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quarta-feira, 9 de agosto de 2023

NEM FREUD EXPLICA






             Eu não te disse, Zé? O homefroide  está cada vez mais ficando desmitificado. Pés de barro, um dia se desfaz. E a queda é feia e seus seguidores serão chamados de curandeiros, feiticeiros estelionatários, anunciadores de curas milagrosas. Eu lhe disse isto. Você que ficou gostando? Um dia, Froide, esta máscara cairá. Ele ria, mas ficava muito puto, o filho do faraó. E tu tens fazenda? Não? E por quê estás preocupada com o MST? Não gosto dos Sem-Terras, roubam até meus califons pendurados no arame, disse-me, uma fazendeira É, assim, o bófia, imortal, herói, como se acreditava, imponente, que se não lhe atravessava bala alguma, entrou em terra abandonada. Ela foi dormir na cama tatuada. "Armas de fogo, meu corpo, não alcançarão" É froide, Jorge! Mar minin, pagar pra ver muler dos outos nua, mexendo no cabelo, é mesmo de lascar, né Zé Mancambira? E né, não. De tudo hay, neste mundão, hei tempão duro! Não, não tem pão, nem duro, nem mole, não é Baio? É a vida, né, Herácles? a fila anda. Um monstro, né, este Maradona. Um bailarino. Digo sempre, do ballet para o futebol só falta o cuspe. Hahaha, E o Pelé, Datuna? Tô falan de jogador, Mancambira, não de fantoche. Duzentos dólares uma sessão no meu divã, sussurrou o feiticeiro vienense no ouvido da grã-fina, ella quase cai de gozo nos braços do sedutor. Que tem a ver a Sagrada Negra das Crônicas da Aranha-Pavio com Parati, Zé Mancambira? Mermo qui mandá tanques pra Quieve. O merminho. Eu vi relampo, êh, eu vi relampiá. Não se pode puxar muitcho a corda, ela só se quebra do lado mais fraco, né Mancambira? E todo mundo sabe o lado mais fraco, né, Didi? Temperança, é o nome, Zé. Há gente que mede largo e corta estreito, corra destes. Onde, tu, Claude? Saudades. Tu não sabes, isto. Vida parrandera. Me mata. Querencia no tiene horario. Não admitia críticas, só elogios, e, muito menos ideias brilhantes. Neste caso ele as repulsava veementemente e depois as tomava e as apresentava como suas, assim era o filho do Faraó. Seus discipulos irmãos, para não contraria-lo aceitavam tudo menos aqueles que não faziam parte da rimandade, que eram obrigados a se afastar. Elaltamagraecheirosa, preparava as coisas para o juri, ainda assim, de repente,  me via nu. Tentava me esconder dos aviões, passando em vôos razantes, atirando em tudo e todos. Um desceu na rodovia e imediatamente desceram outros, atirando de fuzis e metralhadoras. Eu me escondi num buraco e via balas em fogo passar   por cima. Ucrânia não é, povo cor de terra. Estiveram a menos de três metros de mim. Prendi a respiração, medo tossir, de espirrar e me denunciar. Veio uma vontade de mijar, de cagar. Não sabia que o medo faz isto. Mas bem que sabia. Não foi isto que aconteceu com Vade Piroca? Quando a véia Rosalina pegou com um manguá e começou a bater ele se mijou e se cagou todo. Vai roubar goiaba da veia, vai! Êta, veia, o cão por dentro do mato!


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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

               












                                   
                                             
Era vinte de dezembro de mil novecentos e setenta e dois. Me vi  no Campo Grande, no meio de uma multidão. Sem razão aparente as pessoas começam a correr para o Corredor da Vitória. O que aconteceu, ninguém soube.
- Corre, corre, é a policia, gritavam.
Eu não tinha razões para correr, não fora o aparecimento repentino  de tanques, tratores e outros carros militares. Vinham destruindo tudo. Mas, quando de fato comecei a correr já se tinham  cercado tudo com arame farpado. Enormes redes de arame. Uma armadilha. Soldados de todas as fardas cercavam o resto. Eu vencia as cercas de arame, mas outras surgiam à minha frente, indefinidamente. Corri desorientado, muito e muito, como se estivesse no escuro. Muitos, muitos dias, e ao abrir os olhos estava no Bonfim, o domingo de Bonfim. Barracas tocavam músicas, no samba de roda, mulatas se sacudiam, na roda de capoeira Caiçara rodopiava o rabo de arraia para impedir a  cabeçada de Bom Cabelo. Como mágica, cercas de arame, soldados, bombas estourando, gaz chiando, gente correndo, mulheres gemendo, uma criança cai no tacho fervente de acaragé. Uma batalha como se fosse a final. Por que fazem guerra, os homens?
Quantos minutos, quantas horas as escaramuças? Coalhada ficou a Baixa do Bonfim. Corpos, queimados, mutilados, tecidos, roupas, pedaços de madeira,  fogões, geladeiras, garrafas, espetos, churraqueiras, pneus fumegando, ferros de engomar, rádios e radiolas, camas, mesas, cadeiras, arlequins, pierrôs e colombina saindo com o sorriso da dor.
Pouco a pouco, como caracóis saídos da concha, vinham chegando. E como formigas avarentas pegavam do butim o que podiam e já entre si tentavam vender o que traziam às costas, na cabeça, nas mãos. Acolá tentam arrancar o dente de ouro de um que jaz semi-morto. Outro foi tirar o relógio de um defunto que acordou e deu um tapona no lalau. Os soldados se misturaram à turba para saquear o que ainda tinha alguma serventia. Como o primeiro de abril de 1964. Corri da faculdade cercada de tanques de guerra, mas soldados me pararam e tomaram os cruzeiros guardados para pegar ônibus da liberdade que partia do Campo Grande. Bela maneira de combater a corrupção. Hoje, os togados tomaram a si o combate à corrupção, mas  se enchem de sinecuras com auxílio isto, auxilio aquilo, nepotismo e todas a benesses que o poder proporciona.