terça-feira, 15 de março de 2016

O PRAZER É AGORA



















         Se arrependeu de ter emprestado seus dólares. Confirmado, brasileiro, eta, povinho enrolado. Francês não gosta de brasileiros, com razão. Zuadentos, metidos a gás com água e  mal-educados. Se  acham o  rei da cocada preta,  de repente se dá conta, não é ninguém. Ufanismo besta, apenas, atrapalha o crescimento. Horas perdidas, contemplando o próprio umbigo e a queda no primeiro round, a fome rondando passos, seguindo sombras nas catingas, brutos  sertões, esquálidas figuras nas favelas. Oras,  Horus  por seu povo, nestas horas?  Quem te disse meu nome? Falam  em frente  ao quadro de anúncios  d´Aliança Francesa. Didi, te chamam, mais conhecido que Pelé.  Não queria mais ajudar ninguém, depois de lhe terem roubado tudo, em uma festa que dera. Perfumes, roupas, sapatos  ganhos em comissão por levar turistas às lojas.  Ouvira falar dele. O cônsul particular do Brasil. Desconfiavam até. O sujeito é do DOPS Quem não vê? Está sempre discutindo política, descobrir comunistas.  Esta, uma das táticas do DOPS. Infiltração.  Lá, tudo minado, informantes até nas latrinas. Deve-se  ter cuidado. Não é bolsista, não é rico, quem o sustenta? Não é exilado político, como Valdir, Juscelino  e Arraes. Alcaguete, com certeza, dedo-duro, (naquele tempo as pessoas tinham medo de serem tachadas de Dedo-duro, hoje têm orgulho, todo mundo quer ser delator,  dá status). Diz, com orgulho, ter criado o termo racista significando os que vieram a Paris sem bolsa de estudos, foi o primeiro racista a chegar. Quem viu?   Ele realmente veio na raça, me  procurou na Cité, Casa do Brasil, diz o Quertezer.  No DOPS, Nossa ficha deve estar como pau de galinheiro. Não porra, ele é mesmo um cara retado. Veio praqui sozinho. Não esperou a “gloriosa”  intervir, se picou logo. Quem espera tempo ruim é lagêdo. Ou jegue. Nordestino é gente? Estão em todas.  Você é do Nordeste, não é? Perguntou. Não, sou do Leste. Do Leste? Onde é o Leste? A Bahia fica no Leste. Ah, então eu também sou do Leste, porque sou de Sergipe. É? O quintal da Bahia. Não, o jardim.  Queria um studio,  você me consegue?  Chegando agora,  não conheço nada, nem falo francês, não queria incomodar, sabe, né, mas a precisão... Me prometi não ajudar mais ninguém. Brasileiro só quer  levar vantagem. Quando consegue o que quer, adeus. Nem todos são iguais, desculpe,  você não deve generalizar. Esta minha experiência com brasileiros. Só  um favor, em nome da  cordialidade. Tá legal, só porque  você é sergipano, vou dar uma ajudinha, tenho alguns amigos lá. Verdade?  Diga um, talvez conheça. Rolembergue. Mas, sou eu, Rolembergue. Abraços, chorôrô,  abraços. Terra, apenas mantissa do universo. Quanto orgulho tem  o terráqueo, nada mais são que um cisco no universo intergaláctico.  



Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias. 

