Era uma construção bem
antiga, onde se encontrava Inicialmente. Não há como descrevê-la por inteiro.
As paredes eram de pedra, enormes, retangulares, sobrepostas sem qualquer outro
material que as sustentasse. Um corredor grande e amplo dava para uma esplanada
maior ainda. Ele seguiu este corredor, ao que parece com outras pessoas. Vê um vasto mercado a céu aberto. Tecidos, joias, bois, vacas, cavalos,
camelos, animais, objetos diversos. Andou sobre o muro observando
tudo aquilo. Desceu a um curral de gado. Muito gado branco azulado de chifres em forma de lira. Guzerá. Um boi se enfezou e arremeteu contra ele. Foi rápido, pulou a cerca e subiu no
muro. Mais na frente, um cavalo, cujo adestrador tentava mostrá-lo aos
comerciantes. Mercavam-se preços, davam-se lances. O cavalo se lançou sobre
ele. Muito destro, saltou novamente
sobre o muro e saiu correndo, buscar um lugar baixo, eis que todo o muro eram
alto, para se atirar fora dali. Quadrada, grande, imensa a esplanada com
suas paredes cobertas de limo, aumentado nos seus quatro cantos onde havia caleiras. Teve de contorna-la toda para encontrar um local mais
baixo que pudesse pular sem se machucar. Chegando ao canto do lado leste,
jogou-se lá de cima e caiu sobre um lamaçal. Tentou levantar-se, não conseguiu,
estava grudado à lama. Gritava por socorro, ninguém lhe ouvia, pela algazarra
da feira e dos pregões, ninguém deve ter percebido quando se jogou muro abaixo,
ninguém lhe deu valimento. Hora de morrer, calma, não posso perder a calma. Manter-me tranquilo, como no Farol da Barra. Quase afogado, a calma me salvou. Como areia movediça, mais me mexo, mais
me afundo. Sempre encontrei uma solução
para tudo, não é agora que vou me deixar morrer. Mais forte do que eu, sou eu.
Agora é pensar, a razão há de vencer, não juízo e sentimentos juntos. Aguenta
coração, ajuda tua irmã. Entender o dentro e o fora. Dupla luta. O mundo ao
redor, imenso, ínfima pedra lançada ao atoleiro. Dentro de si. Criança
escanchada na mãe, enquanto ela procurava
a chave no telhado, no chão, para melhor
procurar. O galo investe contra ele. Esporões no ar quase roçando os olhos. A
mãe contra o galo com o rebenque de espantar bichos, preso ao pulso. Minutos, eternidade, horas, minutos. Na casa de farinha,
vamos trabalhar meu boi, conserto de roda, olha este menino ai, facão no olho fere, vê Nanã nas poças, colhe
folhas de hortelã. Curar olho ferido. Pai fugindo de casa, São Paulo trabalhar. A irmã comeu jaca. Febre, delírio, do tifo. Caroço
e casca, xá do bom, receitou a
rezadeira, curou. Chega a Capela, cabeçote de Pedrão. Pedrinho trazia a irmã. vê. A carnaúba. Obra de Joaquim Machado. A escola marchando em
torno dela. Não, não vai morrer ali como um porco atolado na lama. Silêncio
profundo. Não mais pensar em nada. Em si, nesta hora de aflição. Todas as
forças aqui dentro, todas as forças do universo. Seu corpo começa a
enrijecer-se, a esquentar, como em febre. O mundo em torno de
si. O dono do mundo. Posso e te ordeno. Venham sobre mim, uma só força façamos. O mundo roda, medo, mas firme. Como um Deus saído do fundo da terra,
um jato d´água lhe atinge com força e ele foi-se desligando do l charco e
jogado ladeira abaixo, como uma pedra rolando. No fim da ladeira, um beco, a
água empurrando-o até uma praça, nunca dantes vista, humildes
casas de telhas e beirais, azuis, verdes, brancas, amarelas. Pessoas corriam para
um lado para outro, perdidas. Uns
tentavam se abrigar na Igreja Matriz, outros fugiam em direção ao mato. Ninguém
sabia o porquê. Corriam e corriam ou por querer ou porque empurrados pela
multidão. Também ele saiu em disparada. Chegaram
a uma grande área aberta, um campo de gramíneas, pasto para animais, talvez. Extenuado,
caiu e a multidão, como o estouro da boiada,
atropelando-o. Por mais que tentasse se levantar e correr, não conseguia, as
pernas lhe pesavam e era como se houvesse
alguma coisa segurando-o por baixo, pelas pernas. Percebeu que as
pessoas não o viam, porque passavam por cima dele sem se desviarem. Neste
momento, caiu uma chuva, ao lado, viu uma
lona amarela, pegou-a e se cobriu. Algumas pessoas suspenderam a lona, mas
ainda assim pareciam não vê-lo. Falou, gritou fez gestos, tudo para que o
vissem, em vão, ninguém o via. Não, não pode ser possível, isto é um sonho.
