segunda-feira, 1 de maio de 2017

ANTÕE CEGO






Tempo menino, de molecada, dos causos contados, vistos, vividos. Seu Antônio, o dia  negociava, tocando  venda com um pouco de tudo, e como toda boa venda, a cachacinha era o carro chefe. Cego,  na gaveta, um  sininho  pendurado, controlar o ogó. Que ninguém se aventurasse a puxar aquela gualdra, o badalo  denunciaria  o larápio. Até mesmo um de seus  filhos foi um dia vítima de sua esperteza. Tentou  afanar alguns trocados.  Dlim, dlam, num pulo, alcançou o aventureiro, agarrando-o pelo saco. Um grito o denuncia, passando a sofrer da vergonha à sova, como costumavam dar os pais  aos filhos em erro. Hoje, até cadeia daria. Munda o mundo,  filhos, não aprenderam a apanhar,  batem nos pais. Pais, tios, avós, e até de irmãos mais velhos batiam, não havia revoltados, ladrões nem trombadinhas. Ou bem poucos. Palavras bonitas, por castigos, psicólogos, pedagogos e quejandos, permissividade a caminho, o culto à beleza, à juventude e discriminação dos mais velhos, dos diferentes. Professores achincalhados,  mortos por alunos.  A pedagogia do medo. O lente é quem tem medo.
À noite, mestre Antônio transmudava-se. “Nesta terra de Índia usam  muito de feiticeiros e de adivinhadores e  mormente nesta costa da Índia que se chama Costa do Malabar e chamam a estes adivinhadores, de canaiates. Gaspar Correia em 1563 sobre o curandeirismo na Índia, prática universal.Tirésias nordestino a todos atende com denodo e heroísmo. Na tasca, labuta o dia. À noite,  templo e magia. Olhos de menino. Acordam cantares lúgubres, o mantra de tambores tangidos. Mãos d´enxadas amainando a terra, o enxó,  tronco, a bigorna gemendo nas tardes, e o  martelo que não é a torre de Sandicove que Joyce imortalizou no Ulisses, comendo.
M´inin´ainda. Olhos abertos para as trevas. Máquina de costura. O correr da roda, o fiar d´agulha sobre o tecido. Plangor de alegria e dor. A sineta chacoalha com força e alarde. Via. Longos vestidos brancos, xales na cabeça, escondendo a beleza das mais jovens. Calças brancas e camisas de punhos longos brancos. Se branco para os egípcios era a cor da alegria,  para o africano afasta a morte, para si,  tristeza e morte. Não se enterravam os mortos de branco?
O desconhecido traz medo, mas também curiosidade. Quando a mãe não queria,  ia sozinho ver. Era só passar uma casa, pelo quintal. Do alto de seu altar comandava a cerimônia e dava inicio às litanias. Sacudia-se um  xexerê e uma sineta marcando o inicio do ritual, a chegada de um espírito levando ao transe um ou mais dos fieis. Quando o espírito era bom se festejava o mais que se pudesse até o axirê. Quando o espírito era mal, todos reverenciavam com temor, mas solicitando, implorando e imprecando para que deixasse aquela alma penada. Na cura do doente, fazia-se  procissões, conduzindo-o embaixo de lenços brancos à maneira de pálio, com varas sustentados por acólitos, acompanhadas de cantos às vezes  estranhos. Deviam sortir efeito, pois  a casa estava sempre cheia.
Santa Maria, Mãe de Deus, dizia o demiurgo, Rogai a Jesus por eu, respondido por beatas e beatos.
A molecada dizia que a certa altura, quando as beatas entravam em transe o curandeiro gritava: Vou virar bicho do mato, pra comer vocês todinhas. Elas respondiam : Primeiro eu, padinho, Primeiro eu, padinho.
Pela fé o homem mata, morre e move montanhas, não dizia o pregador de Nazaré? Como explicar a saga de Matota e Marata, os beatos José Maurino e Maria Nilza que, em ritual da chamada Igreja Universal Assembleia dos Santos, sacrificaram  crianças por afogamento na praia de Stela Maris? Que dizer do pastor Jim Jones da Igreja Templo do Povo cuja pregação  levou quase 900 pessoas ao suicídio na Guiana? Não está escrito?  A cidade, com tudo o que nela existe, será consagrada ao Senhor para destruição. Somente a prostituta Raabe e todos os que estão com ela em sua casa serão poupados, pois ela escondeu os espiões que enviamos.
E Consagraram a cidade ao Senhor, destruindo ao fio da espada homens, mulheres, jovens, velhos, bois, ovelhas e jumentos; todos os seres vivos que nela havia. Ô, Javehzinho escroto. Por que não poderia mestre  Antônio,  em noites de lua cheia, com  hinos e cânticos, gritos e gemidos levar seus pacientes ao transe?

