quinta-feira, 24 de março de 2016

MAMAN BERNADETTE

















Levou muito tempo discutindo sobre seu nome. Conta-lhe a história  e origem dos nomes. Chamava-se Bernadette, passara  a ser conhecida como maman Bernadette, protetora de estudantes estrangeiros. Conseguira boas colocações aos que ali passaram. Davi Verner, havia-lhe indicado esta mecenas. Havia passado por suas mãos, mas não tivera tempo de burilar o ator que havia dentro dele, nem arranjar-lhe um contato com o grand monde.
Ficou deveras impressionado com a velha senhora. Um turbilhão. Quase nada entendeu,  mas assim mesmo conversaram. Queria fazer  jornalismo, sobreviver com ele. Deixar  de lado o direito iniciado na Bahia. Talvez, uma porta pro  cinema, sua verdadeira paixão. Elle bavardait.  Prometeu apresentá-lo a ilustres personagens, dando-lhe oportunidade de fazer artigos  pra publicar no Brasil. E de logo ficou acertado que deveria levá-la a um jantar, à la campagne. Um jantar e a  vernissage do pintor amigo, anfitrião. Je vous donne rendez-vous pour jeudi, trois heures. Disse e estendeu-lhe a mão. Bela maneira de  mandá-lo embora.
Quinta-feira. Sim. Quinta-feira, maman Bernadette marcou rendez-vous. Meu Deus,  o que poderia acontecer? Uma exposição de pintura, um jantar em casa de um amigo, à la campagne.  Seu conhecimento de francês não chegava a entender o real sentido da palavra rendez-vous. No Brasil rendez-vous é lugar de orgia e libertinagem. Brega. O homem sempre teve o hábito de se apropriar de um termo de outra língua ou mesmo da mesma língua e modificar inteiramente o seu sentido. Os linguistas chamam isto de mudança semântica. Rendez-Vous virou nas bocas tupiniquins, simplesmente  brega, lugar de encontros pouco recomendáveis. Um dia, com Claudio, no Quatier Latin, perto da Coupole, entram cinco brasileiros,  chamava-se embaixadas, viagens de estudantes em fim de curso. Com Claudio quase, se falavam em francês, por isto o grupo não percebeu serem brasileiros. Perguntavam-se. E agora, como é garçon em francês? Cláudio chama o garçon. Aturdidos, vejam, garçon é o mesmo que em português. Isto não é colonialismo? Perde-se  até a noção da língua.  Mas voltemos à  velha, ainda que esta história tenha acontecido realmente, não poderá servir de pretexto a digressões político-filosóficas, em detrimento da verdadeira história de Maman Bernadette ou de seus coadjuvantes, porque parece só existir protagonista, desde que os gregos o inventaram, nos livros, nos romances, nas novelas, na real, na vida de cada dia,  meros coadjuvantes somos, quão  diminutos  diante da portentosa e brava natureza. Imaginou  lindas francesas em orgia no passeio à la campagne, Jeudi trois heures, não obstante se mostrasse aquela velha senhora de uma religiosidade a toda prova, com terço de ouro nas mãos que ela parecia dedilhar mecanicamente, balbuciando aqui e acolá palavras da Ave Maria, do credo, da jaculatória, do Pai Nosso  denunciando sua devoção e fidelidade à recomendação de Maria quando, dizem,  entregou-o a São Domingos como arma poderosa contra as tentações do demônio e conversão dos hereges. Vestidinho composto, negro como as roupas das portuguesas, mas de corte elegante como são as roupas dos franceses, mestres do vestuário e da perfumaria. Semiparaplégica, andava  com dificuldade com o auxilio de muletas. Um rostinho  quadriredondo, como costumam ter as francesas. Tipo mignon,  que se pode traduzir como  pequena e  bela. Uma mulher feia não é mignon, é petitte. Precisa, o francês,  talvez mais  que o português. O partitivo,  por exemplo, evidências da precisão. Não se bebe água, bebe-se da água, não toda água do mundo.  Boire de l´eau. Talvez, por isto o positivismo francês. Não podia imaginar aquele rosto encostado ao meu,  aqueles lábios finos, quase uma lombriga, tocando os meus. Nas manhãs calorentas ou chuvosas, mães acordavam os filhos, caneca de  óleo de rícino na mãos. Segurar uma colher, não vomitar. Expulsar os vermes. A saia saía botando vermes de todos os tamanhos. As vezes iam saindo dois, três, e a gente era obrigado a puxá-las como macarrão puxado pelo filete do escorredor. Quando saído do sertão, viu o macarrão pela primeira vez, lembrou-se dos vermes saídos do fiofó.  Estão rindo de quê? Nojo? Que culpa tenho de que não tenham vivido a vida? Não tenham nada par  contar?  Só mentiras. Conquistas nunca realizadas? Posso voltar a Maman Bernadette?  Seu hálito exalava um cheiro apodrecido, mas  simpática no seu sorriso. Carecia dela. Ajudar nos meus sonhos. Errado, usar as pessoas. Prostituição, corrupção.  Muitos pensam que só se corrompe por dinheiro.  Poder-se-á ser traído pelos próprios pensamentos. Alguém também estará tentando usar você. Vence o melhor, como na natureza. O mais preparado. Eu, o mais fraco.  A educação  franciscano-jesuítica impedia avançar sobre as barreiras da moral. Neanmoins, deixemos que o barco da vida nos conduza. Sem atropelo, sem premeditação. Seja o que Deus quiser. Mundacho torto, como dizia o bom frei Teodoro nos corredores do Convento da Piedade da Bahia. O mundo é mesmo torto, mas ainda assim, vale. Anos depois ouvirá alguém dizer: Oh mundão, não acaba não, mundão.
