sexta-feira, 22 de abril de 2016

ULTIMO SONO















Ouviam-se apenas os estalidos das folhas crestadas pelo sol. Caiam retorcidas sobre o chão quente e endurecido. Nem cigarras, nem pássaros, nem farfalhar de folhas. Não havia. Tudo era plano, quieto e cortado por numerosos caminhos que se cruzavam e não levavam a lugar algum.
Caminhava, por caminhar. Lá e cá, mandacarus abriam seus braços espinhosos. E deitavam sua magra sombra sobre a areia esturricada. Gravatás, xique-xiques e mancambiras ornavam a terra quente e pedregosa. Caminhava. E vi seu corpo moreno estendido ao longo de uma vereda.
Sob o céu azul, inúmeros pontos negros ensombravam o chão, outros pousavam simplesmente sobre galhos de mato seco. Angicos, sumarentas quixabeiras e sempre verdes juazeiros. A boca entreaberta deixava adivinhar pedaços de carne sujos de sangue coagulado. Outros, arrastavam-se pela areia carregando a carne que era sua. Alguns dormiam a sesta, após saciarem-se do banquete que lhe fora oferecido.
Seu corpo moreno. Seus olhos, antes feiticeiros, travessos, eram dois buracos negros que levavam não se sabe aonde. Seus seios. Pequenos, sensíveis - quanto eu os afagara! – agora, assemelhavam-se a dois pequenos formigueiros povoados por larvas e vermes hediondos.
Seus lábios. Antes doces e suaves, tinham o gosto de sangue putrefacto.  O corpo todo, antes, repleto de graciosas curvas sacudidas por vibrações eletrizantes, deixava antever, aqui e ali, por entre as chagas supuradas, toda sua conformação óssea.
O monte de Vênus, onde se escondiam supremas delicias, era uma cratera imunda visitada por moscas, mosquitos e aves de rapina. Estas, apoderavam-se, de quando em quando, de seu corpo, de sua carne, indo ao depois  brigar ao longe pelo maior bocado.
Eu me acerquei cambaleante de minha amada. Exalava um fétido ar que entrava em mim,  provocando-me náuseas e vômitos, como  se tivesse bebido todas as adegas do mundo.
Fiz-me forte e me acerquei mais ainda de seu corpo. E minhas pernas dobraram-se. Meus joelhos sangraram o solo que o sol queimava. Com o estrépito de meu corpo sobre o chão, afugentaram-se algumas aves que insistiam e aproveitavam-se dos últimos bocados de minha amada. Planaram preguiçosamente, pousando aos poucos  em mandacarus de braços abertos.
Meus olhos regaram  o esturricado  chão tropical. Meus braços abriram-se e minha boca. Triste foi minha voz não encontrar eco. Ela sabia que eu amava sua voz. Mais triste ainda foi não ver o seu sorriso, nem ouvir os seus gemidos. Os mais belos.
E ali. – Eu – à vista de seus últimos e mais fiéis amigos,  realizei o meu derradeiro e interminável ato de amor. E abraçado aos seus restos, fui-me apoderando de uma sonolência tranqüila e galopante. E fui dormindo. Fui dormindo. Dormindo. E dormi. Meu ultimo, mais sereno e infinito sono.
Caminheiro que viajas a lugar nenhum,
Quando passares, por aqui,
Apanha um lenho qualquer e nele inscreve:
Aqui jaz um homem que amou
E sua amada.




(Publicado com pseudônimo El Carmo na Coletânea LITANIA – O Grito da Esperança - Contemp Editora Ltda, 1989, Salvador-Ba).
Na Coletânea de Contos – Ed.  Scortecci, 2009, São Paulo-SP. Pseudônimo El Carmo.
In,  http://deus-carmo-literatura.blogspot.com.br


Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

E TU SILENCIOSA, APENAS RIAS

















           Porque sou feio tu nem sabes que existo. Porque sou tão pequeno, tu nem me vês, quando te olho. Existo Cristina. Desde o dia em que te vi na capa daquela revista. És alegre, e, no entanto, tens os olhos sensualmente tristes.
          Segui teus passos apreensivamente e vi-te deitada sobre o feno. Tu não te lembras. Corrias vaporosa, talvez, os lugares chique do mundo, quando te tomei pelo braço e te trouxe a meu quarto. Pus u’a música, deliciosamente sensual, na vitrola, perfumei-me com essência de jasmim e corri prus teus braços. Tinhas uma camisola branca com rendinhas amarelas. Olhavas par o teto, pensativa, com a mão direita sob a nuca. Com a esquerda, guarnecias a camisola, talvez por resquícios de pudor. E fiquei minutos em pé a te olhar. Teus cabelos negros. Teus olhos castanhos. Tua boca sempre entreaberta. Eu me lembro. A camisola jazia entre tuas pernas, formando um lindo triângulo. Pairava um cheiro de flores silvestres. Tu não dizias palavra. Parecias estar gostando. Parecias não estar gostando.