          Santo de Todos os Santos
          Todos venham me ajudar
          Os trabalhos qu´eu fizer
          Ninguém possa desmanchar.
          Sou barro forte
          Massapê, barrostroá
          Sou caboclo da jurema
          Só faço o bem, não faço o mal.


           Mistérios da cura, sem explicação, tudo o que se não pode explicar é mistério. Muitos se diziam curados. Nas noites mal dormidas acompanhava a função até o final. Nunca viu alguém entrar de muletas e sair com as próprias pernas. Rituais eternos, transmitidos de século a séculos. Casta privilegiada, segredos guardados, poder e magia. Em Capela vi, cego sem curar sua própria  cegueira,  cuspir  no chão, fazer lama e, orientado seus acólitos,  passar sobre o olho do fiel tão  cego quanto ele. Também posso fazer milagres. Quando crescer. Começar vendendo passarinho. Pensava, em vigília. Hoje é maldade, contra a ecologia. Crime ecológico. Milhares de animais em extinção. Não se ouve mais o canto da juriti nas manhãs de sol. Comprar  os panos brancos, fazer as roupas. Fazer milagres e enriquecer. Antõe era pobre, por querer, ou por burrice. Eu não, vou ficar rico.



Breve, Noite em Paris, nas livrarias.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

HOTI HUÑ









                        “Levai à minha  amada
                         Estas poucas e duras palavras...
                        Que ela não conte mais, como antes, com meu amor.
                        Por sua culpa, ele morreu,
                        Como, à margem do prado morre a flor,
                        Que a charrua, ao   passar, tocou”.
                        (Caio Valério Catulo, poeta latino,  em Carmen XI)


Salvador, 06 de fevereiro de 1975

                       ANA LUZIA,
Soube que você vai se casar. Cago pra isso, mas aqui estou como prometi,   te dizer algumas coisas que ainda não saíram de minha cuca.

                                                                                                                                                   Je me souviens de toi                 
Il souffit
J´attache la porte de ma voiture
Avec le cordon bleu.

Je me souviens de toi
Quand je prends mon bain
Au savon “chuvas de rosas”

Je me souviens de toi
Et je te déteste
Quand je me rapelle
De tes mensonges bourgeoises
Ah! ma petite fille!
Si tu savais  la douleur qui vient de toi
Pourrais-tu savoir ce qui se passe dans mon coeur?
Garde tes yeux de ma face.
Mon coeur pourra vaincre ma conscience.
Meu coração poderá vencer minha consciência.
Amiga. Amiga? Quero ser o teu demônio. O teu “amigo”, o teu “admirador” o teu detrator.  O imbecil que passou em tua vida. O madeiro que te  conduz ao silêncio. Os dejectos que jogas na latrina. O algoz que te leva ao cadafalso.
Ah! As mentirinhas pequeno-burguesas. Como fazem doer as minhas carnes! As intriguinhas. Os enredos pré-fabricados. A monotonia do que se entregam à mediocridade, dos que tem medo dos sentimentos fortes.
Se eu morrer amanhã. Ah!. Se eu morrer amanhã!. Dormirei la primeira noite fria no teu corpo quente.
O tal que estava esperando você e a prima, a loura, naquele dia lá embaixo na casa de Ivonete foi o Ivon. Mais uma das suas. Se eu chegasse naquela hora você tinha se mandado e eu ficava a ver navios. Aliás, fiquei. Você aproveitou o embalo e zangou-se de araque. Bruxa e criança, você é.
O rio leva a água pro mar. O mar solta pro ar. O ar descarrega no rio.
Passo pelo Hospital Português. Podridão. Pelo hospital português. Ódio. Hospital Português. Dedicação. Português. Amor. Arrependimento. Passo. Passas. Passo. Passas.
                  
