segunda-feira, 1 de maio de 2017

ANTÕE CEGO






Tempo de menino, de molecada, dos causos contados, vistos  e vividos. Seu Antônio, o dia  negociava, tocando  venda com um pouco de tudo, e como toda boa venda, tinha a cachacinha como carro chefe. Cego,  um  sininho  pendurado na gaveta, controlava o ogó. Que nenhum ladrão se aventurasse a puxar aquela gualdra, o badalo  denunciaria  o larápio. Até mesmo um de seus  filhos foi um dia vítima de sua esperteza. Tentou  afanar alguns trocados.  Dlim, dlam, num pulo, alcançou o aventureiro, agarrando-o pelo saco. Um grito o denuncia, passando a sofrer da vergonha à sova,como costumavam dar os pais  aos filhos em erro. Hoje, poderia ir até para cadeia. O mundo mudou, os filhos, como não aprenderam a apanhar,  batem nos pais. Filhos apanhavam de pais, tios, avós, e até de irmãos mais velhos,  nem por isto havia revoltados, ladrões ou trombadinhas, como hoje. Palavras bonitas, por castigos, psicólogos, pedagogos e quejandos, o caminho para a permissividade, o culto à beleza, à juventude e discriminação dos mais velhos dos diferentes. Professores achincalhados,  mortos por alunos.  A pedagogia do medo pela pedagogia do medo. O lente é quem tem medo.
À noite, mestre Antônio transmudava-se. “Nesta terra de Índia usam  muito de feiticeiros e de advinhadores e  mormente nesta costa da ìndia que se chama Costa do Malabar e chamam a estes advinhadores, de canaiates.Dizia Gaspar Correia em 1563 sobre o curandeirismo na ìndia, prova da universalidade desta prática. Este Tirésias nordestino atendia a todos com igual denodo e heroísmo. Na tasca, labuta o dia. No templo noite e magia. Olhos de menino. Acordam cantares lúgubres, o mantra de tambores tangidos. Mãos d´enxadas amainando a terra, o enxó, o tosco tronco, a bigorna gemendo nas tardes, e o  martelo que não é a torre de Sandicove que Joyce imortalizou no Ulisses, comendo.
M´inin´ainda. Olhos abertos para as trevas. Máquina de costura. O correr da roda, o fiar d´agulha sobre o tecido. Plangor de alegria e dor. A sineta chacoalha com força e alarde. Via. Longos vestidos brancos, xales na cabeça, escondendo a beleza das mais jovens. Calças brancas e camisas de punhos longos brancos. Se branco para os egípcios era a cor da alegria,  para o africano afasta a morte, para si,  tristeza e morte. Não se enterravam os mortos de branco?
O desconhecido traz medo, mas também curiosidade. Quando a mãe não queria,  ia sozinho ver. Era só passar uma casa, pelo quintal. Do alto de seu altar comandava a cerimônia e dava inicio às litanias. Sacudia-se um  xexerê e uma sineta marcando o inicio do ritual, a chegada de um espírito levando ao transe um ou mais dos fieis. Quando o espírito era bom se festejava o mais que se pudesse até o axirê. Quando o espírito era mal, todos reverenciavam com temor, mas solicitando, implorando e imprecando para que deixasse aquela alma penada. Na cura do doente, fazia-se  procissões, conduzindo-o embaixo de lenços brancos à maneira de pálio, com varas sustentados por acólitos, acompanhadas de cantos às vezes  estranhos. Deviam sortir efeito, pois  a casa estava sempre cheia.
Santa Maria, Mãe de Deus, dizia o demiurgo, Rogai a Jesus por eu, respondido por beatas e beatos.
A molecada dizia que a certa altura, quando as beatas entravam em transe o curandeiro gritava: Vou virar bicho do mato, pra comer vocês todinhas. Elas respondiam : Primeiro eu, padinho, Primeiro eu, padinho.
Pela fé o homem mata, morre e move montanhas, não dizia o pregador de Nazaré? Como explicar a saga de Matota e Marata, os beatos José Maurino e Maria Nilza que, em ritual da chamada Igreja Universal Assembleia dos Santos, sacrificaram  crianças por afogamento na praia de Stela Maris? Que dizer do pastor Jim Jones da Igreja Templo do Povo cuja pregação  levou quase 900 pessoas ao suicídio na Guiana? Não está escrito?  A cidade, com tudo o que nela existe, será consagrada ao Senhor para destruição. Somente a prostituta Raabe e todos os que estão com ela em sua casa serão poupados, pois ela escondeu os espiões que enviamos.
E Consagraram a cidade ao Senhor, destruindo ao fio da espada homens, mulheres, jovens, velhos, bois, ovelhas e jumentos; todos os seres vivos que nela havia. Ô, Javehzinho escroto. Por que não poderia mestre  Antônio,  em noites de lua cheia, com  hinos e cânticos, gritos e gemidos levar seus pacientes ao transe?

          Santo de Todos os Santos
          Todos venham me ajudar
          Os trabalhos qu´eu fizer
          Ninguém possa desmanchar.
          Sou barro forte
          Massapê, barrostroá
          Sou caboclo da jurema
          Só faço o bem, não faço o mal.


           Mistérios da cura, sem explicação, tudo o que se não pode explicar é mistério. Muitos se diziam curados. Nas noites mal dormidas acompanhava a função até o final. Nunca viu alguém entrar de muletas e sair com as próprias pernas. Rituais eternos, transmitidos de século a séculos. Casta privilegiada, segredos guardados, poder e magia. Em Capela vi, cego sem curar sua própria  cegueira,  cuspir  no chão, fazer lama e, orientado seus acólitos,  passar sobre o olho do fiel tão  cego quanto ele. Também posso fazer milagres. Quando crescer. Começar vendendo passarinho. Pensava, em vigília. Hoje é maldade, contra a ecologia. Crime ecológico. Milhares de animais em extinção. Não se ouve mais o canto da juriti nas manhãs de sol. Comprar  os panos brancos, fazer as roupas. Fazer milagres e enriquecer. Antõe era pobre, por querer, ou por burrice. Eu não, vou ficar rico.



Breve, Noite em Paris, nas livrarias.

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