          Nu. Eu te olhava. A mão começou a acariciar-me. A esquerda. A direita. Tocava meu rosto. Meu peito. Meu umbigo. Descia por minhas pernas. As unhas faziam cócegas gostosas e engraçadas. Os dedos se enfiavam docemente entre os pelos. Meus olhos se enchiam d’água. Minha boca ressecava. Meus gemidos não te assustavam. Mas eu me recordo. Eram estranhos. Dolorosos. Solitários.
          Às vezes, tu viravas o rosto tristemente e paravas meu movimento. Punhas a cabeça sobre o braço e quedavas pensativa. Descobri um angulo agudo nos teus braços, por onde tu mostravas os teus seios de pontas vermelhas e eriçadas.
Eu recomeçava o jogo. Tinha passado um creme nas mãos par amaciar. Agora me sentia melhor. Te disse que gostaria de ser bailarino, porque acho que um bailarino sabe mais fazer amor. Te prometi fazer um poema inspirado em ti. Talvez tenhas esquecido ou nem saibas disto, mas demoramos mais de duas horas no jogo do amor.
          Tu me prometestes um postal de Roma. Tu me pedias para falar. Falar. Falar. Porque gostavas de ouvir meu falar brasileiro. Eu achava sensual teu falar italiano.
          Eu te coloquei entre minhas pernas e tu gritastes, que estava te amassando. Tinha esquecido a tua fragilidade. Que ânsia. Já eram três horas da manhã e eu não estava cansado, apesar de ter acabado de chegar de longa viagem de ônibus. E pensar que no dia seguinte teria de fazer uma prova às oito na faculdade.
          Eu te expliquei que vivo uma vida atribulada, morando no interior e estudando na Capital. Além do mais, tenho meus problemas financeiros, pois inda este mês, tive dois títulos protestados pelo banco, por falta de pagamento. Que sou bom profissional, porém, ainda não tenho o reconhecimento  público, e que nesta profissão, está mais em jogo os interesses políticos e econômicos do que mesmo a capacidade profissional do indivíduo. E que se fosse um rapagão,  irresponsável,  brincalhão e burro, mais sucesso teria do que sendo cerebral. O jogo do amor se tornava extenuante e demorado. Outras vezes, mal começava, chegava ao orgasmo. Sem graça. Insosso,  egoísta.
          Contigo talvez tenha sido inibição. É um sonho louco ter-te em meus braços, na minha cama, quando sei que todos os homens do mundo te desejam. Tu não te recordas, mas foi preciso repetir o disco várias vezes. Ouvia-se ao longe o latido de cães e a zoada dos autos na avenida. Eu não sabia mais se os latidos ali eram do Animals Dogs de Pink Floyd ou de cães perambulando na madrugada. How  I wish you were here. Chorava a guitarra, cortando minha carne, rasgando minh´alma, chorava eu. Cansado estava. A mão direita não mais suportava movimento algum. Estava disperso. Acendia a luz. Apagava a luz. Olhava tua imagem. Concentrava-me. Em ti. Me lembrava de cenas vistas na infância, algumas das quais eu participara ativamente. Um casal de cachorros. Uma jumenta. Gatos miando no telhado. Os gritos lancinantes de uma porca. O dia em que peguei Terezinha debaixo de um pé de quixaba.
          Não conseguia. Estava molhado de suor. E ia desistir. Me olhavas tão meigamente triste. Lembras-te? Amarrotei teus lábios, teu pescoço, teus seios, teu corpo. Um frêmito perpassou-me todo o corpo. Como uma navalha. Veio do mais dentro de mim um líquido. Cortante. Inundando nossos corpos. Lacerando nossa carne. O perfume do amor invadiu o quarto e a música. Gritei um grito de prazer e dor.
          E tu silenciosa apenas rias.
          E tu silenciosa apenas rias.
          O riso moreno de teus olhos castanhos.
          O sorriso. O mistério da madona.
          Me vi.
          Só.
          As mãos.  Meu corpo. Teu corpo. Umedecidos.
          Enxuguei-me com tua roupa. Tu te lembras? Fui ao banheiro e joguei tuas roupas na cesta de lixo.
           Tu te lembras?



