Ninguém merece morrer. Mas, se não morrêssemos onde iriam os Deuses encontrar lugar para tanta gente? Não escolheram eles, a terra como privilegiada? A menos que estejam escondendo o jogo e nos façam uma surpresa, apresentando gente, ou quase gente, ou lá o que seja, de outras paragens deste mundão de meu Deus. Que digo? Pois um cara com tudo pela frente, nas suas vinte e uma primaveras resolve por fim à vida ingerindo dose cavalares de alucinógenos! Dói? dói, mas como posso me lamentar se sei que milhões, neste momento, não acham um punhado de farinha pra comer? Corram o mundo agora, visitem todas as redes sociais, feicebuque, twitter, tumblr, instagram, you tube e o escanbau afora; Invadam PCs, celulares/telemóveis, Smarphones, yphones, whatsapp e o diabo a quatro e verão: Pelo menos cinco dos que se lamentam pela morte de Lil Peep passam fome ou está abaixo da linha de pobreza. A industria do lazer os distrai. Eles esquecem sua própria miséria e passam a chorar a dos outros. Distraídos, não invejam os felizardos, nem ambicionam seus teres. Muitos ainda pensam, num passe de mágica, chegar lá e apelam para o desporto, a música e até para práticas criminosas. O doce charme da burguesia.
quinta-feira, 16 de novembro de 2017
EU NÃO ME CHAMO LIL PEEP
sábado, 11 de novembro de 2017
Cara, odeio esta merda. Depressão. Nueche, chorando, medo, de quê? Quem me atormenta? Sensação de morte, mas não quero, nem vou morrer. Se tivesse de morrer, mataria antes um bando. A noite quase toda acordado, a manhã sonolento e lento. Só à tarde melhoro. Não choro, é por dentro que ele fica. Assim ninguém me entende. Pensam que brinco, que é má vontade. Incapaz de ver quanto tonto fico num rosto sadio. E assim vou perdendo amigos, filhos e todo elo com o mundo. Me veem como um monstro. Não o sou. Ah, que vontade de dançar um maxixe, o Corta-Jaca. Esta dança é buliçosa, tão dengosa, que todos querem dançar. Mais gostoso de dançar que de comer. Gostaria. Bruna Linzmeyer, dançar um maxixe e me cortar neste azul flamejante. Não te importes, loucuras de noites insones. Fazer-te girar em meus braços e inebriar-me nas profundezas do teu mar. Não, não quero mais do que isto. Mandar ao espaço a deprê. Os olhos, estes olhos, enxergam distorcidos, como um Van Gogh. Eles mentem. Mentem para ti. Resguarda-te de teus olhos. Aurinha de Tuninho Gomes, teus verdes me cortavam como corta a Bruna hoje. Tempo, oh tempo, que fizestes daqueles fachos gloriosos, luzindo sobre nós na Capela de Joaquim Machado? Quando o verde de teus olhos se espalhar, não quero não, fico alegre, fico triste, acaba vadiação.
quinta-feira, 9 de novembro de 2017
AMOR AOS BICHOS
Noite destas aconteceu um acontecido que se não fosse sonho diria fora vivido. Talvez houvera sido na casa de Antônio Carlos, Creonte para alguns, Carrera para outros e ainda ACF para mim, não sei. Sim que havia alguns cachorros e algumas cadelas, sucedendo que algumas entravam no cio e procuravam as pessoas para si esfregar, como acontece com os cachorros que sobem em nossas pernas procurando se masturbar. Não me lembro se foi a lambiscóia ou outra qualquer entre as mais de cinquenta, trezentas, sei lá quantas as têm o ACF. Sentei-me em um de seus sofás que não mais serviam do que repouso de cães e gatos, vivendo, alguns, fraternalmente como não vivem os humanos, quando ela subiu no meu colo e começou a se roçar em mim. Asco, senti inicialmente, mas como sofria um jejum não muito adequado ao homem, comecei a acariciá-la e quando me dei conta estava masturbando-a sem a menor cerimônia, embora muito preocupado em chegar alguém e me visse praticando aquele ato. Pensei. Melhor do que atentar contra a dignidade e pureza de uma menor, como estão fazendo por aí afora, havendo casos até de pais entregando filhas em troca de alguns trocados por não haver outra forma de lhe chegar às mãos o metal. Estava eu enleado neste ato quando percebi alguém se aproximando. Tive de parar. Mesmo tentando esconder, o sujeito iria perceber, porque minha mão estava impregnada