segunda-feira, 14 de março de 2016













Madame Faure abriu, grande, os olhos. Verdazulados. Faure, tradicional família entre os francos. Há Faure pra tudo, até presidente. Felix Faure, pois não morreu de língua?. Fazia sexo oral no Palácio do Eliseu,  com  Marguerite Steinheil.  Não se sabe que língua o matou, se a dele ou a dela. Também mais tarde, o Cardeal Jean Danielou vai morrer fazendo sexo com uma prostituta. Fica provado: Putaria e corrupção rondam o poder como fazem urubus com gado faminto no nordeste. Nem deixam o boi morrer, começam estripando o mais vulnerável das vitualhas:  o anus, a vagina, os olhos, a língua amolecida na boca do  animal agonizante, estremecendo e contorcendo-se de dor pelas bicadas. Lixeiros do mundo, aves e cães. Lida  pelo melhor pedaço, vence o mais forte.  Também o homem, quando se entrona  ou  busca o poder. Pior, insaciável. O animal quer matar sua fome, mas limpa terra. Ele quer ser jornalista, imaginem o  quanto insólito será escrever daqui a vinte anos sobre nós, adivinha-se personagem. Claude, pragmático, menos filosófico. Gostaria de ser lembrado como um amigo.  Não se pode negar que o fora, como pode ser de estrangeiros um francês. Apelidou-o carinhosamente, Didi, homenagem ao meio-campista, eleito melhor jogar da Copa de 58, o Mister Football, o Folha-Seca.. Prova de amizade. Formal o francês. sem intimidade não apelida ninguém.  Usam o nome de família. Mr. Tel, Mr. Quel. 
Claude, só tu para suportar, com humor,  minha lentidão   no enxugar os pratos,  doirar os metais, no varrer a casa. Jean Deglain, ou era Deglun? (creio mesmo que era Deglun), mais efusivo, mais espontâneo, talvez pela juventude dos dezessete anos, parecia mais amigo, mais cordial, cúmplice, até. A perdição foi a velha Corine. Tão logo anoitecia, preparou  a comida, (Os empregados  comiam, antes dos fregueses chegarem), um prato de sua provence que minhas papilas gustativas não reconheceram de imediato e devem ter enviado  informações falsas ao cérebro,  cumulando por  identificar um sabor não tanto quão agradável, como esperava a velhota. Chega Normando, pergunta pela comida, (ele comia sempre antes de cantar sua Bossa Nova), uma merda, disse. Não há maior ofensa ao francês do que dizer mal de sua comida. Ofendida, no mais íntimo de si, a velha senhora, orgulhosa de sua cozinha, exigiu minha despedida. No dia seguinte. Não soube me defender. Orgulho infantil adjungido à timidez  bloqueando a  defesa. Jogado, adolescente, nos claustro capuchinho,  castraram-lhe os desejos, os impulsos nascentes. Morto o mundo, matado. Vai, aprende agora o que não te fora possível na adolescência, saído do claustro, do claustro saído. É tarde pra a ser criança. Pagarás eternamente tua dívida. Não  parece ter sido assim com outros. A maioria, desinibida até ao exagero, talvez, escondendo seu retraímento. Aqui, angustiante ao extremo. Cá fora, no mundo, como diziam,  hercúleo peso, pros que  pegavam o jegue. Pegar o jegue,  jargão dos frades  e seminaristas, ser posto  fora. Não pegava o jegue quem  pedia pra sair. Eu tinha pegado o jegue, tão logo chegara de férias, em dois anos. Franqueza e falta de malicia.   Aluno exemplar,  piedoso, querido,  obediente à disciplina, fora, como de costume chamado à diretoria. Entrevista com o padre diretor, ouvir  queixas, dar conselhos, orientações. Entrara no seminário por ser pobre,  estudar de graça;  Que a vida de estudo e oração lhe dera vocação de verdade; Que estava sofrendo pressões da família pra sair do seminário; Que queria ser frade e pedia ajuda espiritual. O capucho cofiou a barba, pensativo, o Cristo, lívido e ensanguentado, contorcido na cruz ouviu  o silêncio na sala. Quanto vale ser honesto? Mandado embora. A que serves, honestidade? Quantos  dissabores? Vale a pena?  Assim n´A Feijoada. Não  gostara da gororoba de Madame Corine. O olho da rua.   Ser honesto não é dizer a verdade, é não dizer mentiras. Razão, com Jussiê, cabra curtido no Vale do  Cariri. Imbecil fora, merda é fácil, merde,  ela entendeu. Gororoba, ela nunca iria entender.  A velha Corine substituíra Jean que fora se engajar no exército.  Se ele ainda estivesse lá não teria sido despedido.

