Enquanto
se remoía no salão as ideias mais estapafúrdias, Dá, saiu a respirar, no quintal, um pouco abandonado
do sobrado. Algumas ervas estavam cortadas por ela que pastava e comia a
ração diária. Um cocho de comida, outro
d´água. Estava deitada ruminando, de ubre túrgido. Ele a tocou, em cada teta. Ela pareceu gostar, túrgido também ficou. Ao repuxo das tetas, branco leite esguichou
cálido sobre suas mãos, umedecendo-as delicadamente. Ouvia-se o burburinho, mas
não se podia distinguir vozes. A mão se insinuava entre as tetas. Um fogaréu
tomou conta do corpo. Maravilhado. Quanto tempo, mesmo presentes corpos lindos,
não acontecia. Perder a oportunidade, não podia, nem devia, apenas cuidar. Não
ser pegado nesta função zoofílica. Ânsia e medo de denunciar sua parafilia. A
mão nas tetas escorregava lentamente até a xiranha intumescida e quente.
Suavemente o vai e vem e o balido suspirado misturado às vozes vindas das
varandas. Cuidar, que venha logo, que não venha
um curioso atrapalhar. Jogar sal no fogo espantar o azar. Onde está o
fogo? Cadê o sal? Se sair daqui amolece, e adeus saudade. Melhor continuar,
mesmo que arriscado. Um friozinho bateu no espinhaço, quando chegou à copa
beber água. Cantarolava uma canção não quero ser carneiro nem a ovelha
tosquiada do peão. Vozes, vozes se
misturam ao grito. Horus, vai é tarde, horas de te recolheres à tua morada. Uma mulher divinal apareceu, seu rosto transbordava alegria, trazia na cabeça um disco solar, ornado de dois chifres em forma de lira, seu corpo esguio era-o de mulher e de uma vaca, pintada de estrelas. Horus, se aninhou no seu colo e adormeceu.
quarta-feira, 4 de maio de 2016
sexta-feira, 22 de abril de 2016
ULTIMO SONO
Ouviam-se
apenas os estalidos das folhas crestadas pelo sol. Caiam retorcidas sobre o
chão quente e endurecido. Nem cigarras, nem pássaros, nem farfalhar de folhas.
Não havia. Tudo era plano, quieto e cortado por numerosos caminhos que se
cruzavam e não levavam a lugar algum.
Caminhava,
por caminhar. Lá e cá, mandacarus abriam seus braços espinhosos. E deitavam sua
magra sombra sobre a areia esturricada. Gravatás, xique-xiques e mancambiras
ornavam a terra quente e pedregosa. Caminhava. E vi seu corpo moreno estendido
ao longo de uma vereda.
Sob
o céu azul, inúmeros pontos negros ensombravam o chão, outros pousavam
simplesmente sobre galhos de mato seco. Angicos, sumarentas quixabeiras e
sempre verdes juazeiros. A boca entreaberta deixava adivinhar pedaços de carne
sujos de sangue coagulado. Outros, arrastavam-se pela areia carregando a carne
que era sua. Alguns dormiam a sesta, após saciarem-se do banquete que lhe fora
oferecido.
Seu
corpo moreno. Seus olhos, antes feiticeiros, travessos, eram dois buracos
negros que levavam não se sabe aonde. Seus seios. Pequenos, sensíveis - quanto
eu os afagara! – agora, assemelhavam-se a dois pequenos formigueiros povoados
por larvas e vermes hediondos.
Seus
lábios. Antes doces e suaves, tinham o gosto de sangue putrefacto. O corpo todo, antes, repleto de graciosas
curvas sacudidas por vibrações eletrizantes, deixava antever, aqui e ali, por
entre as chagas supuradas, toda sua conformação óssea.
O
monte de Vênus, onde se escondiam supremas delicias, era uma cratera imunda
visitada por moscas, mosquitos e aves de rapina. Estas, apoderavam-se, de
quando em quando, de seu corpo, de sua carne, indo ao depois brigar ao longe pelo maior bocado.
Eu
me acerquei cambaleante de minha amada. Exalava um fétido ar que entrava em
mim, provocando-me náuseas e vômitos,
como se tivesse bebido todas as adegas
do mundo.
Fiz-me
forte e me acerquei mais ainda de seu corpo. E minhas pernas dobraram-se. Meus
joelhos sangraram o solo que o sol queimava. Com o estrépito de meu corpo sobre
o chão, afugentaram-se algumas aves que insistiam e aproveitavam-se dos últimos
bocados de minha amada. Planaram preguiçosamente, pousando aos poucos em mandacarus de braços abertos.