de líquido vaginal e a cadela, parecia estar realmente gostando, começou a ganir e subir em mim. O cara, não me lembro quem, nem quero lembrar, um dos serviçais de Antônio Carlos, começou, com uma mangueira, a regar as plantas. Para disfarçar e poder continuar pedi-lhe que lavasse meu carro, fora na calçada. Iria quando acabasse de regar as plantas e limpar os dejectos dos animais. Abelhudo. Uma vasta casa, cercada de jardins, pude adivinhar.Iria se fazer de ingênuo para ter certeza do que eu estava fazendo. Levantei-me, escondendo as mãos, entrei no banheiro e tranquei a porta, que ninguém visse minha situação. Estava excitado e confesso, gostaria de ter trazido a cadelinha comigo. Gritei para disfarçar.Vou tomar um banho, sabendo que Creonte não iria ouvir, também pela zoada infernal de cachorros, gatos, papagaios, pássaros diversos e ainda o estrondo de aviões, a cada cinco minutos, tão próximos passavam em riba da casa, situada na rota de pouso do aeroporto, que, estando na laje, não se podia suspender os braços, por não serem levados por asas, rodas e trens. No banheiro, tirei a roupa e fiz o que não pude fazer no sofá. Deu-me uma sonolência boa e relaxante, mas não me aventurei a deitar no chão, receio de pegar doenças pelas fezes e urina dos bichos, embora parecessem limpos, pois se cuidava bem da limpeza, percebia-se, lá bem longe, um cheirinho de urina e fezes misturado com o odor de detergentes. Ouvia-se o assobio do regador lá fora, já agora mais perto, talvez limpando sujeiras, talvez bisbilhotando meus atos. Iria conversar com meu amigo. A relação entre o homem e os animais no tempo, na cultura dos povos. Abri a porta do banheiro, chamando-o. Dei-me sobre uma vasta esplanada onde homens trabalhavam como loucos sob as ordens de um senhor que se fazia chamar de Jean-Baptiste Colbert na construção de um castelo, enquanto um urbanista de nome André Le Nôtre comandava outro tanto de homens na construção de um gigantesco jardim e, mais além, um indivíduo a quem chamavam M. Le Brun, Charles Le Brun fazia carregar estátuas colossais sob o olhar de outro senhor que se dizia alarife e se chamar Jules Hardouin-Mansart. Que pomposo. Milhares de anônimos alvanéis, operários de todo tipo e tamanho. Enormes carroças transportando a terra retirada para se fazer canais e fontes, outras carregando os restos mortais de árvores sacrificadas, ali vinham outras empilhadas de árvores a serem plantadas. Tanta azáfama e esforço de animais e homens. Pensei. Como estaria o juiz que proibira o uso de jegues na lavagem do Bonfim? Teria ele, uma crise de consciência por nada poder fazer contra esta maldade? Sim, era o ano de mil seiscentos e sessenta e oito, construía-se o Castelo de Versailles. Quantos homens morrerão, animais, Quantos? Em nome beleza, da riqueza? Quem mais vai se importar com sangue e suor derramados nestas alamedas que embevecerão o turista e encherão de euros as burras da França? Quem contém a besta-fera, bípede, erectus e implume? Nenhum governo, nenhum déspota, nenhum tirano. Todos foram engolidos pela massa bruta e sanguinária, juntada se torna uma, independente de cada um, aniquilado por um sentimento único, do qual nunca experimentara antes, nem experimentará depois. Estas ondas humanas destroem continuamente o mundo aos olhos atônitos de uns poucos, isolados, foras do mundo, impotentes e loucos. Quem não se lembra de Antônio do cachorro em Gandu? Assim ficou conhecido por ter degolado a facão um companheiro de tropa e barcaça por este, chegado bêbado da rua, de uma lapeada ter cortado o rabo de sua cadela. Derreando-se sobre a barcaça adormeceu. Antônio, que tinha ido ao rio tomar seu banho e comer sua jacuba, encontrou a cholinha ganindo, chorando, sangrando. Pegou do biscol e de um só golpe fez rolar a cabeça e sangue sobre as bagas do cacau na barcaça. Zoofilia? Amar os animais? Mais tarde dirá ao juiz estar arrependido de ter matado o colega, mas, que fora uma morte merecida. Preferia que ele o cortasse de facão à ter cortado sua cadelinha.