(Publicado na Coletânea GOTA D´ÁGUA, Ed. CONTEMP/GALDEN’s, 1990, Salvador).


Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.



domingo, 17 de abril de 2016

VIAGEM DENTRO DE MIM
















 Relaxa cara eu não vou te matar teria dito eu, ao gordinho que me pediu para não matá-lo. Ele se cagou todo quando botei a arma em cima dele. É nenhuma, meu rei. Você não é o meu. Queria apenas fazer medo, mostrar que vocês todos são uns cagões. Todo mundo pedindo arrego, mas na hora de pegar no meu pé, todo mundo era o porreta. Juro que não queria isto. Nunca pensei nisto, quando a gente vê, já fez. Eu estou aqui, nesta pedra gelada. Cadê  alguém para me buscar? Nem parente, nem derente.  Vergonha? Quando deviam ter, não tiveram. Agora todo mundo é bonzinho, só eu sou monstro. Pensam que não sofri por isto? Ninguém é melhor que ninguém. Só não se tem as mesmas chances. Não reclamava de nada. Iria adiantar? Reclamar, com o jeitinho, senão será pior. Agora inventam coisas. Em minha boca, palavras que nunca disse. Vasculham minha casa, como se fosse um cão danado. Quando só, ninguém me visitava. Minhas memórias, queimaram-nas, pior que a morte. Esconjurado estou, famoso, não. Buscam razões onde não as podem encontrar. A mídia vai à loucura, dinheiro. Ninguém me compra um jasmim, adoçar o ar. Frio nos ossos e na alma que se não partiu, inda atrelada a meu corpo virgem e sedento de amor e compreensão. Anátema. Uns nascem para brilhar, ofuscando outros, debatendo-se na escuridão. Injustiça? quem sabe? como compreender as leis do mundo? Sim, doloroso é. Quando virão  me buscar? Não volto mais, alguém já voltou, para contar da luz, das trevas?  Ficam as obras, para onde fui empurrado? Manchada a família. Qual, Que imagem? A do oprimido? Outros se banqueteiam na orgia e concupiscência. Não tenham medo, logo nos esquecem. O mundo quer escândalos, mas tudo é fugaz, superficial, a essência, ora a essência, motivo de deboche. Vaidade. A aproveita-se da bondade e da inocência e se explora e humilha. Não os levam a sério, não os respeitam, depois surpresos e indignados com a revolta. Estou te estranhando, você nunca foi assim. Querem a submissão, mas ninguém se conhece, pode explodir. Se se sabe, seria pior ou entediante, ou mais perigoso, ou, ou. Um julgamento, sem defesa, cada palavra uma ofensa. Falsidades, deslealdade e hipocrisia. Filisteus, dizia Nietzsche. Um dia se verá que somos, e surgirão heróis, louvados e decantados. Especialistas, na mídia, explicando, doutoralmente, o inexplicável. Os meios de comunicação ganhando com a miséria do mundo. Mentira deslavada empurrada goela abaixo, o rebanho a recebe num misto de medo e prazer. O diferente, vilipendiado e humilhado, seu sofrimento leva a turba ao orgasmo. Não pensar como a maioria, é ser o outro, o infiel, o desleal, o falso, o corrupto e o perverso. Meu velho professor:  Não lute contra esta corja, será esmagado e fui. Ainda aqui, nesta pedra fria. Lá fora, elogios e promoções. Chora a turba. Matariam  mil vezes, se pudessem. Matado já estava, fingiam não ver. Espero que ninguém se mire neste espelho, nem me ache um gênio, nem sentir-se honrado em ser morto. Todos os caminhos levam a Roma, sabedoria é buscar o menos doloroso, embora nem sempre possível. Muitos superam humilhações e abusos, mas, repetindo o chavão,  cada homem é um  mundo. Não se quer entender isto, chocam-se depois, com a revolta do assediado, do humilhado. Não é uma justificação, é reflexão.  Não culpem  ninguém, culpados somos todos nós.  Só o desonesto nega isto. Cometem pecados, dão esmolas. Absolvição, paraíso. Por que não enxergar os negócios sob togas, guarda-pós e batas?  Armas para  vida transmudadas em morte. Agora sou vendido a preço de ouro. Brigam  por uma informação. Melhor recebe, quem melhor paga.  Todos querem tirar uma lasquinha. Nada sabem da história, mas fazem declarações. Pura vaidade. Que não se aproveitem para arrotar valentia. Já nada sou. Que não motejem, bradando palavras que não disse, nem incentivem a violência contra o outro,  as minorias, os diferentes, os desiguais. E vocês, não tenham medo. Daqui pra frente tudo vai ser diferente. Os omissos terão mais cuidado, pensarão mais em vocês. Os hipócritas,  os analfabetos e esnobes, que têm nojo de pobre,  saberão usar as palavras, saberão que a pirraça mata aos poucos, mais cruel do que a ação de matar. Verão o massacre de cada dia, sem o alarde de agora. Monstro, sou, não quando era massacrado. Reflitam sobre os atos do homem, e deixem de fazer espetáculo, só enganam os comedores de novelas,  futebol e carnaval, não os que pensam e se preocupam com o humano. Vocês só se preocupam em mostrar-se, não  em chorar os mortos, porque a morte, como a guerra, só a poucos  beneficia. Lágrimas de ritual, como as carpideiras da Grécia. Um emprego. Alguém me olhou? A conquista de  uma nota no jornal, de  um minuto de fama. Mundo vão. Todos se aproveitam, até o papa Bento XVI, que dizem ter sido nazista, quer aparecer. Por que ele não se ocupa da matança de inocentes nas guerras de conquista no mundo? Com as crianças morrendo de fome?  Por que  não se preocupa em distribuir os bens da igreja aos necessitados? Sanguinário, assassino, monstro sou. Ninguém veio me buscar,  enterrado como um indigente, um qualquer. Vergonha de mim. Sonega-se impostos e não se tem vergonha; Vende-se o próprio corpo por um emprego, um pedaço de pão, uma manchete em jornais e não se tem vergonha; Fabrica-se remédios de farinha de trigo, dosagens falsas e não se tem vergonha; Oferece-se propina em tudo, compra-se coisas furtadas,  roubadas e contrabandeada e não se tem vergonha. Hoje, mais do que nunca estou triste. Enterraram-me. Arrastaram meu corpo, inerte e sem resistência, atiraram-me como bestas-feras. Quem não respeita a vida, vai respeitar a morte? Açougueiros, enaltecidos como heróis. Uma  mídia vomitando  fezes para a multidão tresloucada, tentando incendiar o mundo para apagar com o sangue dos inocentes o fogo que provocou. Não sabe a gentalha que a ela só lhe cabem as migalhas atiradas pelos donos do mundo. Homem, como fostes  enganado pelos séculos além! Sofrestes tu quando eras mutilado no Congo pelos asseclas de Leopoldo II  da Bélgica em troca de borracha? E tu Patrice Lumumba,  por ordem de Eisenhower assassinado? Sofrestes? Amarrado à traseira d´um caminhão, arrastado até Leopoldville.  Executado aos olhos de Tschombe. Te deram defesa? Sofrestes? Exumado por Soete, imerso em ácido e incinerado. Não deixar vestígios. Sofrestes tu Lumumba?  Sofrestes tu quando o papa Urbano II deu inicio às Cruzadas? Homens, mulheres e crianças matando e morrendo em nome de Cristo? Chorastes a carnificina de muçulmanos, árabes e "infiés" que não se submetiam à cruz? Rebanho de noveleiros, fanáticos do futebol, claquetes de programas televisos.