Meus
olhos regaram o esturricado chão tropical. Meus braços abriram-se e minha
boca. Triste foi minha voz não encontrar eco. Ela sabia que eu amava sua voz.
Mais triste ainda foi não ver o seu sorriso, nem ouvir os seus gemidos. Os mais
belos.
E
ali. – Eu – à vista de seus últimos e mais fiéis amigos, realizei o meu derradeiro e interminável ato
de amor. E abraçado aos seus restos, fui-me apoderando de uma sonolência
tranqüila e galopante. E fui dormindo. Fui dormindo. Dormindo. E dormi. Meu
ultimo, mais sereno e infinito sono.
Caminheiro
que viajas a lugar nenhum,
Quando
passares, por aqui,
Apanha
um lenho qualquer e nele inscreve:
Aqui
jaz um homem que amou
E
sua amada.
(Publicado com
pseudônimo El Carmo na Coletânea LITANIA – O Grito da Esperança - Contemp
Editora Ltda, 1989, Salvador-Ba).
Na Coletânea de
Contos – Ed. Scortecci, 2009, São
Paulo-SP. Pseudônimo El Carmo.
In, http://deus-carmo-literatura.blogspot.com.br
Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.
Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.
quarta-feira, 20 de abril de 2016
E TU SILENCIOSA, APENAS RIAS
Porque sou feio tu nem sabes que
existo. Porque sou tão pequeno, tu nem me vês, quando te olho. Existo Cristina.
Desde o dia em que te vi na capa daquela revista. És alegre, e, no entanto,
tens os olhos sensualmente tristes.
Segui teus passos apreensivamente e
vi-te deitada sobre o feno. Tu não te lembras. Corrias vaporosa, talvez, os
lugares chique do mundo, quando te tomei pelo braço e te trouxe a meu quarto.
Pus u’a música, deliciosamente sensual, na vitrola, perfumei-me com essência de
jasmim e corri prus teus braços. Tinhas uma camisola branca com rendinhas
amarelas. Olhavas par o teto, pensativa, com a mão direita sob a nuca. Com a
esquerda, guarnecias a camisola, talvez por resquícios de pudor. E fiquei
minutos em pé a te olhar. Teus cabelos negros. Teus olhos castanhos. Tua boca
sempre entreaberta. Eu me lembro. A camisola jazia entre tuas pernas, formando
um lindo triângulo. Pairava um cheiro de flores silvestres. Tu não dizias
palavra. Parecias estar gostando. Parecias não estar gostando.
Nu. Eu te olhava. A mão começou a acariciar-me. A esquerda. A direita.
Tocava meu rosto. Meu peito. Meu umbigo. Descia por minhas pernas. As unhas
faziam cócegas gostosas e engraçadas. Os dedos se enfiavam docemente entre os
pelos. Meus olhos se enchiam d’água. Minha boca ressecava. Meus gemidos não te
assustavam. Mas eu me recordo. Eram estranhos. Dolorosos. Solitários.
Às vezes, tu viravas o rosto tristemente e paravas meu movimento. Punhas
a cabeça sobre o braço e quedavas pensativa. Descobri um angulo agudo nos teus
braços, por onde tu mostravas os teus seios de pontas vermelhas e eriçadas.
Eu recomeçava o jogo. Tinha passado um creme nas
mãos par amaciar. Agora me sentia melhor. Te disse que gostaria de ser
bailarino, porque acho que um bailarino sabe mais fazer amor. Te prometi fazer
um poema inspirado em ti. Talvez tenhas esquecido ou nem saibas disto, mas demoramos
mais de duas horas no jogo do amor.
Tu me prometestes um postal de Roma.
Tu me pedias para falar. Falar. Falar. Porque gostavas de ouvir meu falar
brasileiro. Eu achava sensual teu falar italiano.
Eu te coloquei entre minhas pernas e
tu gritastes, que estava te amassando. Tinha esquecido a tua fragilidade. Que
ânsia. Já eram três horas da manhã e eu não estava cansado, apesar de ter
acabado de chegar de longa viagem de ônibus. E pensar que no dia seguinte teria
de fazer uma prova às oito na faculdade.