O mundo virou, hoje é mais fácil você se livrar da cadeia matando um negro que xingá-lo de negro. Matar prescreve, xingar não prescreve. Matar um animal? Toda a imprensa publica. Te condena. Crime bárbaro, hediondo. Matar um bichinho tão desprotegido. A mídia agora registra solidão de cachorro deixado em carro, gatos fazendo sinal de amor com rabo, girafa passeando em zoológico, mas não há fotos que mostrem a real situação do mundo, das pessoas, de seu sofrimento para conseguir um pedaço de pão, uma nesga de cuscuz, um punhado de arroz.
Mundo louco, não é Védio Polião?
Leda e o Cisne - François Boucher - 1740
terça-feira, 17 de outubro de 2017
PINGO-PINGO
Fedor Ivanovitch Chaliapin, “Minha Vida”. Lê. Um livro e a lembrança do palhaço
Pingo-Pingo. Chaliapin. Minha vocação de
ator? A Marmonov, devo. Jacob Ivanovitch Marmonov. Tinha doze anos quando o vira
atuando, numa barraca de natal. Iachka, (Assim era conhecido em todo volga) cantor
e clown, de meia idade, físico notável, um tanto bojudo, de bigodes negros e
espessos e olhos ferozes, divertia o
povaréu inculto.
Brasil, sem a tradição da Rússia, o mais cabotino pode superar
grandes dos nossos. Isto não impede um palhaço de circo mambembe influenciar
algúem para a arte.
Pingo-Pingo. Quanta ingenuidade, e no entanto, quanto
admirado, por nós crianças e adultos. Foi ele, meu Iachka? Serás lembrado nos camarins da Escola ao se maquiar para um
espetáculo, o professor João Gama corrigindo o exegero. Quem
nunca viu, venha ver - Em coro, a
garotada: Pingo-Pingo vadiar. Oi de lá,
venha ver. Pingo-Pingo vadiar. De
rua em rua, em Capela, seguiam as pernas de pau, anunciando o divertimento. Tinham
entrada garantida. Um homem comum, começava a crescer, (nem precisava as pernas
de pau), com as tintas encombrindo o rosto.
Anos depois vai ouvir. É como se eu fosse deixando de ser Luiz Carlos
Vasconcelos e me tornasse pouco a pouco o Xuxu. Assim nos sentíamos, de cara pintada,
transformados. Orgulho em ser pintado até que nos obrigassem a desfazê-la, sob protestos e choro, a marca de entrada, no
braço, não poderia ser desfeita. Eu, às
escondidas e a contragosto de papai,
seguia o truão, coisa de moleque, dizia. Inveja dos outros. Seus pais não
ralhavam e até gostavam, alguns. Apanhar,
não apanhava. Apanhei pouco. Era só um olhar e tudo parava. Assim, com a bola, em frente a casa de Maria Pinhão. Bola de meia
batendo nas portas ou caindo nos telhados. Era assim, se pegava num badogue. Coisa de malandréu, dizia. Ator, nem em sonhos, nem mesmo sabia o que
era, mas ali, talvez a iniciação. Mistérios dionisíacos. Mais tarde, na
Europa, enquanto lava um prato e outro,
atua. É marroquino e turco. Apache do Tororó, Cavaleiro de Bagdad, indiano e
ciclista no Les Cracks de Alex Joffé com Bourvil, Robert Hirsch e Monique Tarbès, bulletin de
paye, trinta novos francos ao dia, chez Regina. Pierrot em "Amor e Vida de
uma Colombina sem Amor", de Jesus Chediak, soldado e juiz em Exceção e a
Regra Brecht/Hackler and so on. Por minha palhaçada, perdido o papel no seminário, primeira vez no palco,
seria. Aos gritos, caído no palco. Exagero.