Corria à boca pequena, Mr. Kiefer teria sido amante de Madame Faure. Havia, por  isso, uma nesga de ciúme em Claude. Bastava ele vir jantar chez madame, quero dizer na Feijoada. Sentia-se. Madame se desmanchava em gentilezas. Ah!  O sobretudo. Ele mo deu, Mr. Kiefer. Feito por encomenda de  Maurice Chevalier. Vestira duas ou três vezes, devolvendo-o por ter-se  enjoado dele. Rico enjoa fácil. Pobre, enjoado ou não tem que aguentar o rojão. Um par-dessus azul-marinho, forro de fina seda, no Maurice, alto e elegante, caía  bem nos seus 76 anos. Eu, um caniço, miúdo, sumia dentro dele. O peso curvava-me o tronco. Quem sabe a lombalgia de agora,  não seja sequela da sobreveste?  Gostava dela, orgulho de ter pertencido a Chevalier. Mr. Kiefer orgulhava-se de seu corte. Não poucos elogiavam sua linha. Bem talhado, iria apenas  adaptá-lo a meu corpo.  Lástima, nunca o fizera. Sumido nesta veste, correr Paris, buscar trabalho, comida. Hora maldita, esta briga com madame. Errei? Orgulho. Perdão não peço. Comida, orgulho dos franceses. Eu disse merda pra comida, fui despedido. Orgulho e timidez a vós devo o fracasso. O erro existe pra nos ensinar. Quem não o reconhece, nada aprende, nem  vai a lugar nenhum.


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domingo, 6 de março de 2016








Aloisio Leal,  todo solícito a seus pedidos. Atendia-o no cartório, (Já se disse, funcionava em sua residência), a qualquer hora, mesmo à noite, mostrava-lhe os processos, e até os de outros advogados, gabando-se de ter corrigido um ou outro defeito de redação ou de direito, e, até de ter ditado a petição, (estes escrivães por aí, não passam de pobres culcornins, dizia), atribuindo-se  a autoria e muitas vezes por eles assinava, quando, por um motivo ou outro, não podiam assinar. Davam-lhe  autorização. Imaginem  o que não dizia de mim aos demais  advogados,  afim de ganhar-lhes a simpatia? Arma de dominação. Disseminar a maledicência. Se queres reinar  recorre à astúcia e à hipocrisia. Honestidade e franqueza são qualidades dos mais fracos, são vícios que te levarão à ruína, diz mais de um pensador, por isso que na política a ética deve ser enxotada.  Fez-lhe, um dia  um convite. Ensinar no colégio, meu colégio,  dizia. Menino inteligente, você deve  contribuir conosco na educação desta terra. Não é um dinheirão, mas  ajuda nas despesas, na gasolina. Que não era tão inteligente assim e também se achava despreparado, não podia ensinar. Nada. Talvez fosse muito mais preparado do que muitos do colégio, podia  ensinar qualquer disciplina. Não era bem assim. Estudioso, sim, não pronto  pra ensinar.  Que decepcionado se mostrou o parvu.  Não estava acostumado a ouvir um não. Trazia todos debaixo dos pés. Que ia pensar, não poderia dar uma resposta imediata, tinha muitos afazeres ainda.
Na verdade  fazia outros cursos na universidade e não queria perder seu tempo em salas de aula e correções de provas. Percebeu que ensinar seria uma forma de vencer a timidez e se integrar à sociedade local, por  isto deixara a Europa, Salvador,  mas perseverou na negativa e continuou arredio aos encontros e festas dos jovens, a despeito de muito solicitado. Um pouco de avareza também, não queria gastar, nem era de beber e, quem não bebe, fica isolado do mundo. Elegeu-se a bebida como combustível da alegria, assim queria Dionisios, e o homem, embora  tivesse perdido a  noção de quem é realmente este Deus, rende-lhe homenagem e o venera a todo instante, talvez mais do que o faz com o Nazareno. Este, aliás, às portas do martírio se voltou para Dionisios, escolhendo-o, na ceia,  como o Deus protetor de sua memória, quando consagra o vinho como o seu sangue. Transforma  o padre o vinho em sangue, eleva o cálice,  rememorando o Cristo? Primeiro rende homenagens a Dionisios, a renovação constante do ser humano, da vida. Não nasceu Dionisios, como Jesus, no dia 25 de dezembro, filho de um Deus com virgem mortal Sémele? Não fez Dionisios, como Jesus, milagres? Não transformou, como Cristo  água em vinho? Não foi como o Nazareno, peregrino? Não foi chamado Rei dos reis? Não ressuscitou ao terceiro dia após a morte? Na comunhão comemos os corpo de Cristo, como as bacantes comeram o corpo de Dionisios.  lo! lo! Bromios! lo! lo! Dendrites! lo lo Eleutherios! lo lo Enorches! lo lo Bacchus,  discípulo de Cibele, Também, Jesus, o que chamam de Cristo, o ungido,  era filho de Deus com a mortal Maria. Isa Ibn Maryam. Com razão o bispo Ário? Cristo apenas, filho de Deus, não o próprio Deus? Divindade de Cristo, um atentado ao monoteísmo? Ou Cristo Jesus não teria existido enquanto corpo humano, como queriam os docetas? Ou como quer o patriarca Nestório? Cristo Jesus, duas naturezas: a divina e a humana, não podendo ser Maria a mãe de Deus? Pára, cabeça tonta, que tu não decifrarás os mistérios da vida. Prende-te tão só a viver e já será o bastante. Quem perde tempo nestas indagações está condenado a ser tido como louco e morrer na penúria. Teus pensamentos não te dão fortuna, como a ações dos negociadores.  Se queres ser realmente feliz não te dês às preocupações de Bento Espinosa, condenado pela Sinagoga de Amesterdão em 1656, a esfregar na zunideira o oiro dos opulentos per ganhar o pão de cada dia e ver seus escritos  trazer-lhe aborrecimentos e  excomunhão: “Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, excomungamos, expulsamos, execramos e maldizemos Bento de Espinosa… Maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita e maldito seja quando se levanta; maldito seja quando sai, maldito seja quando regressa… Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém lhe preste favor algum, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo tecto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia algo escrito ou transcrito por ele.”  