Eu te expliquei que vivo uma vida
atribulada, morando no interior e estudando na Capital. Além do mais, tenho
meus problemas financeiros, pois inda este mês, tive dois títulos protestados
pelo banco, por falta de pagamento. Que sou bom profissional, porém, ainda não
tenho o reconhecimento público, e que
nesta profissão, está mais em jogo os interesses políticos e econômicos do que
mesmo a capacidade profissional do indivíduo. E que se fosse um rapagão, irresponsável, brincalhão e burro, mais sucesso teria do que
sendo cerebral. O jogo do amor se tornava extenuante e demorado. Outras vezes,
mal começava, chegava ao orgasmo. Sem graça. Insosso, egoísta.
Contigo talvez tenha sido inibição. É
um sonho louco ter-te em meus braços, na minha cama, quando sei que todos os
homens do mundo te desejam. Tu não te recordas, mas foi preciso repetir o disco
várias vezes. Ouvia-se ao longe o latido de cães e a zoada dos autos na
avenida. Eu não sabia mais se os latidos ali eram do Animals Dogs de Pink Floyd
ou de cães perambulando na madrugada. How
I wish you were here. Chorava a guitarra, cortando minha carne, rasgando
minh´alma, chorava eu. Cansado estava. A mão direita não mais suportava
movimento algum. Estava disperso. Acendia a luz. Apagava a luz. Olhava tua
imagem. Concentrava-me. Em ti. Me lembrava de cenas vistas na infância, algumas
das quais eu participara ativamente. Um casal de cachorros. Uma jumenta. Gatos
miando no telhado. Os gritos lancinantes de uma porca. O dia em que peguei
Terezinha debaixo de um pé de quixaba.
Não conseguia. Estava molhado de
suor. E ia desistir. Me olhavas tão meigamente triste. Lembras-te? Amarrotei
teus lábios, teu pescoço, teus seios, teu corpo. Um frêmito perpassou-me todo o
corpo. Como uma navalha. Veio do mais dentro de mim um líquido. Cortante.
Inundando nossos corpos. Lacerando nossa carne. O perfume do amor invadiu o
quarto e a música. Gritei um grito de prazer e dor.
E tu silenciosa apenas rias.
E tu silenciosa apenas rias.
O riso moreno de teus olhos
castanhos.
O sorriso. O mistério da madona.
Me vi.
Só.
As mãos. Meu corpo. Teu corpo. Umedecidos.
Enxuguei-me com tua roupa. Tu te
lembras? Fui ao banheiro e joguei tuas roupas na cesta de lixo.
Tu te lembras?
(Publicado
na Coletânea GOTA D´ÁGUA, Ed. CONTEMP/GALDEN’s, 1990, Salvador).
Em
29.05.210 no blogue http://deus-carmo-literatura.blogspot.com.br/2010/05/e-tu-silenciosa-apenas-rias.html
Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.
domingo, 17 de abril de 2016
VIAGEM DENTRO DE MIM
Relaxa cara eu não vou te matar teria dito eu, ao gordinho que me pediu para não matá-lo. Ele se cagou todo quando botei a arma em cima dele. É nenhuma, meu rei. Você não é o meu. Queria apenas fazer medo, mostrar que vocês todos são uns cagões. Todo mundo pedindo arrego, mas na hora de pegar no meu pé, todo mundo era o porreta. Juro que não queria isto. Nunca pensei nisto, quando a gente vê, já fez. Eu estou aqui, nesta pedra gelada. Cadê alguém para me buscar? Nem parente, nem derente. Vergonha? Quando deviam ter, não tiveram. Agora todo mundo é bonzinho, só eu sou monstro. Pensam que não sofri por isto? Ninguém é melhor que ninguém. Só não se tem as mesmas chances. Não reclamava de nada. Iria adiantar? Reclamar, com o jeitinho, senão será pior. Agora inventam coisas. Em minha boca, palavras que nunca disse. Vasculham minha casa, como se fosse um cão danado. Quando só, ninguém me visitava. Minhas memórias, queimaram-nas, pior que a morte. Esconjurado estou, famoso, não. Buscam razões onde não as podem encontrar. A mídia vai à loucura, dinheiro. Ninguém me compra um jasmim, adoçar o ar. Frio nos ossos e na alma que se não partiu, inda atrelada a meu corpo virgem e sedento de amor e compreensão. Anátema. Uns nascem para brilhar, ofuscando outros, debatendo-se na escuridão. Injustiça? quem sabe? como compreender as leis do mundo? Sim, doloroso é. Quando