Os frades o mandaram descer. Primeira decepção. Horus, espera tu hora. Da. Vem, vamos embora, que esperar não é saber, Quem sabe faz a hora, não
espera acontecer. Vandré. Onde estás agora? Meu coração chora. Onde te
levaram as torturas? Primeiro de abril, a caminho da escola. Tanques cercavam a
Faculdade. Voltou correndo. Queimam, os estudantes, jornais. Gritos na Praça
Municipal. Manifestações. Polícia. Cassetes e cachorros, o couro come. Correr. Entrou na Confeitaria Colombo, atravessa o balcão,
finge-se de garção. Que Manolo não me ponha
porta a fora. Policia socando o cacete na estudantada. Se já tinha vontade de vazar
daqui, agora mais do nunca. O último a sair apague a luz. Meninpedra rola,
mas não faz limo.
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segunda-feira, 16 de outubro de 2017
Era uma construção bem
antiga, onde se encontrava Inicialmente. Não há como descrevê-la por inteiro.
As paredes eram de pedra, enormes, retangulares, sobrepostas sem qualquer outro
material que as sustentasse. Um corredor grande e amplo dava para uma esplanada
maior ainda. Ele seguiu este corredor, ao que parece com outras pessoas. Vê um vasto mercado a céu aberto. Tecidos, joias, bois, vacas, cavalos,
camelos, animais, objetos diversos. Andou sobre o muro observando
tudo aquilo. Desceu a um curral de gado. Muito gado branco azulado de chifres em forma de lira. Guzerá. Um boi se enfezou e arremeteu contra ele. Foi rápido, pulou a cerca e subiu no
muro. Mais na frente, um cavalo, cujo adestrador tentava mostrá-lo aos
comerciantes. Mercavam-se preços, davam-se lances. O cavalo se lançou sobre
ele. Muito destro, saltou novamente
sobre o muro e saiu correndo, buscar um lugar baixo, eis que todo o muro eram
alto, para se atirar fora dali. Quadrada, grande, imensa a esplanada com
suas paredes cobertas de limo, aumentado nos seus quatro cantos onde havia caleiras. Teve de contorna-la toda para encontrar um local mais
baixo que pudesse pular sem se machucar. Chegando ao canto do lado leste,
jogou-se lá de cima e caiu sobre um lamaçal. Tentou levantar-se, não conseguiu,
estava grudado à lama. Gritava por socorro, ninguém lhe ouvia, pela algazarra
da feira e dos pregões, ninguém deve ter percebido quando se jogou muro abaixo,
ninguém lhe deu valimento. Hora de morrer, calma, não posso perder a calma. Manter-me tranquilo, como no Farol da Barra. Quase afogado, a calma me salvou. Como areia movediça, mais me mexo, mais
me afundo. Sempre encontrei uma solução
para tudo, não é agora que vou me deixar morrer. Mais forte do que eu, sou eu.
Agora é pensar, a razão há de vencer, não juízo e sentimentos juntos. Aguenta
coração, ajuda tua irmã. Entender o dentro e o fora. Dupla luta. O mundo ao
redor, imenso, ínfima pedra lançada ao atoleiro. Dentro de si. Criança
escanchada na mãe, enquanto ela procurava
a chave no telhado, no chão, para melhor
procurar. O galo investe contra ele. Esporões no ar quase roçando os olhos. A
mãe contra o galo com o rebenque de espantar bichos, preso ao pulso. Minutos, eternidade, horas, minutos. Na casa de farinha,
vamos trabalhar meu boi, conserto de roda, olha este menino ai, facão no olho fere, vê Nanã nas poças, colhe
folhas de hortelã. Curar olho ferido. Pai fugindo de casa, São Paulo trabalhar. A irmã comeu jaca. Febre, delírio, do tifo. Caroço
e casca, xá do bom, receitou a
rezadeira, curou. Chega a Capela, cabeçote de Pedrão. Pedrinho trazia a irmã. vê. A carnaúba. Obra de Joaquim Machado. A escola marchando em
torno dela. Não, não vai morrer ali como um porco atolado na lama. Silêncio
profundo. Não mais pensar em nada. Em si, nesta hora de aflição. Todas as
forças aqui dentro, todas as forças do universo. Seu corpo começa a
enrijecer-se, a esquentar, como em febre. O mundo em torno de