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Didi  entrou na estação Odeon. Pegar  o metrô, ir a La Nation. Neste tempo, ele ostentava uma imponente barba que lhe dava um aspecto sisudo e senhorial. No vagão,  uma turma de indianos, cinco ou seis, falavam ao mesmo tempo, parando repentinamente a conversa. Tempos de guerra entre Paquistão e India, 1965.  Paquistaneses e indianos se odiavam onde quer que se encontrassem.                      
- Paskistani, disse um daquele grupo.
- Paskistani? Interrogou outro.
 De onde estava só se chega a La Nation, pegando a correspondência em Chatelet,  com  Porte de Vincennes.  Não teve coragem de esperar, desceu em La Cité. Esperar outro trem, porque os indianos o olhavam ameaçadoramente. Deus meu, não temos uma característica que nos distinga. Parecemos com todo o mundo, menos conosco.  Marroquino, argelino, ou tunisino aqui; Indiano, paquistanês em Londres, Indonésio na Holanda; Turco, na Alemanha. Ouve lá, pá, que mistura danada fizestes no Brasil com  índios e africanos? Pode ser um mal, pode ser um bem. Sem corpo, nem cara, confundido e aturdido, colonizado, vitima sempre. Tenho que gritar. Brasileiro, sou.
Um sou, pediam clochards, em bando. Contra esmolas, não são esmoleres. Não, como no Brasil. Muitos pedem por beber, aqui também, matar o frio. Guarda-chuva de pobre é cachaça, diziam Raul Sampaio, Francisco Anisio e Rubens Silva todos juntos, na marchinha. Medo, tenho  medo, clochards desbocados, sempre com um faire chier na boca,  fedendo pelos poros, por todos os buracos. Zé Canário fedia menos, com sua tremedeira, guturais gritos dos farrapos profundos, saídos e sacudidos pelos pés-de-vento  nas tardes ensolaradas de Capela. Redemunho, o rastro do Saci-pererê. Nunca tive coragem de prender o Saci na garrafa, tinha medo dele furar a urupemba e fugir, depois voltar pra me levar.

Ir a La Nation fisgar um jantar de Guy, le  Maupassant, o bel ami, o malpassé mal-passado, como costumava chamá-lo, de acordo com a situação. Economizar  um tíquete do restau-U,  ainda tomar um banho, ouvir música, ler, discutir. Um pouco de tudo, homenagem ao dolce far niente. Poderia  servir a alguma coisa agora ou no futuro. Nada fazer é fazer tudo. Trabalho é saúde? mas aliena a mente, tornando-a bruta e preguiçosa.  Ter somente para si os momentos da laboriosa preguiça que nos leve a mares nunca dantes navegados, nos conduz ao inferno,  purgatório e  paraíso, sem o auxilio de um Virgilio, sem o barco de Caronte. Momentos de alegria, paz, serenidade, caífe. E isto não se encontra no burburinho das multidões, no azáfama diário. Um cantinho, (Am6) um violão, este amor, (G#º (b13)  uma canção (Gm7) muita calma (Fm7) pra pensar, (Bb7/9) e ter tempo (Em7) pra sonhar, (A7/13) (Am6) dizia Jobim, é  tudo o que precisamos para se obrar maravilhas.