Tentou, então, acordar-se, não conseguiu. Sonhar acordado, pode ser bom, mas
aqui é pesadelo. Quantas vezes sonhou sonhando? Quantos sonhos interrompidos e
continuados a seguir? Quantos com a
mesma pessoa, conhecida só de sonhos? Sonhos dos sonhos, lembrando-se de já ter sonhado
antes. Com um esforço muito grande e safanão no ar, acordou, mas não pode levantar-se da cama,
algo o sustinha ali. Sentiu puxarem-lhe a coberta, não era ninguém, uma força
invisível fê-la voar para o alto e entrar em uma argola que se desfez. Gritou. Mamãe, mamãe, esticando o braço para ela. Veja aquilo, Veja aquilo. Aí sim,
viu que estava de novo sonhando. De vez
acordou. O telemóvel marcava seis horas
e cinquenta da manhã do dia vinte de dezembro de dois mil e treze (Pois o mundo
não acabou em 2000) não havia galo a cantar, nem galinhas a cocoricar, nem cujubim
para chamar o dia mas outros pássaros no pequeno bosque da casa de frente a seu
prédio chilreavam alegremente anunciando o novo dia. D´outro lado, na varanda, suas plantas recebiam os
primeiros raios do sol. Coaraci alumiando o mundo. Os primeiros automóveis
deslizavam no asfalto húmido pela garoa noturna. Ouvia-se o ruído de um liquidificador vindo
de um dos apartamentos. Suave soava o elevador no sobe e desce em sua caixa. Primeiros
sons da cidade despertando de seu sono. Uma ambulância passava, sua sirena emitindo ondas sonoras em frequência para si desconhecida, mas lhe mostrava o caminho de
viver. Gozar o dia, o amanhã ninguém sabe.
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
São
mais ou menos 15 horas. Estou numa destas salas de espera de uma clínica
médica. Como sempre, todos ou quase todos pregados na televisão. Uma epidemia.
Os programas chatos da tarde são vistos e revistos com a paciência de bois que
vão para o matadouro. Um ou outro abre um jornal fastidiosamente, ou lê um
destes romances de 3ª categoria, ou
mesmo um livro espírita, ou os chamados de auto-ajuda. Espírita, acho que é o
daquele fulaninho ali. Lê, Incrível como crêem ser possível atingir o nirvana
com a simples leitura de um livro. E o pior é que teorizam sobre o tema. E
pensam também na imortalidade, como se fosse possível ser Deus sem mais nem
menos.
18.08.2003
– 16:10 - Aquela magricela branquinha, ou amarelinha como gostam de chamar o
negro ao branco, aquela branquinha é tão fina
que se tem medo de, ao tocá-la, desmanchar-se, medo que se transforma em
prazer, se ao invés de quebrar-se, partir-se em duas divinas criaturas.
O
ambiente de um hospital parece frívolo, e talvez o seja, a despeito de as
pessoas estarem na vizinhança da morte. Todos falam ao mesmo tempo e noventa
por cento do assunto, a saúde é o tema. As velhas costumam misturar o terço com
antibióticos, anti-inflamatórios, antidepressivos, anti-tudo. O médico que se
acredita o próprio Deus trata o populacho, apenas como um instrumento por onde
o onipotente opera suas graças. Os santos também operam milagres, embora, eles
mesmos, não tenham curado os males que os levaram ao campo santo ou à imaginada
glória do senhor. A televisão. continua soltando suas notas que atravessam a
sala semi-adormecida. A magrelinha, ao ouvir o chamado do ortopedista, passa por mim como um caniço açoitado pelo
vento. É o mesmo com quem vou me
consultar. Dizer como está minha coluna, após fazer uma série de perguntas
imbecis, porque só depois de fazer todos os exames, vai me
dar um remédio, não obstante, eu reclame
de muitas dores.
Enquanto escrevo estas linhas observo um velho com quem
está a magrelinha, (Saberei chamar-se Angela, após o chamado do médico), me
perscruta. Olhos compridos e interrogadores. Que estará ele escrevendo? Viu-me olhar para ela e sua mãe, já entraram
no consultório. Imagina se soubesse estar sua filha, ou lá o que seja, sendo personagem
deste escrito!. E ele mesmo? Qual seria
sua reação? Aqui o escritor supera ao pintor ou desenhista, pois este é
obrigado a traçar em longas linhas ou
pinceladas a figura que deseja vir a
lume, denunciando, de logo o seu intento. Como filigranas, os dedos de Ângela
atravessa, os longos cabelos finos e
negros, negros, como diria José de Alencar,
qual as asas da graúna. Os pés tão finos quase transparentes despertam
os mais recônditos desejos, (diriam, levantam defunto). Que pensaria o ancião
se soubesse que nestas linhas, neste pedaço de papel amassado está sua filha sendo despida, antes mesmo que
o médico a chamasse e para lá se dirigisse escoltada com muito carinho por sua
mãe? Tu me lembras agora, outra também
magra, branca e gostosa. Conheci-a já lá vão alguns anos. Onde fostes tu,
coragem? Covarde Horus, não a tiveras, deixaste-a cair nos braços doutro. Não, agora me concentrar em ti. Ouvir tua voz, tão diáfana quanto tua pele, deve ser.