Aquele chocolate sujou  mîa boca.
Aquele chocolate não deveria ter vindo
À minha boca.
Aquele chocolate  arde  minha boca.
Aquele chocolate
Teus olhos, chocolate, teus olhos;
Cortai
Todas as linhas para Brasília
Cortai
Todas as linhas pra Bel’ Horizonte
Cortai
As linhas do meu coração.
Eu nunca digo adeus
Nem, amém.






(Publicado  na Coletânea O RETORNO DA ESPERANÇA  -   Art-Contemp Editora, Salvador/Ba,1996 ).

terça-feira, 14 de março de 2017

HYDRA








Estava tudo claro-escuro. Era um povoado de casas caiadas, esparsas, numa planície de mato ralo e arbustos retorcidos, de onde se via, ao longe, a imponente Hydra. Eu tinha sede e precisava  telefonar.  Um aldeão me deu de beber,  que bebi a contragosto, água barrenta e salobra. Não havia telefones na aldeia. Você pode encontrar água boa e telefones no topo da cidade. Muito e distante e alta estava, teria de andar muito, por íngremes ladeiras. Há tempos não exercitava minhas asas. Chegando ao topo de uma ladeira, fiquei indeciso. Não tinha certeza de que poderia voar.e um tope E foi com enorme esforço que, de um topo de ladeira, levantei vôo. Para Hydra, homem-pássaro. Levantar vôo de pequenas elevações exigia muita energia para manter a altitude e isto me cansava muito, por isso tive  que parar inúmeras vezes. E era outro sacrifício para levantar vôo novamente, porque tinha sempre de fazê-lo do cume de alguma ladeira. Sou como as pardelas de Cipango. Tenho de escalar uma árvore ou qualquer elevação para alçar vôo.
Que alivio quando comecei a distinguir os primeiros arranha-céus da cidade de Hydra. Seus tetos de vidros coloridos refletiam a luz mortiça do sol-poente.
Posei no primeiro teto que encontrei pela frente. Desci à rua. Entrei num bar. Tomei uns goles de um refresco verde vendido por um homem de cabelos também verdes. A sede não morreu por inteiro. Não quis, porém, beber outro trago. Precisava telefonar, ou melhor, tinha vontade de telefonar.
Indaguei das mulheres da cidade. Lindas diziam. Amáveis cochichavam um pouco temerosos, alguns. Adoráveis,  asseguravam, outros, mais convictos.
Andei, por entre ruas, becos e vielas, milhões d´olhos de um vago olhar aflito, cobrem-me o corpo,  assustados e curiosos, mas  pacíficas e simpáticas. Corri, de qualquer sorte era um intruso. Subi num murro e passei para outro mais alto, daí para um telhado de uma casa de onde  tomei vôo, sempre pousandoem prédios mais altos para retomar vôo. Bem  alto, já, vi um teto que era uma cuia. Que era u’a mesa. Que era uma agulha.
Abri os braços-asas na busca daquela que era a dona da cidade. Hydra.
Hydra. Mulher linda. Mulher rica. Mulher inteligente. Mulher-mulher.
E vi no mais alto dos prédios, um lindo terraço colorido e perfumado pelas flores de toda terra. Posei em seu tapete aveludado.
Hydra falava ao telefone. Hydra. Falava ao telefone.
Seus olhos verdes cor de fogo saíram de seu rosto e tocaram minha pele queimada. Seus cabelos voaram e taparam o sol.
O amarelo ficou negro. Eu apenas balbuciei: Eu ... Eu queria telefonar. - Sua presença era o mundo.
Seus braços se abriram. Looongos. Caiu o telefone que se partiu.
Suas pernas partiram,  enormes, para mim.
- Lindo, lindo homem, me  ama.
E vi sua língua em forquilha soltar pequenas gotas de um líquido que me atingiam o corpo, queimando-me a roupa e assando-me a pele. Quis tapar as narinas para não sentir o hálito fétido que exalava, mas pouco efeito fazia. Já estava todo empestiado de sua saliva.
Eu tentava voar e não mais podia. Maior era o esforço, mais perto estava ela de mim. De seus braços que esticavam. De suas cabeças, mil. De seus olhos coruscantes.
Me ama. Me ama.
E mostrava os seios  lindos. O corpo ondulante, qual uma serpente e com o fremir da dança do ventre.
Molhado estava. Queimado estava. Era uma ferida só. De sua saliva. De seus olhos.
E vi minhas asas caírem. Meus dedos. Meus braços. Minhas pernas. Meu corpo. E o nada..
Agora sou.
Sua voz. Seus olhos. Seu corpo. Seu cheiro. Sua beleza.
Eu sou a Hydra. Eu sou Hydra.