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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016










Desço rio abaixo, serpenteando docemente por meandros como folhas caídas n´água. Os acordes de uma melodia, flauta e clarinetas revolteiam, enquanto as cordas pingoteiam marcando o compasso até a chegada dos violoncelos. De onde vêm? Ouço-os  dentro mim, que se repetem e se avolumam como ondas marinhas. Nuvens embaladas pelo vento dançam sobre mim ao ritmo da melodia. Não há como guardar aqueles acordes. Meu corpo em rodopio também dança. Braços abertos como a reger, sem batuta,  uma orquestra invisível. Repito, cada frase, repito. Sei que não posso me esquecer, escrever me leva à eternidade. Nenhum sentimento de medo. Sob meu corpo deslizam peixes e outros seres d´água. Por alguns momentos aqueles sons se misturam aos acordes da Chacona de Bach transposta para violão tocada por um virtuose qualquer, Segóvia, talvez. Tento encontrar, no violão, as cifras adequadas. Um lá menor, (am), passa ao dó maior, (c), em seguida o ré menor (dm), volta ao lá menor (am), retorna ao ré (dm) e depois ao lá menor (am). Repito, repito ainda, não esquecer. No pentagrama creio que ficará assim: Clave de sol na segunda linha, um bequadro na quinta, compasso 6/8, na terceira linha, um si colcheia, trava, mi semínima, fá colcheia, sol semínima, lá colcheia, barra. Como é difícil escrever música. Ouço a melodia, ao longo do rio:


Quem te disse que eu escrevi isto?  Transcrição, paga, eu paguei. Não dizem que Verdi não sabia escrever música?

Cada  meandro  moldava  imagens, dúzias, centenas de casas torneando o rio de minha terra. Abro ouvido e olhos, ninfas nadam alegremente em suas águas. A corça lépida, protegida por Diana, bebe d´água, sem medo dos caçadores que se divertem com suas trompas. Aqui um baile, alegre, ridente, um casal,  seus convidados e parentes. D´um lado e doutro fachadas coloridas, as mais belas. Passo por baixo da ponte Carlos, de tantos segredos sepultados. Os prédios da cidade velha, a igreja de Nossa Senhora de Tyn, parte do Castelo com suas torres,  a velha catedral gótica de S. Vito,  padroeiro dos Atores, dos cães (até cão tem padroeiro?), comediantes (O homem precisa ri), dançarinos, epilépticos e da tempestade (É padroeiro e tanto, até da tempestade), suas gárgulas e vitrais esplendorosos e medonhos.  Acordo de meu sono que não foi eterno, nem teve berço esplêndido. À  catedral, avanço embalado pelo suave som de cordas e metais. Corro em seu rumo, mas parece que a invisível orquestra ia sendo conduzida pra longe e arriba por ligeiros corcéis voadores, tal Pégaso conduziu Perseu e, os sons ficam cada vez mais distantes e inaudíveis. Não quero perder aquela melodia. Vestido num terno creme, uma gravata borboleta, cabelo desgrenhado, de barba irregular com uma terrina de creme de leite na mão esquerda, uma batuta e uma partitura na direita  surge em minha frente um maestro. Não parece irado, meio contrariado, apenas. Fala-me em língua que não conheço. jde psát vaše píseň. E cantarolou, regendo, entre zangado e divertido, enquanto lhe voava a partitura,  Bedrich Smetana,  toda a melodia que um dia pensei ser minha. A vaidade humana torna o homem ladrão de sua própria consciência.