Cristalina, suave, sensual. Não penses que me vou apaixonar, pois, anos
curtidos na solidão não fabricam uma paixão
terça-feira, 13 de junho de 2017
AMIGO DOS BICHOS
Não
era solitário por querer, mas por timidez. Amava a tudo e a todos, um amor à
distância, sem arroubos de romantismo, nem exibicionismo, sem alarde.
Prestativo, a todos dava uma palavra de alegria ou conforto, quando solicitado;
nem era egoísta, e, até, deixava de fazer por si para fazer pelos outros, mas
uma tristeza imensa lhe advinha quando se sentia traído ou explorado por
alguém. Era também vítima dos mais absurdos desentendimentos. Colégio Vieira. Internato. Empresta dinheiro a um colega. Fê-lo com prazer. Era pouco, mas entregou-o. Davis, tinha-o como um dos melhores amigos. Poderia precisar também um dia. E Davis, sua família, tinha dinheiro. Uma tarde, depois do recreio, subia a escada para o dormitório dos médios, onde iria tomar banho e vestir-se para a banca da
quatro, ouviu, no alto-falante de frente
ao colégio, ao lado da Igreja Batista do Garcia, Nat King Cole. Cantava El Bodeguero do cubano Richard Egües.
el bodeguero bailando va,
en la bodega se baila asi,
entre frijoles papa hay aqui,
el nuevo ritmo del cha cha cha,
toma chocolate paga lo que debes,
toma chocolate paga lo que debes,
Corria, porque, quando se é jovem, tudo é na carreira, escada acima, cantarolando a canção, alegre e despreocupado, quando encontra. já no dormitório o amigo Davis, e canta em tom de brincadeira: Toma
chocolate, paga lo que debe, apressou-se a tomar seu banho. Não demorou uma semana, Davis
chega com o dinheiro para lhe pagar. Tão aturdido ficou, nem tentou explicar-se, envergonhado. Não lhe estava cobrando. Hoje ainda não se redimiu do mal entendido; Ah, quase bota a perder uma amizade. Assim era. esperava dos outros mais do que lhe podiam dar. Compenetrado, dava aos sábados aulas de religião nas escolas do
Garcia e Federação. Nem imaginava como falava em sala de aula. Meninos e meninas da mesma idade ou pouco menos que a sua. Parecia iluminado. Furtivos olhares, para a moreninha de olhos claros. Marly era ela? Apoquentado, nem sabia o nome de seus alunos. O mundo hoje o vê criando animais abandonados na rua. Cachorros, gatos e até periquito. Se enreda cada dia
mais nesta atividade. Deixa de frequentar os amigos. Cuida de suas feridas e doenças. Leva-os ao veterinário. Castra o
machos, esteriliza as fêmeas. Não venham
a se reproduzir e sofrer mais do que já sofrem
na mãos do homem, egoísta e
malvado. Sonha. Ganhar uma fortuna na Mega-Sena, comprar um sítio, criar
bichos. Fede a cachorro,alguns animais, dormem com ele. Transforma a casa
adaptando-a, no seu pensar, aos animais. Sanitários, móveis readaptados. Não há lugar para o humano se
sentar. Cortam-se todas as árvores do jardim. Que os gatos
não as façam de trampolim para pular o
muro. Gatos gostam de altura. São feitas prateleiras, lá eles dormem. Cachorros nos sofás e nas camas. Uma enormidade de dinheiro com ração e remédios. A aposentadoria, sim, era também aposentado, uma história de loucura que vale um livro, ia-se minguando,
quase não sobra para si. Já aparece na mídia de vez quando, em entrevistas e todos o tem em boa conta e respeito. Sempre aparece um para lhe trazer mais bichos. Dificilmente os recusa e faz questão de mostrar seu plantel a todos. Chama-os pelo nome, quase todos nomes de gente, acaricia-os e apresenta-nos ao visitante. Uma menina linda, parecia Chapeuzinho Vermelho, sempre passava em frente à sua casa e ficava curiosa em conhecer o interior da quela casa e aquele misterioso homem. Dia destes, ele estava na porta com um gato nas mãos. Ela o olha com olhar de simpatia, ele lhe devolve o olhar e pergunta se não quer acariciar o bichano, indecisa, se aproximou e passou a mão sobre a cabeça do gatinho. Ele a convida a entrar, conhecer a casa e seus habitantes. Ela, ainda indecisa, entra na casa e ele, todo solícito, vai mostrando-lhe e apresentando-a a cada um dos animais. Este, atropelado e trazido para cura-se e foi ficando. veja, uma beleza, ninguém mais
o reconhece, de sequela, apenas um pequeno aleijão, em uma das patas. Aquela é Lambiscóia, sofre de
epilepsia. Tenho de medicá-la todas as noites para evitar as
crises. Onde estiver, tenho de estar em casa até as 19 horas. Dar seu remedinho. Completamente absorto na história de cada bicho, não percebeu, de imediato, o quanto a cativava, com tantas palavras de carinho. Deve de ser uma doçura de pessoa. Esqueceu a pressa para a escola. Sim estudo ballet na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia, minha mãe trabalha na Escola de Teatro da Araujo Pinho, sabe onde é? Aproximou-se dela, tomando-a pela mão, chamou-a para mostrar-lhe, o segundo piso, onde ficava o