virão me buscar? Não volto mais, alguém já voltou, para contar da luz, das trevas? Ficam as obras, para onde fui empurrado? Manchada a família. Qual, Que imagem? A do oprimido? Outros se banqueteiam na orgia e concupiscência. Não tenham medo, logo nos esquecem. O mundo quer escândalos, mas tudo é fugaz, superficial, a essência, ora a essência, motivo de deboche. Vaidade. A aproveita-se da bondade e da inocência e se explora e humilha. Não os levam a sério, não os respeitam, depois surpresos e indignados com a revolta. Estou te estranhando, você nunca foi assim. Querem a submissão, mas ninguém se conhece, pode explodir. Se se sabe, seria pior ou entediante, ou mais perigoso, ou, ou. Um julgamento, sem defesa, cada palavra uma ofensa. Falsidades, deslealdade e hipocrisia. Filisteus, dizia Nietzsche. Um dia se verá que somos, e surgirão heróis, louvados e decantados. Especialistas, na mídia, explicando, doutoralmente, o inexplicável. Os meios de comunicação ganhando com a miséria do mundo. Mentira deslavada empurrada goela abaixo, o rebanho a recebe num misto de medo e prazer. O diferente, vilipendiado e humilhado, seu sofrimento leva a turba ao orgasmo. Não pensar como a maioria, é ser o outro, o infiel, o desleal, o falso, o corrupto e o perverso. Meu velho professor: Não lute contra esta corja, será esmagado e fui. Ainda aqui, nesta pedra fria. Lá fora, elogios e promoções. Chora a turba. Matariam mil vezes, se pudessem. Matado já estava, fingiam não ver. Espero que ninguém se mire neste espelho, nem me ache um gênio, nem sentir-se honrado em ser morto. Todos os caminhos levam a Roma, sabedoria é buscar o menos doloroso, embora nem sempre possível. Muitos superam humilhações e abusos, mas, repetindo o chavão, cada homem é um mundo. Não se quer entender isto, chocam-se depois, com a revolta do assediado, do humilhado. Não é uma justificação, é reflexão. Não culpem ninguém, culpados somos todos nós. Só o desonesto nega isto. Cometem pecados, dão esmolas. Absolvição, paraíso. Por que não enxergar os negócios sob togas, guarda-pós e batas? Armas para vida transmudadas em morte. Agora sou vendido a preço de ouro. Brigam por uma informação. Melhor recebe, quem melhor paga. Todos querem tirar uma lasquinha. Nada sabem da história, mas fazem declarações. Pura vaidade. Que não se aproveitem para arrotar valentia. Já nada sou. Que não motejem, bradando palavras que não disse, nem incentivem a violência contra o outro, as minorias, os diferentes, os desiguais. E vocês, não tenham medo. Daqui pra frente tudo vai ser diferente. Os omissos terão mais cuidado, pensarão mais em vocês. Os hipócritas, os analfabetos e esnobes, que têm nojo de pobre, saberão usar as palavras, saberão que a pirraça mata aos poucos, mais cruel do que a ação de matar. Verão o massacre de cada dia, sem o alarde de agora. Monstro, sou, não quando era massacrado. Reflitam sobre os atos do homem, e deixem de fazer espetáculo, só enganam os comedores de novelas, futebol e carnaval, não os que pensam e se preocupam com o humano. Vocês só se preocupam em mostrar-se, não em chorar os mortos, porque a morte, como a guerra, só a poucos beneficia. Lágrimas de ritual, como as carpideiras da Grécia. Um emprego. Alguém me olhou? A conquista de uma nota no jornal, de um minuto de fama. Mundo vão. Todos se aproveitam, até o papa Bento XVI, que dizem ter sido nazista, quer aparecer. Por que ele não se ocupa da matança de inocentes nas guerras de conquista no mundo? Com as crianças morrendo de fome? Por que não se preocupa em distribuir os bens da igreja aos necessitados? Sanguinário, assassino, monstro sou. Ninguém veio me buscar, enterrado como um indigente, um qualquer. Vergonha de mim. Sonega-se impostos e não se tem vergonha; Vende-se o próprio corpo por um emprego, um pedaço de pão, uma manchete em jornais e não se tem vergonha; Fabrica-se remédios de farinha de trigo, dosagens