sábado, 12 de setembro de 2015














No banco a noute fora longa e friorenta, naquele outonal verão em Paris. Resistiram brasileiro e lusos, pingüins amontoados, carregando  sonhos e pesadelos. José Manuel iria se unir aos pais, fizeram o salto (A pé, D´Espanha té França) antes, quando ainda se encontrava matando gente e bichos n´Angola, aonde fora mandado desde que sentara praça. Portugal alimentava com corpos jovens, quase imberbes, as colônias d`Africa, D´Asia e Oceania, num orgulho besta, pois há muito perdera o império dos mares, tomado por flamengos, francos e britânicos. Grande Zé Manuel, indignado porque o chamavam de Manuel. Ouve lá, pá, por que me chamas de Manuel? Oh, desculpe, sempre pensei que te chamavas Manuel, mil desculpas. Como te chamas então? Tu bem sabes  que eu me chamo José Manuel, pá. Rsrsrs. O outro, Antônio (eles escrevem António) Alexandre, vinha matar em Paris a solidão das noites timorenses. Timor, ali fora jogado pela  armada, tão logo se engajara. Sua única diversão no forte de  Santo António de Lifau,  de quinze em  quinze, era o  caminhão de víveres e suprimentos,  da capital Dili; Suprir a fome daqueles soldados  abandonados  nos confins da Melanésia,  um dia  governado por Antônio Coelho Guerreiro, intimorato brasileiro que amou Timor como  Pernambuco, sua terra.  Lembrava, com certa nostalgia, de Flora,  diaque, bela Flora,  nativa que lhe acalentava as noites quentes da Pérola do Oriente, como a chamava o pernambucano, cantando numa língua mista de português e tetum, este, por si só, já impregnado de português,  decorrência de longos anos de domínio  luso sobre o povo maubere, uma canção arrastada e modorrenta. Como era limpa aquela mulher, pá.  Escovava  os dentes, esfregando também a língua que se tornava  doce e melíflua na boca lusitana. Horas a fio, papeando. Sua experiência naquele cu de mundo, alimentando curiosidades e gosto por coisas exóticas. Inveja.  Meu projeto de vida, andar no mundo, em cada país uma semente, um herdeiro em cada povo,  misturar, fazer o mundo se entender. José Manoel, o matador de negros n´Angola, (Felizmente não precisava tirar o couro a fazer sapatos, como faziam os ingleses  com os aborígenes da Tasmânia),  não me tornava curioso. Tanto negros vi, pensava conhecê-los. Inverdade, inda que se viva mil anos não apreende a  África inteiramente.

Gandra, conversador, brincalhão, um portuga revolucionário, comunista e agitador. Frequentava conferências, palestras e encontros de tudo que pretendesse mudar o mundo. Marxistas, lenistas, trotiskistas, com sua revolução permanente, e maoistas defendendo a luta armada em todas as frentes, enfim, gente  de todas as cores e línguas se debatendo em tertúlias  onde o sonho era mais forte do que a realidade. Era, no entanto, preciso sonhar. Sem sonhos a realidade não muda. Falastrão e irreverente, vivia, Gandra, às tulhas com os revolucionários de então. Tivera, um dia, sério embate com Bani Sadre,  anos mais tarde, primeiro presidente do Irão, pós  derrubada do Shá Reza Pahlevi, por Khomeini, o Aiatolá, por rogo do  Majalis, o Parlamento. Ironia, Abulhassan, outra de suas alcunhas, deposto, acusado de tentar impor uma política leiga, quando nós o tínhamos como  muito religioso. A Pérsia dos  Aiatolás  não suportava uma república laica. Onde andarás tu, Dārayava, possuidor da bondade? Iria encontrar a Milu pá, muito antes da Malu aparecer e dançar em sua cabeça,  bela rapariga de Funchal, uma paixão nascente, solitária e dorida. Levaria um par de meses a pensar na garota muito gira e espirituosa que se insinuava por entre todos, sem se  deixar tocar por ninguém. Pensando nela fez, no La Coupole, enquanto Picasso, Buñuel, Sartre e outros discutiam seus projetos, um poema escrito num guardanapo  guardado até hoje, como recordação de um amor solitário. Este poema  o salvou. Nesta  noite quando estava sem lugar onde dormir, sentado numa pequena praça, tentava escrever algo, enquanto esperava o amigo português (sempre um português na minha vida) que me oferecera dormida.  


Continuação no livro NOITE EM PARIS, em breve nas livrarias.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

URUTAU É MÃE-DA-LUA


Noite em Paris, em breve nas livrarias.