príncipe de seus animais. O mais bonito, o mais querido. Magnetizada por aquela voz, aquele amor. Levou-a ao quarto. Lá estava o príncipe, confortavelmente deitado na cama do casal, sim ele era casado. Alisou-lhe o pelo e pediu a ela que
fizesse o mesmo. O Príncipe se arrepiava todo, deitando de patas para cima,
excitando-se ao toque carinhoso das
mãos. Ela começou a sentir uma sensação estranha e de repente sua mão tocou a
dele. Ambos se olharam e uma faísca saiu de seus olhos, deles. Se atracaram, e rolaram na cama à vista do príncipe que também se excitara e roçava sobre eles, com ganidos de prazer. Ele tentava tirar príncipe de cima deles, mas o cão mais se excitava, subindo sobre os dois. Naquele embolar de corpos ela toca o pênis do príncipe e enquanto o homem metia-lhe o dele, ela masturbava o príncipe. Não se sabe quantos minutos duraram aquela cena, eu não estava lá, nem ela, nem ele me contou. No momento do êxtase foi um grito só. Homem, mulher e cão. Cansados, adormeceram sob a vigilância do príncipe, agora com o sentimento de amante dos dois. Não durou muito o sono dele. Acordou e a viu adormecida, com o braço sobre o príncipe que cochilava apenas. Teve uma ideia. Macabra. Ficou indeciso por muito tempo. Voltou às cavernas quando o homem comia o próprio homem para saciar sua fome. Os tupinambás comiam seus prisioneiros para adquirir sua força, matar a fome e economizar a caça. Pensou enforcar a moça. Não, ela poderia acordar e gritar. Depois a bichinha ia sofrer muito com a asfixia. Depois teria uma "morte suja". Haveria um descontrole dos esfincteres e ela se cagaria e se mijaria toda, denunciando o ato. Foi à cozinha. Pegou um cutelo. Tampouco lhe daria morte instantânea. Se acordasse seria um deus no acuda, depois não queria que ela sofresse. Em boa hora, lembrou-se do pilão de Horus. De seus bisavós, dissera, Didi. Trazido de Mairi, estava ali guardado, por enquanto. Feito de massaranduba, com mãos de imirá-itá, madeira pesada e resistente. Os índios a usavam para fabricar seus tacapes. Bila, ele era conhecido assim, pegou u´a mão-de-pilão e caminhou para o quarto. Sua amada inda dormia o sono dos justos, Príncipe brincava com sua calcinha preta. Quando ele viu seu senhor com a mão-de-pilão,largou a calcinha e murchou as orelhas. Teria o perro sonhado o que iria fazer seu patrão? A quem ele pretendia matar a si para dar de comer a ela? Teve medo, mas se sentia feliz em servir de repasto para quem lhe proporcionou uns momentos de prazer. Também Baleia, quase serviu de pasto para Sinhá Vitória, Fabiano e os meninos se não fosse o infeliz do louro. Bila não queria que Príncipe visse, nem mesmo adivinhasse o que iria fazer. Puxou-o delicadamente da cama, com cuidado para que ela não acordasse, pô-lo fora do quarto e fechou-o. Príncipe reclamou com leves ganidos, mas se conformou ou fez como se estivesse conformado. Bila mirou com ternura aquele corpo sobre seu leito, nua, os seios, como o corpo, ligeiramente pendidos para esquerda. Rescendia um cheiro forte do amor. O vento sacudia fios de seus cabelos. Tão bela, não acredito que tenha algum pintor pintado quadro igual. Um tênue sorriso se viu de seus lábios. Talvez estivesse sonhando com lindas cenas de amor, que o jovem não ganhou ainda o tempo de sonhar cenas de sangue e desamor. Bila suspendeu o tacape, mirou sua cabeça, indeciso, mas depois decidido e desceu sobre ela o pau ferro. Não houve tempo para choro, nem grito. Como estivesse de lado o olho direito saltou da órbita e bateu no guarda-roupa. Para se certificar da morte, deu-lhe de novo com o tacape, o da misericórdia. O sangue jorrou mais abundantemente. Os Cachorros e gatos que
não podem sentir cheiro de sangue começaram a ganir e a miar. Ele pegou da faca e começou a descarná-la. Cortou primeiro a cabeça, depois os braços, as pernas. Abriu a porta e começou a distribuir sua carne aos animais. Alimentado os animais, pegou a
sobra, enrolou em pedaços com papel alumínio e foi colocar no freezer. Depois lavou o resto de sangue que
os animais não conseguiram lamber usando detergentes. Enrolou também os ossos em papel alumínio para que não emitissem
cheiro e os enterrou no quintal da casa. Terminado todo o serviço, tomou banho. Ligou a tevê,
pegou uma cerveja na geladeira, sentou-se e saboreou-a. Uma nesga de alegria estava surgindo. Pegou o celular e mandou um zape para Didi. Resolvido o problema da alimentação dos bichos.