si. O dono do mundo. Posso e te ordeno. Venham sobre mim, uma só força façamos. O mundo roda, medo, mas firme. Como um Deus saído do fundo da terra,
um jato d´água lhe atinge com força e ele foi-se desligando do l charco e
jogado ladeira abaixo, como uma pedra rolando. No fim da ladeira, um beco, a
água empurrando-o até uma praça, nunca dantes vista, humildes
casas de telhas e beirais, azuis, verdes, brancas, amarelas. Pessoas corriam para
um lado para outro, perdidas. Uns
tentavam se abrigar na Igreja Matriz, outros fugiam em direção ao mato. Ninguém
sabia o porquê. Corriam e corriam ou por querer ou porque empurrados pela
multidão. Também ele saiu em disparada. Chegaram
a uma grande área aberta, um campo de gramíneas, pasto para animais, talvez. Extenuado,
caiu e a multidão, como o estouro da boiada,
atropelando-o. Por mais que tentasse se levantar e correr, não conseguia, as
pernas lhe pesavam e era como se houvesse
alguma coisa segurando-o por baixo, pelas pernas. Percebeu que as
pessoas não o viam, porque passavam por cima dele sem se desviarem. Neste
momento, caiu uma chuva, ao lado, viu uma
lona amarela, pegou-a e se cobriu. Algumas pessoas suspenderam a lona, mas
ainda assim pareciam não vê-lo. Falou, gritou fez gestos, tudo para que o
vissem, em vão, ninguém o via. Não, não pode ser possível, isto é um sonho.
Tentou, então, acordar-se, não conseguiu. Sonhar acordado, pode ser bom, mas
aqui é pesadelo. Quantas vezes sonhou sonhando? Quantos sonhos interrompidos e
continuados a seguir? Quantos com a
mesma pessoa, conhecida só de sonhos? Sonhos dos sonhos, lembrando-se de já ter sonhado
antes. Com um esforço muito grande e safanão no ar, acordou, mas não pode levantar-se da cama,
algo o sustinha ali. Sentiu puxarem-lhe a coberta, não era ninguém, uma força
invisível fê-la voar para o alto e entrar em uma argola que se desfez. Gritou. Mamãe, mamãe, esticando o braço para ela. Veja aquilo, Veja aquilo. Aí sim,
viu que estava de novo sonhando. De vez
acordou. O telemóvel marcava seis horas
e cinquenta da manhã do dia vinte de dezembro de dois mil e treze (Pois o mundo
não acabou em 2000) não havia galo a cantar, nem galinhas a cocoricar, nem cujubim
para chamar o dia mas outros pássaros no pequeno bosque da casa de frente a seu
prédio chilreavam alegremente anunciando o novo dia. D´outro lado, na varanda, suas plantas recebiam os
primeiros raios do sol. Coaraci alumiando o mundo. Os primeiros automóveis
deslizavam no asfalto húmido pela garoa noturna. Ouvia-se o ruído de um liquidificador vindo
de um dos apartamentos. Suave soava o elevador no sobe e desce em sua caixa. Primeiros
sons da cidade despertando de seu sono. Uma ambulância passava, sua sirena emitindo ondas sonoras em frequência para si desconhecida, mas lhe mostrava o caminho de
viver. Gozar o dia, o amanhã ninguém sabe.
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
São
mais ou menos 15 horas. Estou numa destas salas de espera de uma clínica
médica. Como sempre, todos ou quase todos pregados na televisão. Uma epidemia.
Os programas chatos da tarde são vistos e revistos com a paciência de bois que
vão para o matadouro. Um ou outro abre um jornal fastidiosamente, ou lê um
destes romances de 3ª categoria, ou
mesmo um livro espírita, ou os chamados de auto-ajuda. Espírita, acho que é o
daquele fulaninho ali. Lê, Incrível como crêem ser possível atingir o nirvana
com a simples leitura de um livro. E o pior é que teorizam sobre o tema. E
pensam também na imortalidade, como se fosse possível ser Deus sem mais nem
menos.
18.08.2003
– 16:10 - Aquela magricela branquinha, ou amarelinha como gostam de chamar o
negro ao branco, aquela branquinha é tão fina
que se tem medo de, ao tocá-la, desmanchar-se, medo que se transforma em
prazer, se ao invés de quebrar-se, partir-se em duas divinas criaturas.
