Quel. 
Claude, só tu para suportar, com humor,  minha lentidão   no enxugar os pratos,  doirar os metais, no varrer a casa. Jean Deglain, ou era Deglun? (creio mesmo que era Deglun), mais efusivo, mais espontâneo, talvez pela juventude dos dezessete anos, parecia mais amigo, mais cordial, cúmplice, até. A perdição foi a velha Corine. Tão logo anoitecia, preparou  a comida, (Os empregados  comiam, antes dos fregueses chegarem), um prato de sua provence que minhas papilas gustativas não reconheceram de imediato e devem ter enviado  informações falsas ao cérebro,  cumulando por  identificar um sabor não tanto quão agradável, como esperava a velhota. Chega Normando, pergunta pela comida, (ele comia sempre antes de cantar sua Bossa Nova), uma merda, disse. Não há maior ofensa ao francês do que dizer mal de sua comida. Ofendida, no mais íntimo de si, a velha senhora, orgulhosa de sua cozinha, exigiu minha despedida. No dia seguinte. Não soube me defender. Orgulho infantil adjungido à timidez  bloqueando a  defesa. Jogado, adolescente, nos claustro capuchinho,  castraram-lhe os desejos, os impulsos nascentes. Morto o mundo, matado. Vai, aprende agora o que não te fora possível na adolescência, saído do claustro, do claustro saído. É tarde pra a ser criança. Pagarás eternamente tua dívida. Não  parece ter sido assim com outros. A maioria, desinibida até ao exagero, talvez, escondendo seu retraímento. Aqui, angustiante ao extremo. Cá fora, no mundo, como diziam,  hercúleo peso, pros que  pegavam o jegue. Pegar o jegue,  jargão dos frades  e seminaristas, ser posto  fora. Não pegava o jegue quem  pedia pra sair. Eu tinha pegado o jegue, tão logo chegara de férias, em dois anos. Franqueza e falta de malicia.   Aluno exemplar,  piedoso, querido,  obediente à disciplina, fora, como de costume chamado à diretoria. Entrevista com o padre diretor, ouvir  queixas, dar conselhos, orientações. Entrara no seminário por ser pobre,  estudar de graça;  Que a vida de estudo e oração lhe dera vocação de verdade; Que estava sofrendo pressões da família pra sair do seminário; Que queria ser frade e pedia ajuda espiritual. O capucho cofiou a barba, pensativo, o Cristo, lívido e ensanguentado, contorcido na cruz ouviu  o silêncio na sala. Quanto vale ser honesto? Mandado embora. A que serves, honestidade? Quantos  dissabores? Vale a pena?  Assim n´A Feijoada. Não  gostara da gororoba de Madame Corine. O olho da rua.   Ser honesto não é dizer a verdade, é não dizer mentiras. Razão, com Jussiê, cabra curtido no Vale do  Cariri. Imbecil fora, merda é fácil, merde,  ela entendeu. Gororoba, ela nunca iria entender.  A velha Corine substituíra Jean que fora se engajar no exército.  Se ele ainda estivesse lá não teria sido despedido.

Corria à boca pequena, Mr. Kiefer teria sido amante de Madame Faure. Havia, por  isso, uma nesga de ciúme em Claude. Bastava ele vir jantar chez madame, quero dizer na Feijoada. Sentia-se. Madame se desmanchava em gentilezas. Ah!  O sobretudo. Ele mo deu, Mr. Kiefer. Feito por encomenda de  Maurice Chevalier. Vestira duas ou três vezes, devolvendo-o por ter-se  enjoado dele. Rico enjoa fácil. Pobre, enjoado ou não tem que aguentar o rojão. Um par-dessus azul-marinho, forro de fina seda, no Maurice, alto e elegante, caía  bem nos seus 76 anos. Eu, um caniço, miúdo, sumia dentro dele. O peso curvava-me o tronco. Quem sabe a lombalgia de agora,  não seja sequela da sobreveste?  Gostava dela, orgulho de ter pertencido a Chevalier. Mr. Kiefer orgulhava-se de seu corte. Não poucos elogiavam sua linha. Bem talhado, iria apenas  adaptá-lo a meu corpo.  Lástima, nunca o fizera. Sumido nesta veste, correr Paris, buscar trabalho, comida. Hora maldita, esta briga com madame. Errei? Orgulho. Perdão não peço. Comida, orgulho dos franceses. Eu disse merda pra comida, fui despedido. Orgulho e timidez a vós devo o fracasso. O erro existe pra nos ensinar. Quem não o reconhece, nada aprende, nem  vai a lugar nenhum.


Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

domingo, 6 de março de 2016








Aloisio Leal,  todo solícito a seus pedidos. Atendia-o no cartório, (Já se disse que funcionava em sua própria residência), a qualquer hora, mesmo à noite, mostrava-lhes os processos, e até os de outros advogados, gabando-se de ter corrigido um ou outro defeito de redação ou de direito, e, até de ter ditado a petição, (estes escrivães por aí, não passam de pobres culcornins, dizia), atribuindo-se  a autoria e muitas vezes por eles assinava, quando, por um motivo ou outro, não podiam assinar. Davam-lhe  autorização. Imaginem  o que não dizia aos demais  advogados a meu respeito a fim de ganhar-lhes a simpatia? Arma de dominação. Disseminar a maledicência. Se queres reinar  recorre à astúcia e à hipocrisia. Honestidade e franqueza são qualidades dos mais fracos, são vícios que te levarão à ruína, diz mais de um pensador, por isso que na política a ética deve ser enxotada.  Fez-lhe, um dia  um convite. Ensinar no colégio, meu colégio,  dizia. Menino inteligente, você deve  contribuir conosco na educação desta terra. Não é um dinheirão, mas  ajuda nas despesas, na gasolina. Que não era tão inteligente assim e também se achava despreparado, não podia ensinar. Nada. Talvez fosse muito mais preparado do que muitos do colégio, podia  ensinar qualquer disciplina. Não era bem assim. Estudioso, sim, não pronto  pra ensinar.  Que decepcionado se mostrou o parvu.  Não estava acostumado a ouvir um não. Trazia todos debaixo dos pés. Que ia pensar, não poderia dar uma resposta imediata, tinha muitos afazeres ainda.
Na verdade  fazia outros cursos na universidade e não queria perder seu tempo em salas de aula e correções de provas. Percebeu que ensinar seria uma forma de vencer a timidez e se integrar à sociedade local, por  isto deixara a Europa, Salvador,  mas perseverou na negativa e continuou arredio aos encontros e festas dos jovens, a despeito de muito solicitado. Um pouco de avareza também, não queria gastar, nem era de beber e, quem não bebe, fica isolado do mundo. Elegeu-se a bebida como combustível da alegria, assim queria Dionisios, e o homem, embora  tivesse perdido a  noção de quem é realmente este Deus, rende-lhe homenagem e o venera a todo instante, talvez mais do que o faz com o Nazareno. Este, aliás, às portas do martírio se voltou para Dionisios, escolhendo-o, na ceia,  como o Deus protetor de sua memória, quando consagra o vinho como o seu sangue. Transforma  o padre o vinho em sangue, eleva o cálice,  rememorando o Cristo? Primeiro rende homenagens a Dionisios, a renovação constante do ser humano, da vida. Não nasceu Dionisios, como Jesus, no dia 25 de dezembro, filho de um Deus com virgem mortal Sémele? Não fez Dionisios, como Jesus, milagres? Não transformou, como Cristo  água em vinho? Não foi como o Nazareno, peregrino? Não foi chamado Rei dos reis? Não ressuscitou ao terceiro dia após a morte? Na comunhão comemos os corpo de Cristo, como as bacantes comeram o corpo de Dionisios.  lo! lo! Bromios! lo! lo! Dendrites! lo lo Eleutherios! lo lo Enorches! lo lo Bacchus,  discípulo de Cibele, Também, Jesus, o que chamam de Cristo, o ungido,  era filho de Deus com a mortal Maria. Isa Ibn Maryam. Com razão o bispo Ário? Cristo apenas, filho de Deus, não o próprio Deus? Divindade de Cristo, um atentado ao monoteísmo? Ou Cristo Jesus não teria existido enquanto corpo humano, como queriam os docetas? Ou como quer o patriarca Nestório? Cristo Jesus, duas naturezas: a divina e a humana, não podendo ser Maria a mãe de Deus? Pára, cabeça tonta, que tu não decifrarás os mistérios da vida. Prende-te tão só a viver e já será o bastante. Quem perde tempo nestas indagações está condenado a ser tido como louco e morrer na penúria. Teus pensamentos não te dão fortuna, como a ações dos negociadores.  Se queres ser realmente feliz não te dês às preocupações de Bento Espinosa, condenado pela Sinagoga de Amesterdão em 1656, a esfregar na zunideira o oiro dos opulentos per ganhar o pão de cada dia e ver seus escritos  trazer-lhe aborrecimentos e  excomunhão: “Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, excomungamos, expulsamos, execramos e maldizemos Bento de Espinosa… Maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita e maldito seja quando se levanta; maldito seja quando sai, maldito seja quando regressa… Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém lhe preste favor algum, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo tecto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia algo escrito ou transcrito por ele.”  