Quando a mãe-da-lua cantava, era noite. Quelí também uivava co grito invisível daquel´ave, fantasma dos galhos secos nas noites d´Ourissanga.   Queli, quanto eu gostava. Da  língua, o baticum ouvir, bebendo leite. Sacudia alegremente a cauda, era só papai Nézinho chamá-lo junto a gamela. Quando a mandalua cantava, Queli dormia, acordava e latia um ganido assustado, mas amigo, porque sabia, não há perigo no canto do Urutau, no assobio do curiango, no grito do bacurau, na escuridão silenciosa da pituna. Meu bacurau doce e formoso, ouve a prece de Tainá, salva meu Cauê do mal. Lindo bacurau da mata, cura o dente da jurema. Dizendo e bacurau escrevendo.
Quando a mãe da lua cantava, soturno e agourento canto,  eu acordava, ouvia Nanã: Dá já falou, Dá já falou. Quando a mãedalua gritava, noite escura, tinha medo de seu canto. Por que será de teus cantares? suspiros d´enamorados? Deusa: ensinar  a falar ao homem. Quando o urutau  cantava era noite bonita, chirriava e ninguém via. Dá já falou, Nanã  respondia ao sopro d´urutau, fagote das matas tropicais. Nheambiú chora  Cuimbaé. Mistérios da fala, mistérios do amor. Cantofala. Da camarinha, o escuro, o canto e voz ouço de Nanã. O brilhoazul nos olhos da manhã. Sim, ouvira a mãe-da-lua, cantar. Olhos, cabeça e corpo, diziam. Encanto e medo,  pássaro fantasma, fincado em galho seco em noite quente do sertão.
Ourissanga da Ponta da Serra. Um casarão sobre a colina, de onde se via o peji de Hélio curador. Bate cancela, tambor repica, arreia-se o padê, na procissão. Cura de seus males. Cegos, aleijados, tísicos, aluados, mundo, enlouquecidos.  Medo, enlouquecido mundo. Ismael, louco Ismael, barria as ruas d`Aroeira, cantando,  fanhosa e rouca voz. Chulas,  cantigas do carnaval marcadas com  bassoura de cassutinga. Quem te pôs no porta-malas, Carine? Quem te atiçou sobre as fezes do mundo,  tann sem hauser? Mundinsano.  Depressão, estava, antes. Modismo, besta.  Milhões, muito mais  daqui pra frente, sofrendo. Tristeza? Toda alma é triste, nossa humanidade. Vontade de sair correndo. Mundo, pequeno mundo.  Não quero ver ninguém, só estar na multidão. Não tenho direito de ser feliz. Alguém tem? Não quero levar ninguém comigo. Cada qual viva sua vida e não se culpe por nada. Notícia ruim  corre depressa. João correu pro mato. Procurar. Alguém o viu todo lascado por espinhos pro lado da Pedra Bonita. Se o mundo é louco?  Líria, por que  pagastes por te matar?  Que faz um homem aceitar dinheiro pora matar quem lhe pagou? Tu respondes, Ricardo? Trinta  anos abatidos por uma bala que nem de ouro era, como a que matou Júlia Fetal pelas mãos de seu noivo João Estanislau da Silva Lisboa. Mundo louco mundo. Cães  ladram e mordem não me aborreçam. Fui sacudido com os gritos assustados de um galo d´angola que, fruto de  despachos (Helio fazia despachos com animais vivos, não os matava), havia montado no mato e vivia com galinhas também em estado selvagem. Como os bichos, o homem, também pode voltar ao estado selvagem? Ou será que já chegamos lá? Por medo, não se lhes tocava, reproduzindo-se rapidamente, deixando-se ficar ali espantando as pessoas, romeiros, caçadores e viajantes. Mundo imundo enlouquecido. Do fundo de casa se via, no pé do morro,  a fazenda de Zulé. Casa caiada de portas vermelhas, um curral de gado e chiqueiro  d´ovelhas e cabras. Ao lado, a casa de Mariquinha, onde  comi  a melhor galinha da minha vida. Nada se faz hoje como antigamente. N´A Portuguesa da Avenida  Sete, sim, que galinha, Mariquinha se fez presente, retorno  ao passado. Que estás a pensar pá?  