falsas e não se tem vergonha; Oferece-se propina em tudo, compra-se coisas furtadas, roubadas e contrabandeada e não se tem vergonha. Hoje, mais do que nunca estou triste. Enterraram-me. Arrastaram meu corpo, inerte e sem resistência, atiraram-me como bestas-feras. Quem não respeita a vida, vai respeitar a morte? Açougueiros, enaltecidos como heróis. Uma mídia vomitando fezes para a multidão tresloucada, tentando incendiar o mundo para apagar com o sangue dos inocentes o fogo que provocou. Não sabe a gentalha que a ela só lhe cabem as migalhas atiradas pelos donos do mundo. Homem, como fostes enganado pelos séculos além! Sofrestes tu quando eras mutilado no Congo pelos asseclas de Leopoldo II da Bélgica em troca de borracha? E tu Patrice Lumumba, por ordem de Eisenhower assassinado? Sofrestes? Amarrado à traseira d´um caminhão, arrastado até Leopoldville. Executado aos olhos de Tschombe. Te deram defesa? Sofrestes? Exumado por Soete, imerso em ácido e incinerado. Não deixar vestígios. Sofrestes tu Lumumba? Sofrestes tu quando o papa Urbano II deu inicio às Cruzadas? Homens, mulheres e crianças matando e morrendo em nome de Cristo? Chorastes a carnificina de muçulmanos, árabes e "infiés" que não se submetiam à cruz? Rebanho de noveleiros, fanáticos do futebol, claquetes de programas televisos.
Mentem como cão danado, falaram em suicídio. Havia escrito uma carta, ainda bem. Tiveram de me engolir. Senão seria outra farsa. Heróis de mentira. E o rebanho engole. Os sonegadores de impostos, os compradores de votos e de cargas roubadas, os falsificadores de licitações estão rindo como hiena na carniça de tudo o que acontece e gozam num orgasmo universal a derriça, instigada pela mídia. Logo, logo que estes profetas se tenham desincumbido desta sórdida tarefa serão defenestrados, jogados no panacum de cascas podres por esta mesma imprensa e poder econômico que hoje lhes balançam o turíbulo.
Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.http://blog.clickgratis.com.br/deuscarmo/
quarta-feira, 13 de abril de 2016
Num só pé como a bela Empusa, como Saci-Perêrê,
andou, andou. Aba sui aba supé. No
prego, o pé furou, su alma, enterrado.
Vidrocaco abriu seu pé, no atravessar rua. Teresinha chama, Teresinha. O pé
cortado, curar? Curado, pó de café, curado. Ele apareceu de repente
com uma lupa na mão, colocando em frente a seu rosto, arrastando-o, como a um
sonâmbulo, hipnotizado. Arrastando-o como se arrasta uma zorra. Apelidaram-no
de Boi, não se sabe porquê, e, todos lá no colégio o tinham por boi, sem a
sabença de qualquer outro nome. Dizia, o povo da roça gostar muito dele, porque
não tinha a fiduncia dos doutores da
cidade. Ela era baixinha e tinha um cabelo loiro e um sorriso eterno que se trancou
quando ele disse que a amava. No colégio perceberam, não mais se falavam. Não mais caminhar em
liberdade, té Bruno Seabra, falar,
falavam de tudo e coisa nenhuma. Um vendaval os sacudiu atirando-os longe um do
outro. Neófito nas coisas do amor, não
atinara que um não poderia ser, no futuro um sim. Lhe deu as costas per a
sempre. Agora procura em vão sua beleza, que será certamente como a Duília de lindos
seios que Aníbal viu um dia. Onde estarás, doce
pássaro de minha juventude? Lágrimas vertidas n´escuridão de minh´alma,
fostes em vão. Tempo devora vidas. Ah, trampolinagens nos quintais, vida
menino. Vade se cagou todo, quando a velha Rosalina, segurando-o pelo braço,
começou a bater-lhe. Do pé d´araçá pulei por riba da cerca, sem tempo de
avisar, quando irrompeu, manguá na mão,
por trás das árvores, velha, feia e rabugenta. Joga chapéu, Vade. Ficou chapéu, araçá veio, rolando pelo chão,
cair em minha mão. Solto Vade, ficou o chapéu, denunciador troféu.
Roubados araçás comidos debaixo da
quixabeira, no açude, em terras de Antonio Oliveira. De seus fundilhos, Vade tirava tolocos saídos na
agonia, enquanto a velha lhe batia.
