domingo, 6 de março de 2016








Aloisio Leal,  todo solícito a seus pedidos. Atendia-o no cartório, (Já se disse que funcionava em sua própria residência), a qualquer hora, mesmo à noite, mostrava-lhes os processos, e até os de outros advogados, gabando-se de ter corrigido um ou outro defeito de redação ou de direito, e, até de ter ditado a petição, (estes escrivães por aí, não passam de pobres culcornins, dizia), atribuindo-se  a autoria e muitas vezes por eles assinava, quando, por um motivo ou outro, não podiam assinar. Davam-lhe  autorização. Imaginem  o que não dizia aos demais  advogados a meu respeito a fim de ganhar-lhes a simpatia? Arma de dominação. Disseminar a maledicência. Se queres reinar  recorre à astúcia e à hipocrisia. Honestidade e franqueza são qualidades dos mais fracos, são vícios que te levarão à ruína, diz mais de um pensador, por isso que na política a ética deve ser enxotada.  Fez-lhe, um dia  um convite. Ensinar no colégio, meu colégio,  dizia. Menino inteligente, você deve  contribuir conosco na educação desta terra. Não é um dinheirão, mas  ajuda nas despesas, na gasolina. Que não era tão inteligente assim e também se achava despreparado, não podia ensinar. Nada. Talvez fosse muito mais preparado do que muitos do colégio, podia  ensinar qualquer disciplina. Não era bem assim. Estudioso, sim, não pronto  pra ensinar.  Que decepcionado se mostrou o parvu.  Não estava acostumado a ouvir um não. Trazia todos debaixo dos pés. Que ia pensar, não poderia dar uma resposta imediata, tinha muitos afazeres ainda.
Na verdade  fazia outros cursos na universidade e não queria perder seu tempo em salas de aula e correções de provas. Percebeu que ensinar seria uma forma de vencer a timidez e se integrar à sociedade local, por  isto deixara a Europa, Salvador,  mas perseverou na negativa e continuou arredio aos encontros e festas dos jovens, a despeito de muito solicitado. Um pouco de avareza também, não queria gastar, nem era de beber e, quem não bebe, fica isolado do mundo. Elegeu-se a bebida como combustível da alegria, assim queria Dionisios, e o homem, embora  tivesse perdido a  noção de quem é realmente este Deus, rende-lhe homenagem e o venera a todo instante, talvez mais do que o faz com o Nazareno. Este, aliás, às portas do martírio se voltou para Dionisios, escolhendo-o, na ceia,  como o Deus protetor de sua memória, quando consagra o vinho como o seu sangue. Transforma  o padre o vinho em sangue, eleva o cálice,  rememorando o Cristo? Primeiro rende homenagens a Dionisios, a renovação constante do ser humano, da vida. Não nasceu Dionisios, como Jesus, no dia 25 de dezembro, filho de um Deus com virgem mortal Sémele? Não fez Dionisios, como Jesus, milagres? Não transformou, como Cristo  água em vinho? Não foi como o Nazareno, peregrino? Não foi chamado Rei dos reis? Não ressuscitou ao terceiro dia após a morte? Na comunhão comemos os corpo de Cristo, como as bacantes comeram o corpo de Dionisios.  lo! lo! Bromios! lo! lo! Dendrites! lo lo Eleutherios! lo lo Enorches! lo lo Bacchus,  discípulo de Cibele, Também, Jesus, o que chamam de Cristo, o ungido,  era filho de Deus com a mortal Maria. Isa Ibn Maryam. Com razão o bispo Ário? Cristo apenas, filho de Deus, não o próprio Deus? Divindade de Cristo, um atentado ao monoteísmo? Ou Cristo Jesus não teria existido enquanto corpo humano, como queriam os docetas? Ou como quer o patriarca Nestório? Cristo Jesus, duas naturezas: a divina e a humana, não podendo ser Maria a mãe de Deus? Pára, cabeça tonta, que tu não decifrarás os mistérios da vida. Prende-te tão só a viver e já será o bastante. Quem perde tempo nestas indagações está condenado a ser tido como louco e morrer na penúria. Teus pensamentos não te dão fortuna, como a ações dos negociadores.  Se queres ser realmente feliz não te dês às preocupações de Bento Espinosa, condenado pela Sinagoga de Amesterdão em 1656, a esfregar na zunideira o oiro dos opulentos per ganhar o pão de cada dia e ver seus escritos  trazer-lhe aborrecimentos e  excomunhão: “Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, excomungamos, expulsamos, execramos e maldizemos Bento de Espinosa… Maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita e maldito seja quando se levanta; maldito seja quando sai, maldito seja quando regressa… Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém lhe preste favor algum, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo tecto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia algo escrito ou transcrito por ele.”  





Continuação no Livro Noite em Paris, breve nas livrarias.

Nenhum comentário:

Postar um comentário