Quinta-feira, do português, como quis Martinho de Braga. Dia de Júpiter. Jeudi. La mama o recebe esplendorosa em seu tailleur noir e manteau Cardin. Não era uma paraplegia que a atormentasse, mas, muito mais uma espondilite que a mantinha curvada sobre o próprio corpo, com certa elegância, entretanto. As muletas eram-lhe útil, certo que não se movia sem elas. Pena que morasse no quinto andar. Posso  dizer-te que desceram a escada? Ou pegaram  o elevador? Ela, pelo elevador, sem dúvida. Engenhoca em metais, barulhenta, cujas portas gradeadas se abriam encolhendo como sanfona, usado só na subida, descer pela escada, medida de economia. Que importam estes detalhes? Num realista isto é importante. Tudo é importante. Mas se se disser que tudo não passa de um sonho? Como se lembrar inteiramente de um sonho?  Perdem-se os contornos, como se fora num lusco-fusco a caminho da noite.  Como se se tivesse nos olhos uma espessa membrana, que mau deixa entrever a massa disforme das coisas. Tempo é a noite da memória. Realidade vira sonho perdido na escuridão, mesmo que se tente puxá-la pra perto. Se vêm, chega em pedaços disformes, sem cronologia, truncados um nos outros, como num quadro abstrato, religar impossível.
Me vi, se viram no táxi. Ela, a mãezinha bavardait como um papagaio, como a nega do leite, diriam avoengos.  Vovô. Batia colher de pau em minha cabeça, que  eu falasse sem gaguejar. Falar não me é mais constrangedor, enjoa, mais ainda  quando  se entende o que se diz e o que se não diz.  Toda palavra tem um sentido, o que tu vês e o que não vês. La mère falava. Com a cabeça, ora com os olhos  acenava-lhe, apenas. Por que mentir? Não estava entendendo muita coisa. Falam depressa os franceses, pouco se lhes importam que estejamos ou não entendendo. Nós nos esforçamos pra sermos  entendidos, até tentamos falar com  o sotaque estrangeiro. Parecer  chique. Orgulhamo-nos de falar inglês, mas não temos vergonha de assassinar o português. Mentalidade de colonizado, de escravo. Não o francês. Vive cem anos em um país e continua falando com sotaque, mesmo que pareça  amar este país mais do o seu próprio, como Pierre Verger, o babalaô  Fatumbi  que renasceu na Bahia pela graça de Ifá.
Cedo chegaram. O taxi os deixou à porta do castelo. Era um destes castelos entre tantos existentes na França, de construção medieval. Acostumados à taipa e telha vã dos musseques de Salvador da Bahia seus olhos cresceram, como os de um gato na escuridão. Recebidos por Monsieur Grillon, um senhor   circunspecto, mas simpático que os levou a uma sala ao rés-do-chão na ala esquerda do prédio, onde estavam expostos seus quadros em pintura abstrata.  Nada entendia  de pintura,  muito menos abstrata. Poderia se enfeitiçar pelas cores, porque em verdade a cor é tudo na vida. Se tudo fosse visto em preto e branco a vida seria muito monótona. As cores tornam a vida doce e agradável. Quando bate a seca no sertão, esturricado, ocre e chato o chão. Também o gelo virado lama, o branco é cinza, é preto, desolação. Flocos de neve caindo à  noitinha. Paris, mais que uma festa. Como tanajuras caindo nas tardes do sertão. Não só ele, abestalhados, todos ficam com a neve. Crianças e adultos brincam,  batalhas no gelo. Um punhado de neve na cara. Sorrisos largos. No Ceará não tem disto não. No degelo, o coração gela. Um café, um chá, um conhaque, suportar o frio. Foi  no degelo,  vindos de Maman Bernadette, ele e Jussiê,   ofendidos porque, sem dinheiro, entraram num bar,  esquentar o frio.  Dehors étranger de la merde, berrou o francês com seu hálito azedo de vinho barato. Uma gorda senhora gloterava como cegonha, mostrando, despudoradamente, os dentes apodrecidos pelas cebolas malcozidas de sua sopa.





Continua no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

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