Mas
porque falas disto? Não tens tu também a cabeça de um falcão? Não és tu a pomba
que os cristãos chamam Espirito Santo. Por que condenas teu amigo que dá de
comer aos bichos de carne humana? Por acaso não dilaceras tu os corações dos
humanos que não te seguem?
sábado, 20 de maio de 2017
VIAGEM A BONFIM DE VILA NOVA DA RAINHA
Pedes que te conte o acontecido, em quatorze de junho de 1990, para que possas com veracidade narrar aos pósteros. Contarei à
maneira de Plinio Cecílio Segundo, ainda
que me traga horror e tristeza.
Cheguei às 12 horas a Senhor do Bonfim de Vila
Nova da Rainha, Arraial do Senhor do Bonfim da Tapera, ou ainda Arraial da
Missão do Sahy, indicado pela OAB, assistente de acusação no júri do homicídio
de Helio Pombo Hilarião, advogado assassinado, tal Eugenio Lira, por defender
posseiros. Fui ao fórum, ver o processo e depois, saí, matar saudades. A
catedral, um barroco tardio, singela,
mas, torres imponentes. O prédio da prefeitura, amarelo ocre. O Colégio N.S. do
Santíssimo Sacramento (Sacramentinas). Sonhar. Donzelas belas por seus
corredores. O Ginásio S. Coração, os Maristas, de imponentes palmeiras reais. Jovens
sertanejos buscam a sabença. Companheiros
de badogadas em Capela do Alto Alegre, falavam. As moças do Sacramentinas iam à
missa no Marista, ou quando iam eles às Sacramentinas. Não mais olhar o Senhor na
cruz, ver nas estudantes o amor carnal à Bernini. Teresa Sánchez de Cepeda y
Ahumada, em êxtase, cabeça para trás, boca entreaberta e pálpebras
semi-cerradas. A mão do.anjo toca suas vestes,
descobre-lhe os seios. Com a outra, segura uma flecha, aponta suas
entranhas, já penetrada outras vezes. Dor e prazer. O corpo, envolto em vestes
drapeadas, levita sobre revoltos lençóis.
Da expressão podia se ouvir palavras: Um
êxtase caiu sobre mim tão de repente que quase me ausentei de mim mesma. Eu
ouvi aquelas vozes, agora eu quero falar
não com o homem mas com anjos. Perto de mim, um anjo apareceu em forma humana,
em sua mão eu vi uma enorme lança dourada e na sua ponta de ferro, parecia
haver fogo. Eu senti como se ele a enterrasse várias vezes em meu coração, de
forma que penetrou todas minhas entranhas. Quando ele a puxou, tirou com ela
minhas tripas, e me deixou totalmente inflamada com o grande amor de Deus. A
dor foi tão grande que me fez gemer várias vezes; Que gemidos. Ver o casario
antigo, A igreja N.Sra. da Maravilha, a Cruz da Redenção, na Antônio Gonçalves,
A casa do Coronel Antônio Félix Martins,
hoje, o bispado, e onde se hospedou Ruy Barbosa, única do sertão por ele
visitada, Terra do Bom Começo, chamou-a.
Um intelectual livresco, alheio à realidade brasileira. Caçadores de ouro e
pedras preciosas nas minas de Jacobina, boiadeiros, tangedores de gado,
descendentes, empregados de Garcia D´Avila; Paiaiás, pataxós e Kariris correndo campo, abatendo o tapir;
negros servindo brancos, fugindo para o
quilombo de Tijuaçu; O encourado vaqueiro lascando a catinga, derrubando o
pé-duro; moças casamenteiras adornando missas na catedral. As meditações
de Anatole France: E se procurarem saber porque é que todas as imaginações humanas,
frescas ou murchas, tristes ou alegres, se voltam para o passado, curiosas de
nele penetrarem, acharão sem dúvida que o passado é o nosso único passeio e o
único lugar onde possamos escapar dos nossos aborrecimentos quotidianos, das
nossas misérias, de nós mesmos. O presente é turvo e árido, o futuro está
oculto. Chega à estação do trem. Um prédio sem estilo, laivos do barroco, ainda
assim belo, de 1944. A linha férrea, de 1887. Fotografia da primeira estação,
demolida. Um onjunto harmônico: armazém, casas de funcionários. A destruição do passado; Uma paisagem ainda bucólica. Ao fundo, Serra
do Gado Bravo, Cordilheira do Espinhaço. O fim das ferrovias em beneficio
das montadoras de automóveis e industrias afins.
Ali
corria a vida. Reunia-se, ali aos domingos,
depois da missa. As novidades da Bahia. Beber, papear, namorar, fofocar.