 Mentem como cão danado, falaram em suicídio. Havia escrito uma carta, ainda bem. Tiveram de me engolir. Senão seria outra farsa. Heróis de mentira. E o rebanho engole. Os sonegadores de impostos, os compradores de votos e de cargas roubadas, os falsificadores de licitações estão rindo como hiena na carniça de tudo o que acontece e gozam num orgasmo universal a derriça, instigada pela mídia. Logo, logo que estes profetas se tenham desincumbido desta sórdida tarefa serão defenestrados,  jogados no panacum de cascas podres por esta mesma imprensa e poder econômico que hoje lhes balançam o turíbulo.  




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quarta-feira, 13 de abril de 2016




















Num só pé como a bela Empusa, como Saci-Perêrê, andou, andou. Aba sui aba supé. No prego, o pé furou,  su alma, enterrado. Vidrocaco abriu seu pé, no atravessar rua. Teresinha chama, Teresinha. O pé cortado, curar?  Curado,  pó de café, curado. Ele apareceu de repente com uma lupa na mão, colocando em frente a seu rosto, arrastando-o, como a um sonâmbulo, hipnotizado. Arrastando-o como se arrasta uma zorra. Apelidaram-no de Boi, não se sabe porquê, e, todos lá no colégio o tinham por boi, sem a sabença de qualquer outro nome. Dizia, o povo da roça gostar muito dele, porque não tinha a fiduncia  dos doutores da cidade. Ela era baixinha e tinha um cabelo loiro e um sorriso eterno que se trancou quando ele disse que a amava. No colégio perceberam,  não mais se falavam. Não mais caminhar em liberdade, té  Bruno Seabra, falar, falavam de tudo e coisa nenhuma. Um vendaval os sacudiu atirando-os longe um do outro. Neófito nas coisas do amor,  não atinara que um não poderia ser, no futuro um sim. Lhe deu as costas per a sempre. Agora procura em vão sua beleza, que será certamente como a Duília de lindos seios que Aníbal viu um dia. Onde estarás, doce pássaro de minha juventude? Lágrimas vertidas n´escuridão de minh´alma, fostes em vão. Tempo devora vidas. Ah, trampolinagens nos quintais, vida menino. Vade se cagou todo, quando a velha Rosalina, segurando-o pelo braço, começou a bater-lhe. Do pé d´araçá pulei por riba da cerca, sem tempo de avisar,  quando irrompeu, manguá na mão, por trás das árvores, velha, feia e rabugenta. Joga chapéu, Vade.  Ficou chapéu, araçá veio, rolando pelo chão, cair em minha mão. Solto Vade, ficou o chapéu, denunciador troféu. Roubados  araçás comidos debaixo da quixabeira, no açude, em terras de Antonio Oliveira. De seus  fundilhos, Vade tirava tolocos saídos na agonia, enquanto a  velha lhe batia. Chapéu prova do crime, denuncia Rosalina, uma sova em cada um, mãe é pra bater, escola do sofrimento, torna o homem,  homem. Pequerrucho e novo, Subi no pilão. Caído  sobre pernas e cabeça. Machuca pilão, cambota fica. O pé do jegue. Recebi uma patada. Esmeraldo, vai buscar hortelã nas poças. Nanã machuca hortelã, nos olhos põe, ensanguentados pelo coice.  Inda hoje, ninguém desta  travessura.  Jumento é bicho manhoso, quando sestra, sai de baixo. Na queda, nem a de cavalo. Quando o tino vai chegando,  aprende-se  a lutar com os bichos, que mais parece gente, não falam, mas entendem o que se diz. Um pouco, gente. As fêmeas são até mulher de muito macho, que aprende com elas os segredos da machice. De vez em quando tem um desastre. Arbino não morreu de jega? Pois morreu, foi comer, saiu comido, caído, de braga aberta  achado, pelo coice, d´ovo inchado.  O véi Quinca foi com  bezerra, encontrado no curral, ensangüentado. Quinze dias durou,  a conta de contar, com pejo, o sucedido. O dedo na porca e olho na porta, até estremecer de gozo. Valdemar mandava buscar espinho de mandacaru pra furar as bolhas de bexiga, antes que ela o  matasse, como matou Ramsés V e Luís XV, O Bem Amado. Saía-lhe um pus amarelo. Lenço limpando  a carupemba.  Sai de perto menino, bexiga pega. Se não chovia,  bebia água salobra da presa de Pedro Carneiro. Na feira, Pedro  vendia água de pote.  Está chegado em Capela, meninos marcham em roda da carnaúba, um tambor marcava passos indecisos.  Viu Zé Mancambira  no oitão da casa de Lane, última  na estrada do Noventa. Arremeda  o zunido de um carro. Seu mantra, seu calmante. Arreliavam dele, em sua capa colonial. Roque de Damião gostava de fazer medo.  o mundo ia acabar. Dona Juliana gostava de mijar em pé.  Abria as pernas, xíiiiiiii. Não se importava que a gente visse o rego se  formar. Canta, canta  Maria Pinhão toda tarde, a tarde toda. Roda Pião, roda pião, roda pião.  Dona Rola se  irritava com a inticação da Pinhão. Perder seu marido de vez a Pinhão não  leva não. Não chore não, Lé / pra que chorar,  Lé, / a vida é esta / um amar, outro gozar, Lé. As tanajuras, enquanto vida ainda lhes sobrava, esvoaçavam, esvoaçavam no verão das chuvas primeiras. Zuuuuummm. Os pernambucanos, calejados da seca, as pegavam, concorrendo com pássaros e tatus,  par comer assadas. Cortavam-nas pelo abdômen as jogavam na frigideira, com manteiga ou seu próprio óleo amarelado. Herança de nossos índios e já apreciado por Anchieta e Gabriel Soares de Souza, chegados numa bundinha de tanajura. Cai, cai tanajura na panela da gordura!  Cheiro danado.  Hoje comprovado, fonte de proteína mais que o boi, até projetos em estudos de criatório de formigas e outros insetos. Suprir o mundo de proteína, cada vez mais cara com as carnes tradicionais. Não dizem que formiga faz bem pra vista, e nunca se viu um tamanduá de óculos?  O povo é sábio:
Não existe melhor cura
P'ra doenças de garganta
É bunda de tanajura
E injeção não adianta


Sertão, o flagelo da seca. Morre-se de sede e fome. Estão os homens interessados nisto? Tão barato um poço artesiano. Não, o dinheiro  é só  pras orgias, metrôs, campos de futebol. Grandes obras enriquecem. Mais empresários que políticos, pobre paus-mandados.  Daniel aleijado trabalhava na semana e nos dias de feira pedia esmola. Mordendo a língua  concertava arreios, fazia bainhas. Facas, facões, punhal e punhaletes. Vindo d´aroeira, criou filhos, com exemplo de coragem e abnegação.  Cirilo remendava  sapatos, rindo a morrer do sucesso triste. Só se ria de miséria. Um Diógenes remendão se rindo da miséria do sertão. Que mal havia no mundo que não fosse pra purificação do homem? Não se chora do mal, ele é nosso mestre.  Quem com ele não aprende, com mais nada aprende. Melhor a loucura que o prazer, embebedar-se com o prazer escurece a mente e nos deixamos dominar pelos mais fortes e mais sagazes; Da vida só precisamos viver, melhor viver entre corvos que entre bajuladores. Os corvos só comem os mortos; bajuladores devoram os vivos. Ri é o melhor remédio. Mata tua angustia e a do próximo. Cínico ou estoico  tu Cirilo ensinastes até a quem não imaginastes ter como aluno. N´Aroeira, Pedro Marcilio, vaqueiro,  pega boi no calumbi.  Toda feira bebia, a feira toda. Enciumada de Angerca,  Pedro Marcilio furou, com peixeira na barriga, corria  Constança,  gritaria,  bofe e tripa segurando.  Pedro Marcílio afamado, vaqueiro, dele diziam, caparia de um só golpe, um cabra de Lampião. Dona Oláia fazia suas lapinhas imitadas, mas não igualadas.  Dézinha gritava sua dor, olhos negros sobre todos. Medo? ou proteção  querias?   O povo, sim, tinha medo. Alma penada no mundo. Encosto de  noivo morto.  Paixão. Fuga de noivo, na  lua cheia, na garupa traçoeira do alazão,  amiga leva.  Encarnação do tinhoso. Se fosse na Idade Média, os padres já a tinham queimado,  como se queimou Joana D´Arc, depois virada santa. De possuída a santa. Dizia falar com Deus. Quem és tu pecadora, pra falar com Deus?  Dos mais santos poucos papearam com ele.  E tu presunçosa, blasfemas contra o senhor, dizendo conversar com ele? O que tu ouves? Não é mesmo, a voz de Belzebu, fingindo-se de Deus?