Ponha mais um pouquinho, o menino gostou da galinha. A mãe do portuga que fez comigo o salto. Bom este pirão. De lamber os dedos. Mole de gorda. De  galinheiro, milho inchado pelo bico, como capão de mulher parida. Galinha, o prato chefe do Stock Pot,  onde Luiz confundiu a conta, the bill, com um prato. Procurando no cardápio. Desculpe senhor, este prato, nós não temos.  Cara, ele está te pedindo a conta. Quem conta um conto aumenta um ponto. Sério que foi assim. O riso no ponto da marinete. Roceiro pechinchando. Um mil-reis está caro, pago quinhentos-réis. Arrelia dos da cidade. Cidade maravilhosa cheia de encantos mil, de dia falta água, de noite falta luz. Ourissanga, na frente o varandado, luz de  fogueira pra esquentar  frio e pandeiro. Anos depois, quem diria, o Varandá, (corruptela de varandado), da Rua Pau da Bandeira, boêmia das noites baianas, ombreando o Cruz Vermelha, nascido em l883, vibrando nos setenta do século vinte, me veria.  Dramáticas discussões, regada a  suco de cevada, por um bode morto em pleno espetáculo de Ariman no Teatro Castro Alves. A alma penada de Lady Macbeth nos corredores do castelo e a loucura de Macbeth no banquete com a visão do fantasma de Banquo. Ou ainda o impacto  da moralidade medieval  “Todo Mundo” vista do fim ao principio numa inversão proposital de seu diretor Jesus Chediak. Na estreia, Fausto resolve, no final, (até hoje não se sabe se improviso, ou constava do espetáculo) abraçar delicada e sensualmente a bandeira do Brasil. A policia Federal proibiu o espetáculo que se ensaiara longos meses e a Universidade gastara uma pequena fortuna na produção. Tempos de ditadura. Toda atriz era prostituta, todo ator, viado. Do varandado, de onde se via o cemitério e  o curral do Garapa, se penduravam gaiolas e cortiços. Uruçu, o melhor mel. Mandaçaia, o mais bonito. Jitaí,  milagroso, tubi, o mais vulgar, sanharó, o mais nojento, arapuás, manduris. Quando se ia furar cortiço ninguém visitava Ourissanga,  não assanhar as abelhas. Noite de escuro, chapéu, foice e machado, facão espingarda  e facho,  furar arapuá. Enrolando-se nos cabelos, entrando pelos ouvidos, gostoso mel. Atingia-se o varandado por duas enormes pedras  postadas em frente, à guisa de escada. A casa sempre acima do chão, como num pedestal, solução da arquitetura rural, dificultar a entrada de animais, especialmente, cobras. Daí se viam também  o terreiro, a malhada  e o pasto da frente.  Varanda, a sala da frente. Ai se armavam redes, penduravam-se nos cabides, cintos, chapéus e chocalhos e outros apetrechos. À direita da varanda, uma  porta ligava ao paiol, uma enorme despensa que se alongava até  a cozinha, por onde também se entrava. No jirau se guardava o milho, o feijão, a farinha e outros mantimentos. Homens subindo  a escada, sacos na cabeça a despejar no jirau. Fazia um barulhinho gostoso. Um pouco, a música da terra. Bonito ver a farinha derramar-se no salamim, quando se abria a gaveta do jirau. Poeirinha branca pintando  cara,  cabelos.  Sai desta p’uêra, m´nino, Quantas vezes não  ouvira? À esquerda, o quarto da frente. Dormiam meus tios e depois, também eu quando já crescido. Pandeiros pendiam das paredes. Ganchos de madeira trabalhada desciam do telhado onde  se guardavam roupas. Três camas, madeira e couro. Bom batucar nas  camas.
Tambor. Pandeiro. Marcam o samba, o batuque, a chula, e o martelo chorados na viola,  chora.Palmas em contratempo embaladas por colher  arranhando  prato. Quando o sol se esconde tio João pega o pandeiro,  esquentá-lo no fogão. Crepita a brasa,  retesa o couro. O fogo afina o couro, a mão afina o tempo. No varandado, toca a  tocar. Ressoam pandeiros  na mata, assunta o caboclo,  de ouvido aguçado.  Responde ao chamado seu Gregório. Diálogo das mãos no couro de gato esquentado. Sons da mata, ritmo da vida,  Iniciado.

Continuação no livro NOITE EM PARIS.