Malas e pacotes embalavam anseios. Pressa, apreensão de quem parte, a miúde
regado a choros e abraços demorados; Alegria dos que chegam, rever os seus, encontrar
novos. De Lisboa a Paris. Santa Apolônia e Montparnasse, nem se lembra, Gare Du Nord?
Noite em Paris. Amontoados nos bancos da estação. Brasileiro e
portugueses. Hoteis cheios ou caros. Os tugas, órfãos de Salazar, vomitando a ditadura. Eu, em fuga de 64. Ah!
estações, um mundo. Onde estivesse, visitava-as sempre a ver, rever,
relembrar, e sonhar. Buscar nos gestos, no olhar o sentimento do viajante. Novas, estranhas
terras. Os portugueses. Navegadores intrépidos sobre ondas bravias, enquando a
Europa se escondia sob as saias do clero.
E ao imenso e possível oceano , ensinam estas Quinas, que aqui vês, que o mar com fim será grego ou romano: O mar sem fim é português. Eu, Diogo Cão,
navegador, deixei este padrão ao pé do areal
moreno E para diante naveguei. Vasco
da Gama no caminho das índias; Camões gesta os Lusíadas, em Macau e retorna a Goa e de um só braço nada, doutro salva o
escrito do revolto mar:
Cessem do sábio Grego e do Troiano / As
navegações grandes que fizeram; / Cale-se de Alexandro e de Trajano / A fama
das vitórias que tiveram; / Que eu canto o peito ilustre Lusitano, / A quem
Netuno e Marte obedeceram. / Cesse tudo o que a Musa antiga canta / Que outro
valor mais alto se alevanta.
Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve na livrarias.
quinta-feira, 11 de maio de 2017
HORDÉOLO
Filomena Moretti, Asturias - Isaac Albeniz
Acorda
sonordelento o menino, passa cuspe na remela. Abrir os olhos. Inda a voz
rouquenha do guru sertanejo e o responso dos fieis, como vozes vindas do além,
ressoam em sua mente.
Maria valei-me
Aos vossos devotos
Vinde socorrei
Vosso
amor se empenha
Ó Virgem da Penha
Penha onde mora
Na fonte vital.
E o responso em coro:
Na fonte vital
Na fonte vital.
Todo
menino é rei, faz castelos de cristal, encostado
ao muro do quintal. Pensa. Meninpedra, filosofal. Remelento, dedo na mão, esfrega. Tocar terçol. Quenturinha boa pra
curar. Olha o monturo chamusquento. Nojenta
alfurja, onde se joga as imundícies. Restos crus, cozidos,
palhas de grãos, cereais, panos, molambos, penicos de mijo e bosta, pasto de cães, porcos e jumentos, galinhas e urubus. Dava
um fogo quase morto. Fumo subindo, redemoinhos, odores que aos animais
não parecem incomodar. Queima a toda noite, um gosto especial aos restos sapecados, como carne de fumeiro ou moqueada. No fim do
mundo tudo vai pegar fogo, nojento, de
fazer medo. Devia ser de água como se
havia acabado antes. Não, água também é
muito agoniado. A morte vem boiando, zombando da gente. De braços abertos,
estatelada. Pra lá e pra cá. Como bosta n´água. De fogo é melhor. Eterno, transforma,
purifica o homem, um dia tudo será fogo, disse o obscuro Heráclito.O
fogo do inferno, anunciado por Mr. Fanali, sous les toits de Paris. Queima
tudo, até os ossos. Adeus viola. Não vem fazendo careta. Enfurecida. De uma
vez. Mesmo que se corra. Fuçama de noites mal dormidas, canto aos mortos,boates
de cigarros fumegantes entre lábios femininos. Aqui, nem sempre é uma festa.
Mas não é mesmo, Gonzaga? Ô macho, manda esta muié parar qui já tou todo molhado, senão, para o fole Seu Gonzaga, para este fole marvado.
Filomena,
não a Moretti da guitarra em Asturias de Albeniz, a do padeiro do violão, também morena, gamela na cabeça, dar comida
aos porcos, passa. Toca a viola:
- Pensando no fim do mundo? Tu já tem juízo pra pensar?
Tocou na sua matadura. Pôs a viola no saco.
Ouvirá Ana Vidovic na Catedral do paraguaio Agustin, o Mangoré,e se lembrará,
não sem saudade, de não caber dentro de si, não sem saudosismo, não tanto salutar, mas com um pingo de vida
porque como disse alguém, relembrar é viver duas vezes, lembrará sim, de
Lilinha, irmã sua, no violão, nas noites
de Capela. Contraponto aos cagas-sebos no arvoredo, os trinados de sangue,
cabeça de cardeal. Canarim, assanha
sanhaço. Xéxeus xiando sacudidos
nos seus ninhos, como bolsas, de gravetos, pelo vento. Polifonia do sertão,
milho pilando no pilão, manteiga a chacoalhar na cabaça, Mancambira, a
gungunar, remedando caminhão, o
bate-bate na bigorna Zé Cadeira, Zé Ferreira e Tunin Gomes. Bate, bate
coração, bate o ferro na bigorna, bate a seca no sertão. Bate o vento
balançando a cerração. Bate o vento balançado
coração.Quando tu balança, toda a terra dança.