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sexta-feira, 25 de março de 2016

CARNAVAL IEMANJÁ



















Hoje é carnaval na Bahia, mas também, e acima de tudo, Dia de Iemanjá. Abiãs com seus contra-eguns, ogãs, babalaôs, apetebis,  babalorixás, dotês e donês, Tatás de Inquice, mametus de inquice, o alapini do Brasil, assobás, yalorixás, iyakekerês, Iyalaxês, agibonãs, Iyabassês, ajoyês ou ekedis, babakekerês, akepalôs, ogans, yaôs-eleguns com seus idês, ebômins, kakanfós, obás, obaxoruns,  abás, balés, aquirijebós, amobirins e até alibãs, todos devotos, e com seus brajás e aladoris na cabeça, diante do peji,  entoam a saudação à Rainha do Mar, Odô Iyá, filha de Olokum e esposa de Olofin-Odudua: Omi ô odo iyá eruiáque, com seu abebê, certamente abençoará seus filhos dando-lhes muito axé. Tocam o rum, o lê e o rumpi. Inicia-se o padê. Sacodem-se  agés e caxixis. Percute-se  agogôs. Alabês entoam os cantos. Sacodem-se os adés. Começa o xirê. Agbôs ou amassis são feitos. Serve-se o ungê. Acaçás, acarajés, abarás, flores, perfumes, espelhos, enfeites diversos, anéis, colares, fitas, brincos, pentes, bijuterias, jóias, relógios, maquiagens e bonecas, velas, bebidas e comidas, fava  com camarão, cebola e azeite doce e até champanhe são oferecidos,  a Dandalunda, Janaína, Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, Maria, Dona Iemanjá, tudo feito numa ânsia maluca de afastar o ajogun e alcançar o axé. Nas ruas, o samba de roda, o  ijexá, a capoeira, afoxés, muita gente trajando roupas dos rituais do candomblé. Esta é a festa do Rio Vermelho  da Bahia de São Salvador do Brasil. Quem mora no Ponto da Mangueira é um pulo, nem vale a pena uma condução. Todos iam a pé mesmo. Estivera trabalhando até quatro da tarde. Carregando pedras, fazer, na frente da casa, um muro de contenção pois, quando chovia, era água entrando pela frente e saindo pelo fundo de casa,  bem no pé da ladeira do Sobradinho. As irmãs, arrumadas para a festa, saíram já. A patota do Colégio Manoel Devoto. Quantas delas, olhar distante, disfarçado e erradio, não cobiçara! Que elas não o vissem assim apalermado. Lembra-se, tantas, belas. Vera, Neila, Margarida. Alice, Beatriz e Aimar. Tomou seu banho, tirar o suor das pedras, pôs a melhor roupa, brilhantina no maracanã jogou um pouco de colônia 1010, penteado o maracanã com brilhantina, partiu para  o Yemanjá, ver as garotas, paquerar,  se declarar. Um não, que medo. Pela linha do bonde, não sujar de lama  os sapatos. Escurecia no Largo de Santana, tocando pó Trio Elétrico Tapajós. Meninas em cordões, ora serpenteando,  ora fazendo rodas. Visão eterna mil vezes, como no Carnaval em Colônia. Valquírias, azuis os olhos que nem o céu da Bahia. Em voga, a cabeça de côco, um cabelo curto, surucos, anjos barrocos. Uma, de olhos tão verdes, como os de Aurinha, cortavam a alma. O flerte de tocar os cabelos compridos era agora, acariciar a cabeça como a se consolar uma criança. O sorriso era a senha, mas poucos ousavam tocar-lhes, mesmo sabendo estarem ali pra isso, serem tocados por um macho. Se lhe agradasse, sorte dele. Se não, azar dele. Chamavam irmãos ou parentes ou a polícia e a confusão estava formada. Quantos marmanjos, não foram presos? Sim, por um inocente toque de cabelo? Quantas brigas, quantas?   Bulhas surgiam de repente e se batiam contra todos, sem saber o porquê da contenda e quando chegava a polícia, prendia-se, freqüentemente, os que tentavam separar  os brigões. Conhecidas estas festas de Largo - Boa Viagem, Lapinha, Bonfim, Ribeira, Conceição e Iemanjá - alegria do baiano, onde se fazia a paquera, origem de casamentos e separações. Todos andavam ombro a ombro, embora outros, privilegiados, assistissem a festa confortavelmente em casas de parentes e amigos. Iemanjá. Ele,  só, no branco da multidão. Aqui, os requebros dun’a mulata, ali, o doce olhar da cor de mel, acolá, feitiço do verde apaixonado, mais ali, o misterioso azul do mar, e, mais na  frente, o profundo negro do olhar. Todas lindas, moças da Bahia. Não estava acostumado à algazarra juvenil de quem criado com a liberdade das ruas, sem as amarras do claustro, pouco afeitos às meditações e introspecção. Quem, privilegiado, embora, bolsista, estuda num caro internato, sofre com o isolamento. Depois vem a timidez, aversão às multidões, medo da rejeição. A vida em colégios internos, cortou-lhe a presença feminina, a iniciação no álcool e no fumo, muleta e combustível juvenis, terrível experiência  dificultando-lhe a comunicação com sua geração, sempre traumática e desoladora. Censuravam-lhe o falar, escolhendo palavras,  sem gírias, sem  palavrões, o vestir-se  fora da moda, como pessoa de outro mundo. Quando no Duque de Caxias, a professora de inglês organizara um passeio à praia de Inema, local já na época privilegiado, (Área residencial de oficiais da Marinha), hoje, famosa no mundo, porque refúgio das lidas de presidentes - Lula e Dilma - descanso  da faina política, no carnaval,  páscoa...  Tempos de rudeza. A tradição, o tabu se debatendo com  as novidades da industria cultural da Europa e Norteamérica. Preso  ao passado, sem roupas de praia, sem sandálias, um alienígena.  As moças, mais afoitas, entraram n´água, os rapazes na areia. A professora ficara na areia com algumas moças. Cadê as mulheres? Perguntou. Todos coraram e ele, atormentado pelo resto do dia.  Todos se entreolharam, um silencio ouvido pelas ondas perpassou. Percebendo sua gafe quis consertar, mas a emenda saiu pior do que o soneto. Mas, não é mulher mesmo? Elas são homens por acaso? Novo silêncio, agora acompanhado de uma certa reprovação no olhar de todos. É que naquela época, dizer mulher era o mesmo que chamar puta. Dizia-se, pomposamente, minha esposa. As solteiras, simplesmente moça, ofensa, chamar moça de mulher. Ofensa  sem perdão.  Traumático, sempre, o embate de gerações. O novo e o passado. Não se admite  mudanças. Sempre perigosa,  quem a quer é louco, ou degenerado. Nas cavernas, quem sabe?  Ser jovem é não ter juízo, sem responsabilidade. Quem mais se parece com os velhos,  é tido como adulto, com juízo,  exemplo a ser  seguido. Por que você não faz como fulano de tal? Ali, sim que é um rapaz ajuizado. Um homem que todo pai queria pra sua filha. Ah se  não fossem os doidos, os sem juízos. Que seria deste mundo? Estaríamos ainda na idade da pedra lascada. Topada é que leva  homem pra frente, diz o ditado.
Mas, como felizmente, o homem não é feito só de barro e sopro divino, como querem os criacionistas,  é antes de tudo o criador do mundo, ou seu próprio criador, na medida em que ele faz sua historia, faz a historia do mundo, ele inventa, ele cria, ele surpreende. Quem duvida de que um dia o homem lascou a pedra e a tomou como instrumento e arma? Que depois a poliu com os mesmos fins? Quem vive o que se vive agora, com as facilidades que a tecnologia lhe garante não pode ter dúvida de que tudo isto foi criado pela mente humana. Se assim não fora, como explicar a diversidade de vida e visões que o homem tem demonstrado ao longo de séculos? Por isto que não se deve lastimar a existência dos arredios e foras do contexto. Serventia, eles têm, é só buscar e ver. Equilíbrio do mundo, por exemplo. Não? Se todos fossem à guerra com igual ímpeto, quantos sobrariam pra contar a história? O mundo é o homem e cada homem tem seu mundo.

Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

quinta-feira, 24 de março de 2016

MAMAN GABRIELLE

















Levou muito tempo discutindo sobre seu nome. Conta-lhe a história  e origem dos nomes. Chamava-se Bernadette, passara  a ser conhecida como maman Bernadette, protetora de estudantes estrangeiros. Conseguira boas colocações aos que ali passaram. Davi Verner, havia-lhe indicado esta mecenas. Havia passado por suas mãos, mas não tivera tempo de burilar o ator que havia dentro dele, nem arranjar-lhe um contato com o grand monde.
Ficou deveras impressionado com a velha senhora. Um turbilhão. Quase nada entendeu,  mas assim mesmo conversaram. Queria fazer  jornalismo, sobreviver com ele. Deixar  de lado o direito iniciado na Bahia. Talvez, uma porta pro  cinema, sua verdadeira paixão. Elle bavardait.  Prometeu apresentá-lo a ilustres personagens, dando-lhe oportunidade de fazer artigos  pra publicar no Brasil. E de logo ficou acertado que deveria levá-la a um jantar, à la campagne. Um jantar e a  vernissage do pintor amigo, anfitrião. Je vous donne rendez-vous pour jeudi, trois heures. Disse e estendeu-lhe a mão. Bela maneira de  mandá-lo embora.
Quinta-feira. Sim. Quinta-feira, maman Bernadette marcou rendez-vous. Meu Deus,  o que poderia acontecer? Uma exposição de pintura, um jantar em casa de um amigo, à la campagne.  Seu conhecimento de francês não chegava a entender o real sentido da palavra rendez-vous. No Brasil rendez-vous é lugar de orgia e libertinagem. Brega. O homem sempre teve o hábito de se apropriar de um termo de outra língua ou mesmo da mesma língua e modificar inteiramente o seu sentido. Os linguistas chamam isto de mudança semântica. Rendez-Vous virou nas bocas tupiniquins, simplesmente  brega, lugar de encontros pouco recomendáveis. Um dia, com Claudio, no Quatier Latin, perto da Coupole, entram cinco brasileiros,  chamava-se embaixadas, viagens de estudantes em fim de curso. Com Claudio quase, se falavam em francês, por isto o grupo não percebeu serem brasileiros. Perguntavam-se. E agora, como é garçon em francês? Cláudio chama o garçon. Aturdidos, vejam, garçon é o mesmo que em português. Isto não é colonialismo? Perde-se  até a noção da língua.  Mas voltemos à  velha, ainda que esta história tenha acontecido realmente, não poderá servir de pretexto a digressões político-filosóficas, em detrimento da verdadeira história de Maman Bernadette ou de seus coadjuvantes, porque parece só existir protagonista, desde que os gregos o inventaram, nos livros, nos romances, nas novelas, na real, na vida de cada dia,  meros coadjuvantes somos, quão  diminutos  diante da portentosa e brava natureza. Imaginou  lindas francesas em orgia no passeio à la campagne, Jeudi trois heures, não obstante se mostrasse aquela velha senhora de uma religiosidade a toda prova, com terço de ouro nas mãos que ela parecia dedilhar mecanicamente, balbuciando aqui e acolá palavras da Ave Maria, do credo, da jaculatória, do Pai Nosso  denunciando sua devoção e fidelidade à recomendação de Maria quando, dizem,  entregou-o a São Domingos como arma poderosa contra as tentações do demônio e conversão dos hereges. Vestidinho composto, negro como as roupas das portuguesas, mas de corte elegante como são as roupas dos franceses, mestres do vestuário e da perfumaria. Semiparaplégica, andava  com dificuldade com o auxilio de muletas. Um rostinho  quadriredondo, como costumam ter as francesas. Tipo mignon,  que se pode traduzir como  pequena e  bela. Uma mulher feia não é mignon, é petitte. Precisa, o francês,  talvez mais  que o português. O partitivo,  por exemplo, evidências da precisão. Não se bebe água, bebe-se da água, não toda água do mundo.  Boire de l´eau. Talvez, por isto o positivismo francês. Não podia imaginar aquele rosto encostado ao meu,  aqueles lábios finos, quase uma lombriga, tocando os meus. Nas manhãs calorentas ou chuvosas, mães acordavam os filhos, caneca de  óleo de rícino na mãos. Segurar uma colher, não vomitar. Expulsar os vermes. A saia saía botando vermes de todos os tamanhos. As vezes iam saindo dois, três, e a gente era obrigado a puxá-las como macarrão puxado pelo filete do escorredor. Quando saído do sertão, viu o macarrão pela primeira vez, lembrou-se dos vermes saídos do fiofó.  Estão rindo de quê? Nojo? Que culpa tenho de que não tenham vivido a vida? Não tenham nada par  contar?  Só mentiras. Conquistas nunca realizadas? Posso voltar a Maman Bernadette?  