sexta-feira, 25 de março de 2016

CARNAVAL IEMANJÁ



















Hoje é carnaval na Bahia, mas também, e acima de tudo, Dia de Iemanjá. Abiãs com seus contra-eguns, ogãs, babalaôs, apetebis,  babalorixás, dotês e donês, Tatás de Inquice, mametus de inquice, o alapini do Brasil, assobás, yalorixás, iyakekerês, Iyalaxês, agibonãs, Iyabassês, ajoyês ou ekedis, babakekerês, akepalôs, ogans, yaôs-eleguns com seus idês, ebômins, kakanfós, obás, obaxoruns,  abás, balés, aquirijebós, amobirins e até alibãs, todos devotos, e com seus brajás e aladoris na cabeça, diante do peji,  entoam a saudação à Rainha do Mar, Odô Iyá, filha de Olokum e esposa de Olofin-Odudua: Omi ô odo iyá eruiáque, com seu abebê, certamente abençoará seus filhos dando-lhes muito axé. Tocam o rum, o rumlê e o rumpi. Inicia-se o padê. Sacodem-se os agés e os caxixis. Percute-se  os agogôs. Os alabês entoam os cantos. Os adés se sacodem. Começa o xirê. Agbôs ou amassis são feitos. Serve-se o ungê. Acaçás, acarajés, abarás, flores, perfumes, espelhos, enfeites diversos, anéis, colares, fitas, brincos, pentes, bijuterias, jóias, relógios, maquiagens e bonecas, velas, bebidas e comidas, fava  com camarão, cebola e azeite doce e até champanhe são oferecidos, a Dandalunda, Janaína, Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, Maria, Dona Iemanjá, tudo feito numa ânsia maluca de afastar o ajogun e alcançar o axé. Nas ruas, o samba de roda, o  ijexá, a capoeira, afoxés, e muita gente vestida com roupas dos rituais do candomblé. Esta é a festa do Rio Vermelho  da Bahia de São Salvador do Brasil. Quem mora no Ponto da Mangueira é um pulo, nem vale a pena uma condução. Todos iam a pé mesmo. Trabalhara até quatro horas carregando pedra. Fazer um muro de contenção de água, pois, quando chovia a água entrava pela frente e saía pelos fundos. Sua casa ficava bem no pé da ladeira do Sobradinho.  Suas irmãs já tinham ido encontrar com as colegas do Colégio Manoel Devoto. Quantas delas  não cobiçara com o olhar distante e erradio. Que não o vissem apalemardo. Pode lembrar o nome de algumas. Neila, Margarida, Iraildes, Vera. Tomado banho, pôs sua melhor roupa, passou brilhantina no cabelo maracanã, jogou  um pouco de colônia 1010 sobre si e saiu augurando encontrar uma garota e, se tivesse oportunidade, a ela se declarar, como se dizia na época. Andava por cima da linha do bonde. Não sujar os sapatos de lama. Já começara escurecer quando chegou ao Largo de Santana. O Trio Elétrico Tapajós tocava. As meninas faziam cordões e brincavam ora em roda, ora serpenteando. Visão que nunca mais saiu de sua mente e que teve repetida quando viu no carnaval de Colônia um mar de loiras valquírias de olhos azuis que nem o céu da Bahia. Estava em voga um corte de cabelo bem curto que passou a ser conhecido como cabelo de coco. As meninas ficavam com  um aspecto de anjos surucos, barrrocos. Lembra-se bem de uma que tinha os olhos tão verdes que pareciam cortar a alma? Como os olhos de aurinha?  A mágica do flerte que era tocar nos longos cabelos passou a ser passar a mão pela cabeça como a consolar uma criança. Se ela sorrisse, a senha da paquera. Bem poucos ousavam tocar as danaídes porque, a despeito de estarem exatamente à procura de um macho, se uma era tocada,  mas não se agradasse  do tipo, chamava a policia ou seus irmãos e parentes que  estavam por ali e a confusão estava formada. Quantos marmanjos não foram presos por um simples toque no cabelo de uma donzela. Quantas brigas  não testemunhara!  Muitas vezes tinha inicio uma briga onde todos brigavam contra todos e não se sabia de onde surgira.  