 (Publicado  na Coletânea LITANIA – O Grito da Esperança -   Contemp Editora Ltda, 1989, Salvador-Ba).




quinta-feira, 2 de março de 2017

A RONDA

                                                                                                                                        (1969)










Nós andávamos de uma rua para outra, entravamos aqui, acolá e sempre tínhamos que sair por que  nos bares não se podia permanecer sem beber. A  rua toda era uma capa espessa de gelo, onde nossos pés afundavam e se endureciam cada vez mais ao contacto da neve que ali se deixava ficar por mais de uma semana. Jussiê, coitado, talvez gemesse mais do que eu  e se lembrasse de sua meninice na catinga seca do sertão do Cariri.
O sertanejo é um nômade e está em toda parte. Todos  fugindo de alguma coisa. Mas de quê? Não sabíamos, nem eu, nem ele. Indignados mas resignados buscavam, como buscamos nós, vencer a própria sorte e talvez trazer de volta uma fortuna que não adquiriria em sua terra. O Nordestino sempre quer voltar. Secas, morte de companheiros de vadiação, profetas barbudos vociferando o nome de Deus, cangaceiros  bradando e imprecando em nome dos pobres e oprimidos, tudo os une e apesar da fuga silenciosa empreendida a cada ano de seca, formam onde se encontram uma comunidade com laços muito fortes.
Andávamos naquele deserto branco e quem sabe? Chorando a falta  de algo que se foi ou nunca existiu. Nossos sapatos molhados, nossas orelhas ressequidas, nossos lábios partidos pelo vento, nossos narizes pingotando, o corpo inteiro quem sabe? Nada  sentiria se estivéssemos encontrado o que sem saber procurávamos. Lutar é inútil, dizia, tudo é inútil, respondia, quase automático. Não há resposta para o nada. Andar sobre a lama da neve, se perguntando para onde ir. Alguém já compartilhara das nossas desditas? Não sabíamos. Com certeza já experimentamos a alegria de se dar, mas a quem? Talvez para ele,  fosse naquele dia  que ajudou a carregar  o caixão  da meiga Genoveva morta  por falta de médicos. Para mim, talvez tenha sido no dia em que chorei quando levaram Virgilina para se empregar em Salvador.
Andávamos. Sós. Corpos também se moviam sobre o gelo machucado pelos automóveis. Nos perguntávamos, por que aquela gente não nos olhava, não via apreensões e tormentos em nossas faces curtidas pelo tropical?
Às vezes, diante do espelho na mansarda de um sétimo andar da Rue  Grennelle, olhávamos  nossa cara e víamos aparecer os primeiros sinais  da desilusão.  E aquele gelo sob nossos pés se derretendo, empretecido pelas rodas dos automóveis, aumentava nossa angústia e crescia a solidão. Uma infindável nostalgia tomava conta de nós, fazendo-nos odiar aquele mundo tão rico e tão mesquinho.  Ainda assim, eu queria ficar, ele queria ficar. Mostrar ao francês de que é capaz um baiano e um cearense no mundo. Mostrar que o sertanejo é, por cima de tudo, um forte, como bem disse Euclides da Cunha. Mostrar que um prato de comida se conquista até com a morte e não se curvar diante da insolência e soberbia do europeu. Gritar a todos os cantos sua indignação perante tão desumanas pessoas, que saqueando o mundo se encheram  de bens e riqueza, deixando atrás de si um rio de sangue e miséria. Ficar. Queríamos ficar, mesmo que a multidão não nos quisesse olhar, ou que todos os proprietários nos expulsassem, como  o do bar que nos expulsou, por não termos dinheiro para beber. Dehors étrangers de la merde, ouvimos, contentes, todavia,  porque nos mostramos mais fortes do que ele, instalado atrás do balcão, protegido pelos metais, que sabíamos terem roubado das colônias. Furioso ficou, quando a todos os pulmões, sorridentes, bradamos: Ladrões da America, Ladrões da Asia, Ladrões da Africa. Ninguém resiste a um protesto não violento. O cara fica possesso. E isto é uma vitória. Estrangeiros, éramos estrangeiros.   É direito do homem à vida e logo à migração. Fronteiras só  para delimitar países, não para impedir o direito de escolha onde viver. Discriminar por  nacionalidade ou nascimento, mesmo que matar. O homem, um só. Terra de todos. Não se tem  direito de impedir alguém de escolher onde deve morar, sobreviver.  Esquecem, os estrangeiros fizeram a fama de Paris.
Voltamos ao nosso quarto na Rue Grenelle e tivemos mais um dia de frio, sem comida, quase, e sem trabalho.  Eu um artista frustrado. Ele um político atormentado. Onde estará agora quem primeiro sequestrou um avião na Europa?


     Continuação in NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

(Publicado  na Coletânea LITANIA – O Grito da Esperança -   Contemp Editora Ltda, 1989, Salvador-Ba).







quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

NÃO MORO COM ELE










                     



                                       