Seu hálito exalava um cheiro apodrecido, mas  simpática no seu sorriso. Carecia dela. Ajudar nos meus sonhos. Errado, usar as pessoas. Prostituição, corrupção.  Muitos pensam que só se corrompe por dinheiro.  Poder-se-á ser traído pelos próprios pensamentos. Alguém também estará tentando usar você. Vence o melhor, como na natureza. O mais preparado. Eu, o mais fraco.  A educação  franciscano-jesuítica impedia avançar sobre as barreiras da moral. Neanmoins, deixemos que o barco da vida nos conduza. Sem atropelo, sem premeditação. Seja o que Deus quiser. Mundacho torto, como dizia o bom frei Teodoro nos corredores do Convento da Piedade da Bahia. O mundo é mesmo torto, mas ainda assim, vale. Anos depois ouvirá alguém dizer: Oh mundão, não acaba não, mundão.
Quinta-feira, do português, como quis Martinho de Braga. Dia de Júpiter. Jeudi. La mama o recebe esplendorosa em seu tailleur noir e manteau Cardin. Não era uma paraplegia que a atormentasse, mas, muito mais uma espondilite que a mantinha curvada sobre o próprio corpo, com certa elegância, entretanto. As muletas eram-lhe útil, certo que não se movia sem elas. Pena que morasse no quinto andar. Posso  dizer-te que desceram a escada? Ou pegaram  o elevador? Ela, pelo elevador, sem dúvida. Engenhoca em metais, barulhenta, cujas portas gradeadas se abriam encolhendo como sanfona, usado só na subida, descer pela escada, medida de economia. Que importam estes detalhes? Num realista isto é importante. Tudo é importante. Mas se se disser que tudo não passa de um sonho? Como se lembrar inteiramente de um sonho?  Perdem-se os contornos, como se fora num lusco-fusco a caminho da noite.  Como se se tivesse nos olhos uma espessa membrana, que mau deixa entrever a massa disforme das coisas. Tempo é a noite da memória. Realidade vira sonho perdido na escuridão, mesmo que se tente puxá-la pra perto. Se vêm, chega em pedaços disformes, sem cronologia, truncados um nos outros, como num quadro abstrato, religar impossível.
Me vi, se viram no táxi. Ela, a mãezinha bavardait como um papagaio, como a nega do leite, diriam avoengos.  Vovô. Batia colher de pau em minha cabeça, que  eu falasse sem gaguejar. Falar não me é mais constrangedor, enjoa, mais ainda  quando  se entende o que se diz e o que se não diz.  Toda palavra tem um sentido, o que tu vês e o que não vês. La mère falava. Com a cabeça, ora com os olhos  acenava-lhe, apenas. Por que mentir? Não estava entendendo muita coisa. Falam depressa os franceses, pouco se lhes importam que estejamos ou não entendendo. Nós nos esforçamos pra sermos  entendidos, até tentamos falar com  o sotaque estrangeiro. Parecer  chique. Orgulhamo-nos de falar inglês, mas não temos vergonha de assassinar o português. Mentalidade de colonizado, de escravo. Não o francês. Vive cem anos em um país e continua falando com sotaque, mesmo que pareça  amar este país mais do o seu próprio, como Pierre Verger, o babalaô  Fatumbi  que renasceu na Bahia pela graça de Ifá.
Cedo chegaram. O taxi os deixou à porta do castelo. Era um destes castelos entre tantos existentes na França, de construção medieval. Acostumados à taipa e telha vã dos musseques de Salvador da Bahia seus olhos cresceram, como os de um gato na escuridão. Recebidos por Monsieur Grillon, um senhor   circunspecto, mas simpático que os levou a uma sala ao rés-do-chão na ala esquerda do prédio, onde estavam expostos seus quadros em pintura abstrata.  Nada entendia  de pintura,  muito menos abstrata. Poderia se enfeitiçar pelas cores, porque em verdade a cor é tudo na vida. Se tudo fosse visto em preto e branco a vida seria muito monótona. As cores tornam a vida doce e agradável. Quando bate a seca no sertão, esturricado, ocre e chato o chão. Também o gelo virado lama, o branco é cinza, é preto, desolação. Flocos de neve caindo à  noitinha. Paris, mais que uma festa. Como tanajuras caindo nas tardes do sertão. Não só ele, abestalhados, todos ficam com a neve. Crianças e adultos brincam,  batalhas no gelo. Um punhado de neve na cara. Sorrisos largos. No Ceará não tem disto não. No degelo, o coração gela. Um café, um chá, um conhaque, suportar o frio. Foi  no degelo,  vindos de Maman Bernadette, ele e Jussiê,   ofendidos porque, sem dinheiro, entraram num bar,  esquentar o frio.  Dehors étranger de la merde, berrou o francês com seu hálito azedo de vinho barato. Uma gorda senhora gloterava como cegonha, mostrando, despudoradamente, os dentes apodrecidos pelas cebolas malcozidas de sua sopa.





