quinta-feira, 4 de junho de 2020















                                E ele será chamado de louco. Louco? Louco quem acredita. Louco pra que não lhe acreditem.Assim, enterra-se vivo um homem. Insano vai ficar no aljube sem sol. A viana carinhosa. Entra e entra, mas Incruenta. Oh, bendita, eu te saúdo. Eu, Zé Mancambira. Viana amiga, parente, filha carinhosa de fazer cosca. Um banguê de gente, levaram-no, longe dos olhos. A multidão queda, sem lamentos. Óia, óia, sem espanto, quase abraçado levam-no à lei.

terça-feira, 2 de junho de 2020













                                                         Vai buscar Dalila. Vai buscar Dalila. Ond tu tá, Dalila. Onde está você. Dá uma pista, onde quer que estejas. Oi, Oi, tem alguém aí? Geneviève, Genoveva, fecha as portas da cidade, Átila  está vindo. Atira, a tira de pano, a tira de Gaza. Estará, Paris em chamas? Sob o céu de Paris tudo pode acontecer. Sob os telhados, também, não é Françoise? Quero ver Irene dar sua risada.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

ANITTA, CARTA













                           Não, não posso ir, podemos conversar pelo zape. Não está fácil sair. A coroa que não é do rei, mas de todos nós, está de olho de quem sai de casa. Assim, graças à tecnologia, podemos conversar olhando no olho um do outro, como se estivesse frente a frente. Começo por te dar um só conselho. Esquece, não dê respostas, não dê plateia, ignora, ignora. Nenhuma reposta vence a indiferença. Aniquilação total, os gregos sabiam disto, ostracismo. Bem, a justiça, só. Sem alarde, pra que não se espraie. E depois, quem se importa com brigas? Quem nunca brigou com os seus? Tampouco, dê importância ao machismo, viva a vida. Neguinho vai se acostumar, entender. Mulher pode escolher como viver.

terça-feira, 26 de maio de 2020













           
                                  Quixaba não era preta, mas quis que fosse Quixaba. Pode-se sentir saudades de uma cadela? Sim, ela era, como Dina o foi, como Bambi o foi. Eu peguei um osso dela. Não era pra comer. Hahaha, pra quebrar, ficar mais fácil pra ela. Você precisava ver. Quixaba abocanhou meu punho, o esquerdo, mas ela viu que eu estava querendo ajudar. Olhou para mim com um olhar tão sentido e foi largando meu punho tão delicadamente. Ah. que saudade de Quixaba.

domingo, 24 de maio de 2020


















                                                     A gente saía com uma cuia de farinha, um pedaço de toucinho, uma frigideira. Catar cupim, salalé, muchém. Com facão e foice, cortava o cupinzeiro, as galinhas sentiam o cheiro, vinham correndo, comer. E nós, quase tudo, dês que vivo. Licuri, seu coró branquinho, cru ou assado. Passarinho, ovo de passarinho, de pato, paturi, de cágado, de tudo. Meti a foice num muchém arranchado num monzê. O cheiro subiu. Um já acendia numa trempe de pedras. O toucinho na frigideira sobre trempe já dava os primeiros estalos e a gente ia sacudindo o cupim dentro dela. Eles se retorciam com a quentura. Que cheiro!

sexta-feira, 22 de maio de 2020

MURO DE BERLIM













                           
                                Papai comprou um tatu moqueado na  mão de Duardo da Pedra Bonita. Mamãe fritou-o no toucinho, comemos de sobrar. Nem todos têm comida no prato, ruminava. Seu Joaquim o  vizinho, morava no fundo do armazém de Chico do Sapato, mamãe  de vez em quando lhe dava um prato. Eu pulava o muro divisório e mamãe me dava o prato. Seu Joaquim aparecia na porta, os olhos brilhando. Enquanto comia, contava histórias. Pensava na sua solidão. Perguntava pelos parentes, nada dizia, mudava de assunto. Uma multidão, pás, picaretas, martelos, talhadeiras, marretas, furadeiras, o diabo, subia o muro. Quem diria, Seu Joaquim, anos depois, em novembro nove de mil novecentos e oitenta e nove, iria testemunhar, quedo, a queda em Berlim de seu muro. Sabia. atrás daquela euforia viria a escravidão do dinheiro, a fome dissimulada, liberdade fingida,  sociedade,  todos sob controle.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

BARBARA HANNIGAN













                             
                         Kudos to Bárbara. Kydos. Qüidos. Não foram em vão noites perdidas em riba de partituras, dias inteiros afinando a voz, como tio João fazia n`Ourissanga com os pandeiros ao fogo. Afinar o som, em harmonia  com o sertão. Tocar um instrumento, o mais difícil, o mais belo, porém, o mais sensível, desafinando por qualquer motivo é uma barra. Capela mais alegre, com a banda de Cloves. Pífanos,  não quis entrar, avesso à moda. Inveja, porém.