                           Por quê tu me perguntas isto? Que diferença faz? Estrambótico, do vestir ao sorrir. Rei da cocada preta. Não, não moro com ele. Se joga. Não o quero. Nem mesmo pra passear meu cachorrinho. Me encanta, o poder, não me assusta. Quem o inferno visita, com os demônios se acostuma. A amígdala cerebral se acostuma com os atos desonestos, confirma o ditado. O mal pela cabeça, antes que ele cresça, afaste-se. Aprendi a me desvencilhar. Viver é uma arte. Emeios, zapes, bilhetinhos de coraçãozinhos. No lixo, jogo. Mesmo sem concordar com alguma coisa, faço meu trabalho. Cérebro pensante, coração amante. Desentendida. Amante, o ágape cristão. Ri, te como, um dia. Se a loba descobre. O poder corrompe. Afasta-te do inferno para não te acostumares com o demo. A glória, o general conquista, o soldado, sua. Não dividir. Não me encosto, estou sob seu bastão. Um dia, meu amigo, compreenderás esta engrenagem, quando, feito teu papel, fores defenestrado. Terrível é a vida, mas bela, aproveita-a, que o ódio faz mais mal a quem o tem, do que a quem odeias. E tu, por quê me perguntas? Imaginas tu que obediência é sujeição? Imaginas tu uma paixão assim? Todos nós temos nosso dia de descarte, tão logo termine nosso papel. É o jogo do poder. Marionetes somos, acreditando-nos titereiros, manipuladores, neste teatro de guinhol. Quando nasci, já Euclides da Cunha havia predito: o sertanejo é antes de tudo um forte. Acostumada. Quem comeu paçoca de rapadura, pegou leite na noite, lavou defuntos na morgue da Ile de France, sacudiu de volta, lacrimejantes bombas no longe de 68 não pode ter medo mais de nada, e, tendo, porque a idade nos tira a coragem e nos dá juízo. Fortalecida estou para enfrentar a vida e os preconceitos. Fulos ficam. Bahia não é Brasil. Que a Bahia seja  Brasil para pisarem. Ao me pisar, saem pisados. Não quero ódio, mas resistir ao ódio, ao preconceito, à discriminação. Aqui, sou rainha, imperatriz. Deixem-me ouvir a milonga de Cardoso. Palavras. Me levam ao nordeste. Longe, saudade da toada, dos encantos da boiada, no aboio da vaqueirama. Mas não sou manada. Entrebatem-se, enredam-se, transam-se e alteiam-se riscando vivamente o espaço, e inclinam-se embaralham-se milhares de chifres. Vibra uma trepidação no solo; e a boiada "estoura"... E lá se vão; não há mais contê-los ou alcançá-los.
                            E agora José? Sabe nada, inocente!