O
ambiente de um hospital parece frívolo, e talvez o seja, a despeito de as
pessoas estarem na vizinhança da morte. Todos falam ao mesmo tempo e noventa
por cento do assunto, a saúde é o tema. As velhas costumam misturar o terço com
antibióticos, anti-inflamatórios, antidepressivos, anti-tudo. O médico que se
acredita o próprio Deus trata o populacho, apenas como um instrumento por onde
o onipotente opera suas graças. Os santos também operam milagres, embora, eles
mesmos, não tenham curado os males que os levaram ao campo santo ou à imaginada
glória do senhor. A televisão. continua soltando suas notas que atravessam a
sala semi-adormecida. A magrelinha, ao ouvir o chamado do ortopedista, passa por mim como um caniço açoitado pelo
vento. É o mesmo com quem vou me
consultar. Dizer como está minha coluna, após fazer uma série de perguntas
imbecis, porque só depois de fazer todos os exames, vai me
dar um remédio, não obstante, eu reclame
de muitas dores.
Enquanto escrevo estas linhas observo um velho com quem
está a magrelinha, (Saberei chamar-se Angela, após o chamado do médico), me
perscruta. Olhos compridos e interrogadores. Que estará ele escrevendo? Viu-me olhar para ela e sua mãe, já entraram
no consultório. Imagina se soubesse estar sua filha, ou lá o que seja, sendo personagem
deste escrito!. E ele mesmo? Qual seria
sua reação? Aqui o escritor supera ao pintor ou desenhista, pois este é
obrigado a traçar em longas linhas ou
pinceladas a figura que deseja vir a
lume, denunciando, de logo o seu intento. Como filigranas, os dedos de Ângela
atravessa, os longos cabelos finos e
negros, negros, como diria José de Alencar,
qual as asas da graúna. Os pés tão finos quase transparentes despertam
os mais recônditos desejos, (diriam, levantam defunto). Que pensaria o ancião
se soubesse que nestas linhas, neste pedaço de papel amassado está sua filha sendo despida, antes mesmo que
o médico a chamasse e para lá se dirigisse escoltada com muito carinho por sua
mãe? Tu me lembras agora, outra também
magra, branca e gostosa. Conheci-a já lá vão alguns anos. Onde fostes tu,
coragem? Covarde Horus, não a tiveras, deixaste-a cair nos braços doutro. Não, agora me concentrar em ti. Ouvir tua voz, tão diáfana quanto tua pele, deve ser.
Cristalina, suave, sensual. Não penses que me vou apaixonar, pois, anos
curtidos na solidão não fabricam uma paixão
terça-feira, 13 de junho de 2017
AMIGO DOS BICHOS
Não
era solitário por querer, mas por timidez. Amava a tudo e a todos, um amor à
distância, sem arroubos de romantismo, nem exibicionismo, sem alarde.
Prestativo, a todos dava uma palavra de alegria ou conforto, quando solicitado;
nem era egoísta, e, até, deixava de fazer por si para fazer pelos outros, mas
uma tristeza imensa lhe advinha quando se sentia traído ou explorado por
alguém. Era também vítima dos mais absurdos desentendimentos. Colégio Vieira. Internato. Empresta dinheiro a um colega. Fê-lo com prazer. Era pouco, mas entregou-o. Davis, tinha-o como um dos melhores amigos. Poderia precisar também um dia. E Davis, sua família, tinha dinheiro. Uma tarde, depois do recreio, subia a escada para o dormitório dos médios, onde iria tomar banho e vestir-se para a banca da
quatro, ouviu, no alto-falante de frente
ao colégio, ao lado da Igreja Batista do Garcia, Nat King Cole. Cantava El Bodeguero do cubano Richard Egües.
