domingo, 13 de novembro de 2016

O ENTERRO DOS ENVENENADOS















Começava a escurecer quando a caminho do Pelourinho, acompanhar  o enterro de pessoas envenenadas. Cerca de 50, entre jovens, adultos e crianças. Ruas apinhadas, carros, gente. Correm, indo e vindo sobraçando compras. Operários de macacão faziam instalações elétricas, construíam palcos sobre estruturas metálicas, zoeira. Semana de carnaval. Doze de março de dois mil.  Pensei até em ir pela Baixa dos Sapateiros, Não pegar engarrafamento, mas resolvi deixar o carro nos Barris e seguir a pé pela Avenida Sete. Na altura da Praça Castro Alves, que ainda não era totalmente do povo, muita  gente.  Teria muita  dificuldade em atravessá-la, mas tinha pressa porque estava  atrasado. Pensei, se eu subir a torre da Barroquinha poderia ter um bom ponto para alçar voo. Engano. O campanário está no mesmo nível da Chile, ou talvez mais baixa, por cima da qual  haveria de sobrevoar.  Mesmo assim, subi naquele Mibunge (assim a chamavam os negros de língua quibunda)  de lá, pulei, conseguindo um pequeno vôo até o inicio da Rua da Ajuda por onde tomei o caminho do Pelô. Claro que tive medo daquela rua. Quem não tem medo? Os travestis abordam. Não se sabe como responder. Se desagradá-los =, a violência é certa.  Se nada respondes, serás esnobe, está discriminando. Os sorriso pode ser um  escárnio. Mas, ao final, passei ileso, tendo de explicar, não ser  fumante, não tinha cigarros. O pelourinho, deo gratias. Os caixões do moribundos, numa rua atrás da Cantina da Lua. Um sobrado barroco em penúria secular.. A esta altura já tinha escurecido e a casa estava toda iluminada com velas, apesar de ter nela luz elétrica  como as demais.
Uma multidão esperava sair o enterro, mas tudo estava atrasado pois as pessoas envenenadas estavam demorando de morrer. Desenganados por médicos, curandeiros, babalorixás, yalorixás e os demais que se metem a curar os males da carne, esperavam resignados até morte chegar.  Esperavam  sentados no chão, em cadeiras, nos sofás. Outros por serem, talvez mais práticos, estavam esperando a morte já dentro dos caixões, conversando animadamente, matar o tempo. As pessoas  traziam comida e bebidas, tanto pros moribundos, quanto pros velantes. Chegando, fizeram questão de me dar um lugar seguro para descansar. Um quarto onde havia uma cama de casal, na qual já descansava alguém. Que não me incomodasse. Bastava deitar de valete. Não me incomodei realmente, tanto que nem deitei de valete, uma vez que a cama era muito larga e havia dois cobertores.
Dum quarto de meia-parede, ouvia os comentários sobre o acidente do envenenamento das pessoas e, claro, tinha medo, um inexplicável temor que se apoderava de mim, sem razão aparente. Falavam em indenizações, em vingança e mesmo em perdão do Cristo. Preces eram feitas, não pedindo a melhora dos condenados à morte, ou que morrendo  subissem ao céu. Pedia-se firmemente a morte, diziam, minorar seu sofrimento e o deles. O velório se tornava cada vez mais cansativo e as discussões cresciam. Há de se fazer este enterro logo;  Como enterrar, se eles ainda não morreram? Os próprios condenados alegavam já não agüentar mais esperar a morte. Um queria ser cremado, em lugar de enterrado, mas outro meio gaiato disse que preferia ser mesmo enterrado, porque queimado, o Senhor Deus ia ter um trabalho da zorra pra juntar as cinzas no dia da ressurreição.  Ninguém conseguiu segurar o riso, mas al fim todos acordaram  em  ir seguindo pro cemitério, era o tempo de eles  morrerem.
Começaram a retirar os caixões. Nova discórdia. Alguns queriam logo tampar os caixões,  outros discordavam  iriam sufocá-los e não podiam fazer isto. Alguns argumentavam,  eles iriam morrer de qualquer forma, pouco importa, seja por asfixia ou envenenados. Vão morrer, mas não se pode sufocá-los, seria desumano, além de se cometer  assassinato, pois não se pode antecipar a morte de ninguém, disse um legalista. Nova  discussão:  Os caixões não podem sair pela cabeça, devem sair pelos  pés. Mitos, medo, costumes, superstições.  Saíram por fim todos. Eu que,  durante todo aquele  tempo fingira dormir, chamei meu companheiro, temia ficar preso ali. Não posso me imaginar preso naquela casa ou em qualquer outro lugar, morreria mais depressa que os envenenados. Ele acordou assustado. Não poderíamos sair imediatamente. Pelo sim, pelo não, poderiam descobrir ser eu o culpado pelo  envenenamento daquelas pessoas. Ah, meu companheiro de cama sabia mais de mim, do que eu próprio. Eu não sabia qual a minha relação com aquele cortejo a caminho do cemitério. Pasmo, pedi que me explicasse o  acontecido, ele negou explicações. Não era o momento. Que então saísse sozinho, ver e sentir o ambiente, sondar a barra. Ele saiu e eu fiquei calçando meus sapatos. Apesar de não gostar de sapatos com cadarços,  estava com um sapato social preto, feito por  Waldemar, o mago dos sapatos, lá na Princesa Isabel. Baixinhos recorriam a ele,  sabia como ninguém, fazer sapatos. Fazia-os de todo jeito, de salto duplo, com  palmilha alta, escondendo a altura do sapato que o gajo  parecesse  mais alto.  Toda a Bahia lhe devia. Encomendas até do Sul e da Europa. No meu caso, ele aumentara de dez centímetros, assim parecia eu mais alto e elegante. Elegância que tinha um preço. Cansaço.




Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

Um comentário:

  1. Opa, fiquei curioso com a continuação da história. Quando sai o livro?

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