A polícia chegava e prendia, freqüentemente, quem nada tinha com a briga e estava ali apenas tentando separar os brigões. As festas de largo, assim conhecidas, eram os locais onde se fazia a paquera e as brigas. Muitos casamentos tiveram seu inicio nelas. Boa Viagem, Lapinha, Bonfim, Ribeira, Rio Vermelho, Conceição da Praia faziam  a alegria do baiano. Havia um congraçamento de classes, todos compareciam e andavam ombro a ombro pelas ruas, embora alguns privilegiados se beneficiassem do conforto das casas de parentes ou amigos que residiam no local. Só ele estava só naquela multidão colorida, embevecido com os requebros das mulatas, a doçura de olhos cor de mel, o feitiço do verde apaixonado, o mistério do azul da cor do mar, e à profundeza do negro olhar daquelas moiçolas. Só, porque não estava acostumado à algazarra de uma juventude criada com a liberdade das ruas, sem as amarras adquiridas no claustro e no internato, pouco afeitos às meditações e introspecção. Quem tem o privilegio de estudar num internato, sofre as consequências do isolamento que faz com que o jovem tenha medo da multidão e principalmente,  receio de ser rejeitado, especialmente pelo feminino.  Não ter sido introduzido no  mundo do fumo e do álcool,   de certa forma,  muleta e combustível juvenis, foi uma terrível experiência e  por isto, o contato com jovens de sua geração, foi sempre traumático e desolador. Censuravam-lhe a maneira de falar, de se vestir,  de não dizer palavrões, de não usar as gírias da moda e até sorriam de suas conversas. Fala escolhendo palavras, parece  pessoa de outro mundo. Quando no Duque de Caxias, a professora de inglês organizara um passeio à praia de Inema, local já na época privilegiado, (Área residencial de oficiais da Marinha), hoje, famosa no mundo, porque refúgio das lidas de presidentes - Lula e Dilma - descanso  da faina política, no carnaval,  páscoa...  Tempos de rudeza. A tradição, o tabu se debatendo com  as novidades da industria cultural da Europa e Norteamérica. Preso  ao passado, sem roupas de praia, sem sandálias, um alienígena.  As moças, mais afoitas, entraram n´água, os rapazes na areia. A professora ficara na areia com algumas moças. Cadê as mulheres? Perguntou. Todos coraram e ele, atormentado pelo resto do dia.  Todos se entreolharam, um silencio ouvido pelas ondas perpassou. Percebendo sua gafe quis consertar, mas a emenda saiu pior do que o soneto. Mas, não é mulher mesmo? Elas são homens por acaso? Novo silêncio, agora acompanhado de uma certa reprovação no olhar de todos. É que naquela época, dizer mulher era o mesmo que chamar puta. Dizia-se, pomposamente, minha esposa. As solteiras, simplesmente moça, ofensa, chamar moça de mulher. Ofensa  sem perdão.  Traumático, sempre, o embate de gerações. O novo e o passado. Não se admite  mudanças. Sempre perigosa,  quem a quer é louco, ou degenerado. Nas cavernas, quem sabe?  Ser jovem é não ter juízo, sem responsabilidade. Quem mais se parece com os velhos,  é tido como adulto, com juízo,  exemplo a ser  seguido. Por que você não faz como fulano de tal? Ali, sim que é um rapaz ajuizado. Um homem que todo pai queria pra sua filha. Ah se  não fossem os doidos, os sem juízos. Que seria deste mundo? Estaríamos ainda na idade da pedra lascada. Topada é que leva  homem pra frente, diz o ditado.
Mas, como felizmente, o homem não é feito só de barro e sopro divino, como querem os criacionistas,  é antes de tudo o criador do mundo, ou seu próprio criador, na medida em que ele faz sua historia, faz a historia do mundo, ele inventa, ele cria, ele surpreende. Quem duvida de que um dia o homem lascou a pedra e a tomou como instrumento e arma? Que depois a poliu com os mesmos fins? Quem vive o que se vive agora, com as facilidades que a tecnologia lhe garante não pode ter dúvida de que tudo isto foi criado pela mente humana. Se assim não fora, como explicar a diversidade de vida e visões que o homem tem demonstrado ao longo de séculos? Por isto que não se deve lastimar a existência dos arredios e foras do contexto. Serventia, eles têm, é só buscar e ver. Equilíbrio do mundo, por exemplo. Não? Se todos fossem à guerra com igual ímpeto, quantos sobrariam pra contar a história? O mundo é o homem e cada homem tem seu mundo.

Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

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