el bodeguero bailando va,
en la bodega se baila asi,
entre frijoles papa hay aqui,
el nuevo ritmo del cha cha cha,
toma chocolate paga lo que debes,
toma chocolate paga lo que debes,
Corria, porque, quando se é jovem, tudo é na carreira, escada acima, cantarolando a canção, alegre e despreocupado, quando encontra. já no dormitório o amigo Davis, e canta em tom de brincadeira: Toma
chocolate, paga lo que debe, apressou-se a tomar seu banho. Não demorou uma semana, Davis
chega com o dinheiro para lhe pagar. Tão aturdido ficou, nem tentou explicar-se, envergonhado. Não lhe estava cobrando. Hoje ainda não se redimiu do mal entendido; Ah, quase bota a perder uma amizade. Assim era. esperava dos outros mais do que lhe podiam dar. Compenetrado, dava aos sábados aulas de religião nas escolas do
Garcia e Federação. Nem imaginava como falava em sala de aula. Meninos e meninas da mesma idade ou pouco menos que a sua. Parecia iluminado. Furtivos olhares, para a moreninha de olhos claros. Marly era ela? Apoquentado, nem sabia o nome de seus alunos. O mundo hoje o vê criando animais abandonados na rua. Cachorros, gatos e até periquito. Se enreda cada dia
mais nesta atividade. Deixa de frequentar os amigos. Cuida de suas feridas e doenças. Leva-os ao veterinário. Castra o
machos, esteriliza as fêmeas. Não venham
a se reproduzir e sofrer mais do que já sofrem
na mãos do homem, egoísta e
malvado. Sonha. Ganhar uma fortuna na Mega-Sena, comprar um sítio, criar
bichos. Fede a cachorro,alguns animais, dormem com ele. Transforma a casa
adaptando-a, no seu pensar, aos animais. Sanitários, móveis readaptados. Não há lugar para o humano se
sentar. Cortam-se todas as árvores do jardim. Que os gatos
não as façam de trampolim para pular o
muro. Gatos gostam de altura. São feitas prateleiras, lá eles dormem. Cachorros nos sofás e nas camas. Uma enormidade de dinheiro com ração e remédios. A aposentadoria, sim, era também aposentado, uma história de loucura que vale um livro, ia-se minguando,
quase não sobra para si. Já aparece na mídia de vez quando, em entrevistas e todos o tem em boa conta e respeito. Sempre aparece um para lhe trazer mais bichos. Dificilmente os recusa e faz questão de mostrar seu plantel a todos. Chama-os pelo nome, quase todos nomes de gente, acaricia-os e apresenta-nos ao visitante. Uma menina linda, parecia Chapeuzinho Vermelho, sempre passava em frente à sua casa e ficava curiosa em conhecer o interior da quela casa e aquele misterioso homem. Dia destes, ele estava na porta com um gato nas mãos. Ela o olha com olhar de simpatia, ele lhe devolve o olhar e pergunta se não quer acariciar o bichano, indecisa, se aproximou e passou a mão sobre a cabeça do gatinho. Ele a convida a entrar, conhecer a casa e seus habitantes. Ela, ainda indecisa, entra na casa e ele, todo solícito, vai mostrando-lhe e apresentando-a a cada um dos animais. Este, atropelado e trazido para cura-se e foi ficando. veja, uma beleza, ninguém mais
o reconhece, de sequela, apenas um pequeno aleijão, em uma das patas. Aquela é Lambiscóia, sofre de
epilepsia. Tenho de medicá-la todas as noites para evitar as
crises. Onde estiver, tenho de estar em casa até as 19 horas. Dar seu remedinho. Completamente absorto na história de cada bicho, não percebeu, de imediato, o quanto a cativava, com tantas palavras de carinho. Deve de ser uma doçura de pessoa. Esqueceu a pressa para a escola. Sim estudo ballet na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia, minha mãe trabalha na Escola de Teatro da Araujo Pinho, sabe onde é? Aproximou-se dela, tomando-a pela mão, chamou-a para mostrar-lhe, o segundo piso, onde ficava o
príncipe de seus animais. O mais bonito, o mais querido. Magnetizada por aquela voz, aquele amor. Levou-a ao quarto. Lá estava o príncipe, confortavelmente deitado na cama do casal, sim ele era casado. Alisou-lhe o pelo e pediu a ela que
fizesse o mesmo. O Príncipe se arrepiava todo, deitando de patas para cima,
excitando-se ao toque carinhoso das
mãos. Ela começou a sentir uma sensação estranha e de repente sua mão tocou a
