quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
















Desço rio abaixo, serpenteando docemente por meandros como folhas caídas n´água. Os acordes de uma melodia, flauta e clarinetas revolteiam, enquanto as cordas pingoteiam marcando o compasso até a chegada dos violoncelos. De onde vêm? Ouço-os  dentro mim, que se repetem e se avolumam como ondas marinhas. Nuvens embaladas pelo vento dançam sobre mim ao ritmo da melodia. Não há como guardar aqueles acordes. Meu corpo em rodopio também dança. Braços abertos como a reger, sem batuta,  uma orquestra invisível. Repito, cada frase, repito. Sei que não posso me esquecer, escrever me leva à eternidade. Nenhum sentimento de medo. Sob meu corpo deslizam peixes e outros seres d´água. Por alguns momentos aqueles sons se misturam aos acordes da Chacona de Bach transposta para violão tocada por um virtuose qualquer, Segóvia, talvez. Tento encontrar, no violão, as cifras adequadas. Um lá menor, (am), passa ao dó maior, (c), em seguida o ré menor (dm), volta ao lá menor (am), retorna ao ré (dm) e depois ao lá menor (am). Repito, repito ainda, não esquecer. No pentagrama creio que ficará assim: Clave de sol na segunda linha, um bequadro na quinta, compasso 6/8, na terceira linha, um si colcheia, trava, mi semínima, fá colcheia, sol semínima, lá colcheia, barra. Como é difícil escrever música. Ouço a melodia, ao longo do rio:


Quem te disse que eu escrevi isto?  Transcrição, paga, eu paguei. Não dizem que Verdi não sabia escrever música?

Cada  meandro  moldava  imagens, dúzias, centenas de casas torneando o rio de minha terra. Abro ouvido e olhos, ninfas nadam alegremente em suas águas. A corça lépida, protegida por Diana, bebe d´água, sem medo dos caçadores que se divertem com suas trompas. Aqui um baile, alegre, ridente, um casal,  seus convidados e parentes. D´um lado e doutro fachadas coloridas, as mais belas. Passo por baixo da ponte Carlos, de tantos segredos sepultados. Os prédios da cidade velha, a igreja de Nossa Senhora de Tyn, parte do Castelo com suas torres,  a velha catedral gótica de S. Vito,  padroeiro dos Atores, dos cães (até cão tem padroeiro?), comediantes (O homem precisa ri), dançarinos, epilépticos e da tempestade (É padroeiro e tanto, até da tempestade), suas gárgulas e vitrais esplendorosos e medonhos.  Acordo de meu sono que não foi eterno, nem teve berço esplêndido. À  catedral, avanço embalado pelo suave som de cordas e metais. Corro em seu rumo, mas parece que a invisível orquestra ia sendo conduzida pra longe e arriba por ligeiros corcéis voadores, tal Pégaso conduziu Perseu e, os sons ficam cada vez mais distantes e inaudíveis. Não quero perder aquela melodia. Vestido num terno creme, uma gravata borboleta, cabelo desgrenhado, de barba irregular com uma terrina de creme de leite na mão esquerda, uma batuta e uma partitura na direita  surge em minha frente um maestro. Não parece irado, meio contrariado, apenas. Fala-me em língua que não conheço. jde psát vaše píseň. E cantarolou, regendo, entre zangado e divertido, enquanto lhe voava a partitura,  Bedrich Smetana,  toda a melodia que um dia pensei ser minha. A vaidade humana torna o homem ladrão de sua própria consciência.

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