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança
Madrugada entrando
E o fole gemendo
Poeira subindo
E o suor descendo
Quem não tava "bêbo"
Já tava querendo
E eu cambaleando
Ia te dizendo
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança
Tava requebrando
E eu naquele jogo
Eu tava me esquentando
Mesmo sem ter fogo
Só batia palmas
De pernas puxada
Como quem atira
Em onça pintada
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança
Quando tu balança
Dá um nó na minha pança Mas não é mesmo, Gonzaga? Ô macho, manda esta muié parar qui já tou todo molhado, senão, para o fole Seu Gonzaga, para este fole marvado.
Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.
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Albeniz,
careta,
Fanali,
Filomena Moretti,
fole,
fonte,
Heráclito,
Isaac,
Maria,
nó,
pança,
Penha
segunda-feira, 1 de maio de 2017
ANTÕE CEGO
Tempo menino, de molecada, dos causos contados, vistos, vividos. Seu Antônio, o dia negociava, tocando venda com um pouco de tudo, e como toda boa
venda, a cachacinha era o carro chefe. Cego, na gaveta, um sininho
pendurado, controlar o ogó. Que
ninguém se aventurasse a puxar aquela gualdra, o badalo denunciaria o larápio. Até mesmo um de seus filhos foi um dia vítima de sua esperteza.
Tentou afanar alguns trocados. Dlim, dlam, num pulo, alcançou o aventureiro,
agarrando-o pelo saco. Um grito o denuncia, passando a sofrer da vergonha à
sova, como costumavam dar os pais aos
filhos em erro. Hoje, até cadeia daria. Munda o mundo, filhos, não aprenderam a apanhar, batem nos
pais. Pais, tios, avós, e até de irmãos mais velhos batiam, não havia revoltados, ladrões nem trombadinhas. Ou bem poucos. Palavras bonitas, por castigos, psicólogos, pedagogos
e quejandos, permissividade a caminho, o culto à beleza, à juventude e
discriminação dos mais velhos, dos diferentes. Professores achincalhados, mortos por alunos. A pedagogia do medo. O
lente é quem tem medo.
À
noite, mestre Antônio transmudava-se.
“Nesta terra de Índia usam muito de feiticeiros
e de adivinhadores e mormente nesta costa
da Índia que se chama Costa do Malabar e chamam a estes adivinhadores, de
canaiates. Gaspar Correia em 1563 sobre o curandeirismo na Índia, prática universal.Tirésias nordestino a todos atende com denodo e heroísmo. Na tasca,
labuta o dia. À noite, templo e magia. Olhos de menino. Acordam cantares
lúgubres, o mantra de tambores tangidos. Mãos d´enxadas amainando a terra, o
enxó, tronco, a bigorna gemendo nas tardes, e o martelo que não é a torre de Sandicove que
Joyce imortalizou no Ulisses, comendo.
M´inin´ainda.
Olhos abertos para as trevas. Máquina de costura. O correr da roda, o fiar
d´agulha sobre o tecido. Plangor de alegria e dor. A sineta chacoalha com força
e alarde. Via. Longos vestidos brancos, xales na cabeça, escondendo a beleza
das mais jovens. Calças brancas e camisas de punhos longos brancos. Se branco
para os egípcios era a cor da alegria,
para o africano afasta a morte, para si, tristeza e morte. Não se enterravam os mortos
de branco?
O
desconhecido traz medo, mas também curiosidade. Quando a mãe não queria, ia sozinho ver. Era só passar uma casa, pelo
quintal. Do alto de seu altar comandava a cerimônia e dava inicio às litanias. Sacudia-se
um xexerê e uma sineta marcando o inicio
do ritual, a chegada de um espírito levando ao transe um ou mais dos fieis.
Quando o espírito era bom se festejava o mais que se pudesse até o axirê.
Quando o espírito era mal, todos reverenciavam com temor, mas solicitando,
implorando e imprecando para que deixasse aquela alma penada. Na cura do
doente, fazia-se procissões,
conduzindo-o embaixo de lenços brancos à maneira de pálio, com varas
sustentados por acólitos, acompanhadas de cantos às vezes estranhos. Deviam sortir efeito, pois a casa estava sempre cheia.
Santa Maria, Mãe de Deus, dizia o demiurgo, Rogai a Jesus por eu, respondido por beatas e beatos.
A
molecada dizia que a certa altura, quando as beatas entravam em transe o
curandeiro gritava: Vou virar bicho do
mato, pra comer vocês todinhas. Elas respondiam : Primeiro eu, padinho, Primeiro eu, padinho.
Pela
fé o homem mata, morre e move montanhas, não dizia o pregador de Nazaré? Como
explicar a saga de Matota e Marata, os beatos José Maurino e Maria Nilza que,
em ritual da chamada Igreja Universal Assembleia dos Santos, sacrificaram crianças por afogamento na praia de Stela
Maris? Que dizer do pastor Jim Jones da Igreja Templo do Povo cuja
pregação levou quase 900 pessoas ao
suicídio na Guiana? Não está escrito?
