sexta-feira, 10 de abril de 2020

FIM DO MUNDO












                             
                              Chacona ból. Znam ten bol. També de mim. Láska, estou pleno. Händel não é mão, nem Grotowiski é grota, tampouco greta. Dixit Dominus. Zé Mancambira numa de suas cachaças: Mundo vai se acabar, não de fogo, dum bicho invisível. Nada mata, por onde passa num fica vivente, não se sabe donde veio. Os mortos, sem velório, nem enterro, queimados são. Proibidos de andar, fechados em casa, falta comida, de tudo se carece. O povo toma dos empórios e  armazéns, tudo.  A Força não tem mão. Faltam caixões, joga-se corpos em sacos, carregados em caminhões, ou se queimam no meio da rua, mode a pestilência. Aves e bichos passeiam pelas ruas, é até bonito. Tudo dominado por dúvida e medo. A incerteza, a única certeza, agora. O grande e o pequeno andam juntos obedecendo a uma lei inteligente que tudo comanda. Conversa de doido, diziam, mas doido tem poder de adivinhar, Antõe Cego, também profeta, replicava. N´Aroeira, Ismael  diz o mesmo tanto. Todo lugar tem seu Tirésias. O mundo é cheio.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

N´AROEIRA













                             
                                    Téo trazendo leite de jumenta na garrafa. Encho uma de Noite em Paris, jogo no mar, ver onde vai chegar. Ô caminhozão. Singrando na vastidão sem-fim, Achar-te-ão um dia? Saberão ler-te? Ao mundo, contarás estas estórias e dirás estou poranga, estou odara que me leiam.Verde era, quando não, vinha Zidório,  leixa uma cheia, leva outra, vazia, pra despois, dia sim, dia não. Mamãe põe aroeira no leite, curar gripe e tosse. Zidório, nunca se descobriu quem te matou. Teus devedores, é certo, mas quem? Perigoso até falar. 

sábado, 4 de abril de 2020

RUE DU BAC







                                            Nissan pegou do badogue,  da espingarda e foi pro mato caçar. Comer, nem que fosse uma fogo-pagô, a fome, mais feia que matar. Suzuki, bom de caça, o acompanhou, sacudindo o rabo, focinho no chão. Na catinga, perro e homem se igualam. Roubar para comer, poderia adivinhar um dia? Cão de mundo! Pois não parar na cadeia. Duzentos gramas de manteira, para a baguete, Carrefour, rue du Bac. Burro aziago, lembra-me  grades e samangos, bófias insolentes. Na cabeça, a nata. Bat´isso direito, menino, não desandar manteiga. Papai Nezinho n`Ourissanga. Vovô Leôncio na Ponta Coroa gostava de bater direto na garrafa.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

CRISTÓVÃO PENDERECKI
















                                   Fácil ser vanguarda, experimental em música. Sons e ritmos. Eu luto com letras, palavras, rebeldes por natureza. Simples compor, todo som é lindo, a palavra não. Abstrata, a música, não precisad de ser entendida, a palavra sim. Não é bem assim, Didi. Como não é bem assim, Cristóvão? Você insiste dizer meu nome em português, já disse, meu nome é Krzysztof, Krzysztof Penderecki. Calma, cara, difícil para nós, Penderecki tudo bem, mas este tal de Krzysztof é impronunciável. Então me chama Penderecki, não este nome horrível, nasalado como vocês pronunciam. Opa, você me dá razão, palavras não soam como instrumento. Cristóvããooo. Prus infas, cambada! Tou nem procês. Daqui uns dias vocês e suas músicas estarão totalmete esquecidos, enquant´outros, lembrados, estudados, homenageados. Não entendi. alguém reclamando de nossas tgeorizações. Deixa-os latir. Muita mediocridade. Até o mendigo do coito no carro com a mulher surtada. elevado aos pincaros da fama pelas redes sociais, já diz querer fugir deste mundo insano e voltar às ruas.

quinta-feira, 26 de março de 2020

MENINOS, EU VI













                    

                               O índio chorou, o nego pranteou, Neco Preto lamuriou, Zé Mancambira se lastimou, Maria Cagona s´esperneou, Zé Pretinho choramingou, o mandacaru soluçou, a cassutinga lacrimou, o alecrim suplicou, o caroá gotejou, a aroeira nunca parou, o tatu se estrebuchou, o gambá gritou, a jiboia se esfolou. Tudo, tudo chorou, chorou, menos o branco de cabeça, que ninguém aqui é branco, viu arder o mato e gozou. Não foi biatatá, não foi. Meninos, eu vi. Meu canto de morte, guerreiros, ouvi: Sou filho das selvas, nas selvas cresci; Guerreiros, descendo da tribo tupi.

segunda-feira, 23 de março de 2020

IL GRIDO











 como


                                   Tempo de famina, milhares morrerão. O luxo, o vinho dos banquetes, o oiro amealhado, tudo, tudo irá ao mar profundo, como em Pompeia e Herculano, avaladas por larvas do Vesúvio. Assim, de derrota em derrota, atravessando a borrasca, mais fortes nos tornamos e, os que ficam, relatarão com empáfia, bravura e destemor fatos nem sempre conforme o acontecido, acrescentados pelo orgulho de sempre, e, voltarão as sandices e sandices e as sandices que o homem não aprenderá nem com a guerra nem com fome, nem com as donças, com nada, e, portanto, deixar morrer como faz o Ocidente  com os góis, hoje na Ucrãnia. Guerra também é negócio e lucrativo. Oh, que digo eu? O homem não aprende? .

domingo, 22 de março de 2020

ÁUGURE ENCANADO
















                                        Seu Rube dançava o carnaval, fantasiado, lembro vagamente as cores, verde, vermelho, rosa, do Ponto da Mangueira um estandarte na mão, ô afilá lá ê, ô, pedia uma cachaça e lá se ia cantando pegar o ônibus na Vasco. O tempo, aproveitar. Um dia vai chegar. Ninguém vai poder pisar os pés na rua. Sim, depois do ano dois mil. Uma senhora de mil cabeças, cuspindo fogo, quem lhe chega perto, só do seu ar, morrerá, porque não tem remédio, nem o homem vai descobrir, porque ela muda de cor, se transforma. Dona Morena mangando dele, profecia de bebum. Em Gandu havia um outro Rube, de tanto beber apelidaram-no de Pau-Vestido, e bebo passava, também, a dizer o futuro. Áugures da cana.