Continuação no Livro Noite em Paris, breve nas livrarias.






Didi  entrou na estação Odeon. Pegar  o metrô, ir a La Nation. Neste tempo, ele ostentava uma imponente barba que lhe dava um aspecto sisudo e senhorial. No vagão,  uma turma de indianos, cinco ou seis, falavam ao mesmo tempo, parando repentinamente a conversa. Tempos de guerra entre Paquistão e India, 1965.  Paquistaneses e indianos se odiavam onde quer que se encontrassem.                      
- Paskistani, disse um daquele grupo.
- Paskistani? Interrogou outro.
 De onde estava só se chega a La Nation, pegando a correspondência em Chatelet,  com  Porte de Vincennes.  Não teve coragem de esperar, desceu em La Cité. Esperar outro trem, porque os indianos o olhavam ameaçadoramente. Deus meu, não temos uma característica que nos distinga. Parecemos com todo o mundo, menos conosco.  Marroquino, argelino, ou tunisino aqui; Indiano, paquistanês em Londres, Indonésio na Holanda; Turco, na Alemanha. Ouve lá, pá, que mistura danada fizestes no Brasil com  índios e africanos? Pode ser um mal, pode ser um bem. Sem corpo, nem cara, confundido e aturdido, colonizado, vitima sempre. Tenho que gritar. Brasileiro, sou.
Um sou, pediam clochards, em bando. Contra esmolas, não são esmoleres. Não, como no Brasil. Muitos pedem por beber, aqui também, matar o frio. Guarda-chuva de pobre é cachaça, diziam Raul Sampaio, Francisco Anisio e Rubens Silva todos juntos, na marchinha. Medo, tenho  medo, clochards desbocados, sempre com um faire chier na boca,  fedendo pelos poros, por todos os buracos. Zé Canário fedia menos, com sua tremedeira, guturais gritos dos farrapos profundos, saídos e sacudidos pelos pés-de-vento  nas tardes ensolaradas de Capela. Redemunho, o rastro do Saci-pererê. Nunca tive coragem de prender o Saci na garrafa, tinha medo dele furar a urupemba e fugir, depois voltar pra me levar.

Ir a La Nation fisgar um jantar de Guy, le  Maupassant, o bel ami, o malpassé mal-passado, como costumava chamá-lo, de acordo com a situação. Economizar  um tíquete do restau-U,  ainda tomar um banho, ouvir música, ler, discutir. Um pouco de tudo, homenagem ao dolce far niente. Poderia  servir a alguma coisa agora ou no futuro. Nada fazer é fazer tudo. Trabalho é saúde? mas aliena a mente, tornando-a bruta e preguiçosa.  Ter somente para si os momentos da laboriosa preguiça que nos leve a mares nunca dantes navegados, nos conduz ao inferno,  purgatório e  paraíso, sem o auxilio de um Virgilio, sem o barco de Caronte. Momentos de alegria, paz, serenidade, caífe. E isto não se encontra no burburinho das multidões, no azáfama diário. Um cantinho, (Am6) um violão, este amor, (G#º (b13)  uma canção (Gm7) muita calma (Fm7) pra pensar, (Bb7/9) e ter tempo (Em7) pra sonhar, (A7/13) (Am6) dizia Jobim, é  tudo o que precisamos para se obrar maravilhas.


Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.