                       Éramos. Quando dormíamos de valete, naquele oitavo andar do dezesseis, rua d`Assas, assomando, assáz frequentemente, a vontade de virarmos, cabeça com cabeça. Vontade, só. Tinhas tu, Horus, medo, de quê? Aqui, hoje, morro de vontade. Saudades de pernas roçando, do cheirinho de corpos esquentados embaixo de cobertas mal lavadas, cheirando a nós dois. Não, não tenhas medo. Corre as vistas no passado. Vês? Todos os sorrisos foram teus. Tu te lembras? Escobar me confiou a ti, que não eras seu amigo, entre tantos amigos tinha, só ali no Quartier Latin. Como ficaram com inveja de ti. Dormíamos naquela cama estreita. Cedo levantavas para fazer a menage chez Madame Zurflux. Eu ficava te esperando para ir comer na Alliance Française. Tu te lembras? Tu não gostavas muito de carne de cavalo. Eu adorava. Tu me fotografavas com tua Yashica Mat. quantas fotos ainda tenho! Me querias como atriz. Um filme, nunca saído do papel ou da tua cabeça. O filme? Noite em Paris. Plínio Alberto, sabe? Goza com nossa cara. Sem começo nem fim porque a noite em Paris nunca amanhecia. Viu a gozação, nos dias de congresso? Que saco, quando mostro os ensaios. Eu nem chut! Mostro a todo mundo, só pra provocar, de quem eu gosto, você sabe. Até Escobar, hoje, amigo no feice, tem ciúmes. Arrependeu-se de te ter deixado comigo, quando voltou à Espanha de Franco.                                
                                  

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

TEMER JAMAIS













                                     


                                   


                                               Não, Horus, não é hora de ter medo. Aloisio não é leal a seus amigos, eles não te farão mal. Comerás o pão que o mafarrico amassou, cairás da tua escada, mas toma como lição, que lição a queda é, e com ela aprenderás que a ambição tem limites, mesmo que sejas Deus. Aqui, como em teu reino, finito e relativo é o poder. Só a mudança é permanente, não é assim, Heráclito? Assim espera Gandra de seu Portugal amado e a Milu dizendo atrás: Neste dia voltarei pra lá, quando cair Salazar. E digo: só deixo meu Cariri no último pau-de-arara. Aqui, passar uma chuva. A vida lá é ruim, quando não chove no chão, mas se chover dá de tudo, fartura tem de montão.  Temer? não temo não, voltar? quero voltar pro meu sertão. Agora, vestir uma camisa listrada e sair por aí, um canivete pro fumo e um pandeiro na mão, faço minha batucada, faço muita confusão, pois quem tem aquilo tem medo, pressão, não aguenta não. Meurimão, deixa de lera, sai daí, deste lugar, se tu sai com tuas pernas, inda podes trabaiar, se pelos outros enxotado, como é que tu vai ficá? Conselho sábio, o do povo, se principia a pensar. Eu tenho medo, quem não tem? Enraivecidos, quem controla? Morrem mil, mil e um nascem. Vida, viver é como água em pedra. Fura. 




Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

LA NOCHE TRISTE CHAPECOENSE


La Malinche -  Alfredo Ramos Martinez, 1930





                          A vida, as vezes, invade a arte, hoje, a morte a invadiu. Arte, pensam, imitação da vida. Não é assim, Aristóteles?Doce ilusão. Nem chega aos pés do real. De foice na mão, com seu traje preto, entrou, sem ser percebida, no avião da Chapecoense. Tudo ia bem até as faldas Medellin. Quanta luta para a Sul-Americana. A morte é escuridão, que dirá a caixa? Pane seca? Que alguém precipitou sobre as serras de Medellin  o Bae 146 da Lamia? Vejo que não vivo, durmo. Longa noche triste. A penúltima noite no Vieira. Guerra de travesseiros. Tudo ia ao ar, os padres à loucura. Sem castigo, o amanhã era a partida. La Noche Triste. Junto de sua Malinche teria chorado Cortez a perda da batalha para os astecas. La Malinche,  como muitos traidores, não chorou, porque a traição é própria dos sem lágrimas. Pouco se lhe importa. O trair é um êxtase só para quem trai, interdito aos demais, mesmo que se beneficia.
                  Heróis, onde andarão vocês? Tu, Danilo,  por que  tanto segurar a bola? Zé de Danié, o gato,  lá em Capela. A vitória pode nos levar à derrota. Como Pirro, choremos a vitória. Choremos a morte. A dor une, a alegria separa. A vitória só vem com a derrota.  Teu rival te quer campeão. Querem te ceder atletas, que não sejas rebaixado. O Racing faz homenagem, manifestam-se nas redes. O mundo se dilacera, o povo desunido, chora unido. Política desune, futebol une. Não me vanglorio da morte de ninguém, como vi pela morte do Fidel. Ela nos iguala, faz pensar. Salve Ximena Suárez, Salve Erwin Tumiri, Salve Rafael Henzel, Salve Follmann, Salve Neto, Salve Alan Ruschel vocês podem, sim, nos dizer que gosto tem a vida. Horus que carrega as chaves da vida e da morte vos reservou uma missão. Vão, daqui eu vejo tudo, e digam a quem quer tirar dos outros a vida, digam, vocês, a quem quer de si, tirar a própria vida, o quanto valiosa ela é, mas digam também a todos o quanto pequeninos sois para estarem aí digladiando uns com os outros no lugar de gozarem juntos a vida que lhes dei. Hoje perdoo todos meus inimigos, até tu, Aloisio Leal,  que me derrotastes na flor dos meus anos, derrota que foi vitória, tu não sabes,  também saíste naufragado. Todo vencedor traz uma veste rasgada. Não te vanglories tanto de tua vitória, sempre haverá quem conte a história que não contaste.  Não é, Madame Faure? Venceste-me por um prato de comida.  Estou aqui para contar a história que não é a tua. Se todo vencedor soubesse disto não diria, como Breno, Vae victis, ele próprio depois vencido. Não foi, Camilo?  Assim, vingado está, Didi, pensaste nisto, Quertezer?  KaRa de fome e sorriso nos olhos. Onde estarás agora, Dr. Baiúca, nos braços de Aloisio Leal, no plano celestial? Triste história de uma  justiça subserviente e acovardada. Que justiça que tu fazes para o roto e esmulambado?  Levem-na à ruína. Ressuscitem-na das cinzas.       
                      
                            


Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve na livrarias.