Continua no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

sábado, 19 de março de 2016

NECO PRETO


















Passa o gancho, disse Neco Preto. Vi e ouvi. Pegou da rabeca e foi derreando-se sobre o tapete verde do bilhar. Seu corpo crescia sobre a sinuca e o silêncio invadiu o ar daquela tarde. João de Maninho,  dono do bar,  (um fuzuê podia acontecer)  lançou um olhar de gato assustado sobre o preto Neco.  É tudo ou nada, disse este, num disfarce. Ariston sorria pelos cantos. O de fora desconfiava. Apruma o taco, Neco danado. Dizia como querendo convencer ao meteco de que era um pixote. Um pouco à direita. Não, demais,  esquerda. Atrás,um pouquito. Afasta-se, cismando, como indeciso da jogada. Manha de quem quer enganar os incautos. Já perdera mais de cinco e esta era a negra, valendo tudo o que tinha no bolso, o outro que depositara na caçapa,  o que ganhara e o que trouxera. Cantou. Bola sete. Limava, limava a bola. Suave saiu bola branca rolando sobre o tapete verde. Ouvia-se o zunir d´insetos, como num coro, em contraponto. Nem o assum-preto, na gaiola, cantou.  Bate a branca, a bola preta, devagar caminha, mansa, serena, baqueando-se em boca aberta, sem dó, sem compaixão do fulano forasteiro, revoltado pela enganação. Quem quer ganhar não quer perder, mas quem há de contestar o nego Neco? Assim  fazia, com quem aparecia com ares de bom jogador de sinuca. Roubar, não era roubo. Ensaiava fífias, repiques e furadas no inicio, astúcia:  ganhar o dinheirim do caba que chegava bufando sabedoria e fidúncia na sua roupa engomada. De quem arrelia fazia, arreliado ficava. Sinuca, quase distração única daquela gente, sacudida por secas, valentões e borrascas que amedrontavam a todos, obrigados a cobrir espelhos e metais, por medo de coriscos e raios infernais. Almas crentes e simples dominadas por lendas brancas, negras e indígenas.  Caiporas castigando caçadores desobedientes das regras da natureza;  o preto velho, bom pra uns e maligno paroutros. Neco Preto era a arrelia do sertão. Engomado no seu fato de linho branco contrastando com sua pele de azeviche, podia-se ver, por entre as calças, o cabo do punhal incrustado de oiro e prata.  Nem a valentia de Duardo da Pedra Bonita o amedrontava. Mas ninguém, nunca num viu o preto Neco numa briga de verdade. Apenas respeitavam. O nego tinha mandingas africanas aprendidas dos pretos velhos do sertão. Sabia jogar cangapé como ninguém e derrubava qualquer um que se fizesse de besta.  Medo dos negros,  advindo, talvez, com divulgação da revolta dos Nagô-Minas, adeptos do Alcorão, a Revolta dos Malês, propiciando  o desenvolvimento de um latente racismo e discriminação contra toda sorte de cafre. Negro era inimigo. Herança maldita, vergonha de ser negro, mesmo quando deixou  de ser coisa, com a abolição. E  apesar de se tratá-los  de maneira carinhosa,  por medo ou respeito, sentia-se no ar certo ressentimento de parte a parte. Todo negro sabia lutar cangapé, tocar o berra-boi, de som exótico, e era senhor de mandingas e mistérios d´África capaz de transformar um cristão num sapo ou numa pedra. Em Capela, n´ Aroeira, negro morava em pequenas comunidades, quase sempre em terrenos pouco férteis que o branco não se apropriara. Vendiam o dia no macaco, e poucos tinham chegado à condição de proprietário. Abolição formal, mais prejuízo que beneficio: Deixou o negro ao deus dará sem nem mesmo ter pronde ir. Neco não tinha profissão definida, mas andava sempre com dinheiro e bem vestido, e, à parte as trapaças no jogo, era de uma honestidade à toda prova. Quem nunca o viu, preto no chapéu baeta, engomado no linho branco? Mais de jogo vivia que de trabalho, só com a chuva sumia: mandioca, milho, feijão, mamona,  fumo em manoca, de suas mãos. O povo de Baio padeiro, de Monte Alegre, negros corridos da morfeia, eram mestres charuteiros. Dobra fumo, enrola fumo, arte nas mãos. Do lado da Rua Nova, Baio fazia pão. Marcados, ritmados murros, a massa, o cocho, o baticum até noitão. Fazer a liga, esticar o bolo e cortar o pão nosso de cada dia, (só na oração),  jogado ao forno em brasa ardente.  Luxo na mesa  do sertão. Pisara muito milho, peneirou xerém,  quirera do angu. Cuscuz, mingau e mungunzá eram  nossa tamina, como as que se davam aos escravos. Os pernambucanos moíam o milho na mó. Ver cair o milho quebrado pelas beiradas da pedra era uma festa, como os metais da nona em Dvorak. Ver isto, não é sonhar, é ser iniciado. Mistérios da vida.  Mestre não é o lar, nem a escola,  é a própria vida transbordando a cada momento, que embora pareça obedecer a uma cronologia deixa de o ser,  na medida em que sua rememoração ressurge,  basta  qualquer detalhe, uma fagulha qualquer e lá está inteira a cena vivida em datas imemoriais. O passado é o presente que é passado que é futuro. Prova disto tive e mais de uma. Anos se passaram quando me apareceu um cliente.  Havia-se aposentado e levara deste jubilamento um bom dinheiro. Largara a mulher e arranjou uma amante. Com o dinheiro da aposentadoria construiu uma casa em terreno desta mulher, a qual, logo se vendo dentro dela, expulsou-o de casa e ficou de posse do bem. Interrogado um dia sobre um assunto do qual nem me recordo mais, ele lançou um olhar e um sorriso que me fez voltar mais de cinqüenta anos, ao esplendor da minha juventude. Repentina e claramente vi Renato em sua singela  casa, espremida entre os casarões senhoriais da Barra Avenida, os dias na Escola Santa Rita, no Chame-Chame, com  seu irmão Reginaldo. Ao largar da escola passeávamos pelas chácaras, onde hoje é Avenida Centenário, chupávamos doces mangas roubadas e ofertadas pelos chacareiros e depois de esquadrinhar todos aqueles lugares à sombra de mangueiras, tamarineiros, araçazeiros, abacateiros, jaqueiras e bananeiras subíamos a ladeira. Avenida Princesa Leopoldina e na esquina do Hospital Português e tomávamos a Princesa Isabel até sua casa. Quase que não tínhamos mais fome de tanto comer frutas nesta caminhada. A divisão do tempo, presente, passado e futuro é artificial, atende apenas a nossa incapacidade de perceber o todo como eternidade. Bento Espinosa não disse que é impossível atribuir tempo a Deus? Que no momento em que lhe atribuíssemos uma seqüencia de passado, presente e futuro estaríamos reconhecendo sua finitude o que seria impossível em se tratando de Deus? Este eterno revolver, esta constante mudança, como, observou Heráclito, acaba por ser o próprio Deus.  Deus não seria o criador, mas a própria criação, a eterna mudança, em contraposição ao pensamento de Parmênides que via no passado, no estático o próprio ser. Não se pode obscurecer o principio da dinâmica porque ela é palpável, observável, sentida. Se me lembro de Neco Preto vejo todas suas peripécias,  capaz até de ouvir sua voz é porque dentro de mim, como dentro de cada um de nós, há um deus que não queremos reconhecer, mas que existe, existe. Está presentepassadofuturo, presenpassafutu, prepasfu.
Sonhos de  menino embalado por cantigas de roda na lua bonita, por chulas e batuques  dos Santos Reis, São Pedro  e  São João. Cada vaqueiro um herói, amansador de burro bravo, carregador de caminhão, cantador de cantoria, violeiro do sertão, homem valente na enxada, foice, machado, facão. Lembranças, cicatrizes ficam n´alma e  corpo,  passado, presente, futuro.
Doce, amargo, azedo pode ser, um sorvete, ou queimar  como flama. O da Primavera, (lá no Farol da Barra),  queimou su´alma. O bom é um eterno inocente, montaria dos sabidos e perversos, escada dos gananciosos.
Um dia, lendo as confissões de Jean-Jacques Rousseau, teve a luz do que lhe acontecera mais vinte anos antes. Menino, saiu com a patroa,  comprar sorvete.  Morava com uma família tradicional e abastada de Salvador da Bahia. Ele, deputado estadual,  ia receber um deputado federal do Partido Republicano. Levava D. Aurea Maria,  uma nota de vinte cruzeiros. Desce do carro com um vasilhame  do sorvete, o menino fica,  volta ela sem ele. Estranhou não ter comprado o sorvete. Por que não comprou o sorvete, D. Áurea? Inocente pergunta.  Não, não quero mais comprar sorvete. Fria resposta.


Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.