dele. Ambos se olharam e uma faísca saiu de seus olhos, deles. Se atracaram, e rolaram na cama à vista do príncipe que também se excitara e roçava sobre eles, com ganidos de prazer. Ele tentava tirar príncipe de cima deles, mas o cão mais se excitava, subindo sobre os dois. Naquele embolar de corpos ela toca o pênis do príncipe e enquanto o homem metia-lhe o dele, ela masturbava o príncipe. Não se sabe quantos minutos duraram aquela cena, eu não estava lá, nem ela, nem ele me contou. No momento do êxtase foi um grito só. Homem, mulher e cão. Cansados, adormeceram sob a vigilância do príncipe, agora com o sentimento de amante dos dois. Não durou muito o sono dele. Acordou e a viu adormecida, com o braço sobre o príncipe que cochilava apenas. Teve uma ideia. Macabra. Ficou indeciso por muito tempo. Voltou às cavernas quando o homem comia o próprio homem para saciar sua fome. Os tupinambás comiam seus prisioneiros para adquirir sua força, matar a fome e economizar a caça. Pensou enforcar a moça. Não, ela poderia acordar e gritar. Depois a bichinha ia sofrer muito com a asfixia. Depois teria uma "morte suja". Haveria um descontrole dos esfincteres e ela se cagaria e se mijaria toda, denunciando o ato. Foi à cozinha. Pegou um cutelo. Tampouco lhe daria morte instantânea. Se acordasse seria um deus no acuda, depois não queria que ela sofresse. Em boa hora, lembrou-se do pilão de Horus. De seus bisavós, dissera, Didi. Trazido de Mairi, estava ali guardado, por enquanto. Feito de massaranduba, com mãos de imirá-itá, madeira pesada e resistente. Os índios a usavam para fabricar seus tacapes. Bila, ele era conhecido assim, pegou u´a mão-de-pilão e caminhou para o quarto. Sua amada inda dormia o sono dos justos, Príncipe brincava com sua calcinha preta. Quando ele viu seu senhor com a mão-de-pilão,largou a calcinha e murchou as orelhas. Teria o perro sonhado o que iria fazer seu patrão? A quem ele pretendia matar a si para dar de comer a ela? Teve medo, mas se sentia feliz em servir de repasto para quem lhe proporcionou uns momentos de prazer. Também Baleia, quase serviu de pasto para Sinhá Vitória, Fabiano e os meninos se não fosse o infeliz do louro. Bila não queria que Príncipe visse, nem mesmo adivinhasse o que iria fazer. Puxou-o delicadamente da cama, com cuidado para que ela não acordasse, pô-lo fora do quarto e fechou-o. Príncipe reclamou com leves ganidos, mas se conformou ou fez como se estivesse conformado. Bila mirou com ternura aquele corpo sobre seu leito, nua, os seios, como o corpo, ligeiramente pendidos para esquerda. Rescendia um cheiro forte do amor. O vento sacudia fios de seus cabelos. Tão bela, não acredito que tenha algum pintor pintado quadro igual. Um tênue sorriso se viu de seus lábios. Talvez estivesse sonhando com lindas cenas de amor, que o jovem não ganhou ainda o tempo de sonhar cenas de sangue e desamor. Bila suspendeu o tacape, mirou sua cabeça, indeciso, mas depois decidido e desceu sobre ela o pau ferro. Não houve tempo para choro, nem grito. Como estivesse de lado o olho direito saltou da órbita e bateu no guarda-roupa. Para se certificar da morte, deu-lhe de novo com o tacape, o da misericórdia. O sangue jorrou mais abundantemente. Os Cachorros e gatos que
não podem sentir cheiro de sangue começaram a ganir e a miar. Ele pegou da faca e começou a descarná-la. Cortou primeiro a cabeça, depois os braços, as pernas. Abriu a porta e começou a distribuir sua carne aos animais. Alimentado os animais, pegou a
sobra, enrolou em pedaços com papel alumínio e foi colocar no freezer. Depois lavou o resto de sangue que
os animais não conseguiram lamber usando detergentes. Enrolou também os ossos em papel alumínio para que não emitissem
cheiro e os enterrou no quintal da casa. Terminado todo o serviço, tomou banho. Ligou a tevê,
pegou uma cerveja na geladeira, sentou-se e saboreou-a. Uma nesga de alegria estava surgindo. Pegou o celular e mandou um zape para Didi. Resolvido o problema da alimentação dos bichos.
Mas
porque falas disto? Não tens tu também a cabeça de um falcão? Não és tu a pomba
que os cristãos chamam Espirito Santo. Por que condenas teu amigo que dá de
comer aos bichos de carne humana? Por acaso não dilaceras tu os corações dos
humanos que não te seguem?
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