A
cidade, com tudo o que nela existe, será consagrada ao Senhor para destruição.
Somente a prostituta Raabe e todos os que estão com ela em sua casa serão
poupados, pois ela escondeu os espiões que enviamos.
E
Consagraram a cidade ao Senhor,
destruindo ao fio da espada homens, mulheres, jovens, velhos, bois, ovelhas e
jumentos; todos os seres vivos que nela havia. Ô, Javehzinho escroto. Por
que não poderia mestre Antônio, em noites de lua cheia, com hinos e cânticos, gritos e gemidos levar seus
pacientes ao transe?
Santo
de Todos os Santos
Todos venham me ajudar
Os trabalhos qu´eu fizer
Ninguém possa desmanchar.
Sou barro forte
Massapê, barrostroá
Sou caboclo da jurema
Só faço o bem, não faço o mal.
Mistérios da cura, sem explicação,
tudo o que se não pode explicar é mistério. Muitos se diziam curados. Nas
noites mal dormidas acompanhava a função até o final. Nunca viu alguém entrar
de muletas e sair com as próprias pernas. Rituais eternos, transmitidos de
século a séculos. Casta privilegiada, segredos guardados, poder e magia. Em
Capela vi, cego sem curar sua própria cegueira, cuspir no chão, fazer lama e, orientado seus
acólitos, passar sobre o olho do fiel
tão cego quanto ele. Também posso fazer
milagres. Quando crescer. Começar vendendo passarinho. Pensava, em vigília.
Hoje é maldade, contra a ecologia. Crime ecológico. Milhares de animais em
extinção. Não se ouve mais o canto da juriti nas manhãs de sol. Comprar os panos brancos, fazer as roupas. Fazer
milagres e enriquecer. Antõe era pobre, por querer, ou por burrice. Eu não, vou
ficar rico.
Breve, Noite em Paris, nas livrarias.
quinta-feira, 6 de abril de 2017
HOTI HUÑ
“Levai à minha amada
Estas poucas e duras
palavras...
Que ela não conte mais,
como antes, com meu amor.
Por sua culpa, ele
morreu,
Como, à margem do prado
morre a flor,
Que a charrua, ao passar, tocou”.
(Caio Valério Catulo,
poeta latino, em Carmen XI)
Salvador,
06 de fevereiro de 1975
ANA LUZIA,
Soube
que você vai se casar. Cago pra isso, mas aqui estou como prometi, te
dizer algumas coisas que ainda não saíram de minha cuca.
Je me souviens de toi
Il souffit
J´attache la porte de ma
voiture
Avec le cordon bleu.
Je me souviens de toi
Quand je prends mon bain
Au savon “chuvas de rosas”
Je me souviens de toi
Et je te déteste
Quand je me rapelle
De tes mensonges
bourgeoises
Ah! ma petite fille!
Si tu savais la douleur qui vient de toi
Pourrais-tu savoir ce qui se passe dans mon coeur?
Garde tes yeux de ma face.
Mon coeur pourra vaincre ma
conscience.
Meu coração poderá vencer minha consciência.
Amiga. Amiga? Quero ser o teu demônio. O teu
“amigo”, o teu “admirador” o teu detrator.
O imbecil que passou em tua vida. O madeiro que te conduz ao silêncio. Os dejectos que jogas na
latrina. O algoz que te leva ao cadafalso.
Ah! As mentirinhas pequeno-burguesas. Como fazem
doer as minhas carnes! As intriguinhas. Os enredos pré-fabricados. A monotonia
do que se entregam à mediocridade, dos que tem medo dos sentimentos fortes.
Se eu morrer amanhã. Ah!. Se eu morrer amanhã!.
Dormirei la primeira noite fria no teu corpo quente.
O tal que estava esperando você e a prima, a
loura, naquele dia lá embaixo na casa de Ivonete foi o Ivon. Mais uma das suas.
Se eu chegasse naquela hora você tinha se mandado e eu ficava a ver navios.
Aliás, fiquei. Você aproveitou o embalo e zangou-se de araque. Bruxa e criança,
você é.
O rio leva a água pro mar. O mar solta pro ar. O
ar descarrega no rio.
Passo pelo Hospital Português. Podridão. Pelo
hospital português. Ódio. Hospital Português. Dedicação. Português. Amor.
Arrependimento. Passo. Passas. Passo. Passas.
Aquele
chocolate sujou mîa boca.
Aquele
chocolate não
deveria ter vindo
À minha boca.
Aquele
chocolate arde minha boca.
Aquele
chocolate
Teus
olhos, chocolate, teus olhos;
Cortai
Todas
as linhas para Brasília
Cortai
Todas
as linhas pra Bel’ Horizonte
Cortai
As
linhas do meu coração.
Eu
nunca digo adeus
Nem,
amém.
(Publicado na Coletânea O RETORNO
DA ESPERANÇA - Art-Contemp Editora, Salvador/Ba,1996 ).
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