Chapéu prova do crime, denuncia Rosalina, uma sova em cada um, mãe é pra bater,
escola do sofrimento, torna o homem,
homem. Pequerrucho e novo, Subi no pilão. Caído sobre pernas e cabeça. Machuca pilão, cambota
fica. O pé do jegue. Recebi uma patada. Esmeraldo, vai buscar hortelã nas
poças. Nanã machuca hortelã, nos olhos põe, ensanguentados pelo coice. Inda hoje, ninguém desta travessura.
Jumento é bicho manhoso, quando sestra, sai de baixo. Na queda, nem a de
cavalo. Quando o tino vai chegando,
aprende-se a lutar com os bichos,
que mais parece gente, não falam, mas entendem o que se diz. Um pouco, gente.
As fêmeas são até mulher de muito macho, que aprende com elas os segredos da
machice. De vez em quando tem um desastre. Arbino não morreu de jega? Pois
morreu, foi comer, saiu comido, caído, de braga aberta achado, pelo coice, d´ovo inchado. O véi Quinca foi com bezerra, encontrado no curral, ensangüentado.
Quinze dias durou, a conta de contar,
com pejo, o sucedido. O dedo na porca e olho na porta, até estremecer de gozo.
Valdemar mandava buscar espinho de mandacaru pra furar as bolhas de bexiga,
antes que ela o matasse, como matou
Ramsés V e Luís XV, O Bem Amado. Saía-lhe um pus amarelo. Lenço limpando a carupemba.
Sai de perto menino, bexiga pega. Se não chovia, bebia água salobra da presa de Pedro
Carneiro. Na feira, Pedro vendia água de
pote. Está chegado em Capela, meninos
marcham em roda da carnaúba, um tambor marcava passos indecisos. Viu Zé Mancambira no oitão da casa de Lane, última na estrada do Noventa. Arremeda o zunido de um carro. Seu mantra, seu
calmante. Arreliavam dele, em sua capa colonial. Roque de Damião gostava de
fazer medo. o mundo ia acabar. Dona
Juliana gostava de mijar em pé. Abria as
pernas, xíiiiiiii. Não se importava que a gente visse o rego se formar. Canta, canta Maria Pinhão toda tarde, a tarde toda. Roda Pião, roda pião, roda pião. Dona Rola se
irritava com a inticação da Pinhão. Perder seu marido de vez a Pinhão
não leva não. Não chore não, Lé / pra que chorar,
Lé, / a vida é esta / um amar, outro gozar, Lé. As tanajuras,
enquanto vida ainda lhes sobrava, esvoaçavam, esvoaçavam no verão das chuvas
primeiras. Zuuuuummm. Os pernambucanos, calejados da seca, as pegavam,
concorrendo com pássaros e tatus, par
comer assadas. Cortavam-nas pelo abdômen as jogavam na frigideira, com manteiga
ou seu próprio óleo amarelado. Herança de nossos índios e já apreciado por
Anchieta e Gabriel Soares de Souza, chegados numa bundinha de tanajura. Cai,
cai tanajura na panela da gordura! Cheiro
danado. Hoje comprovado, fonte de
proteína mais que o boi, até projetos em estudos de criatório de formigas e
outros insetos. Suprir o mundo de proteína, cada vez mais cara com as carnes
tradicionais. Não dizem que formiga faz bem pra vista, e nunca se viu um
tamanduá de óculos? O povo é sábio:
Não existe
melhor cura
P'ra
doenças de garganta
É bunda de
tanajura
E injeção
não adianta
Sertão,
o flagelo da seca. Morre-se de sede e fome. Estão os homens interessados nisto?
Tão barato um poço artesiano. Não, o dinheiro é só pras
orgias, metrôs, campos de futebol. Grandes obras enriquecem. Mais empresários
que políticos, pobre paus-mandados. Daniel aleijado trabalhava na semana e nos
dias de feira pedia esmola. Mordendo a língua
concertava arreios, fazia bainhas. Facas, facões, punhal e punhaletes.
Vindo d´aroeira, criou filhos, com exemplo de coragem e abnegação. Cirilo remendava sapatos, rindo a morrer do sucesso triste. Só
se ria de miséria. Um Diógenes remendão se rindo da miséria do sertão. Que mal
havia no mundo que não fosse pra purificação do homem? Não se chora do mal, ele
é nosso mestre. Quem com ele não
aprende, com mais nada aprende. Melhor a loucura que o prazer, embebedar-se com
o prazer escurece a mente e nos deixamos dominar pelos mais fortes e mais
sagazes; Da vida só precisamos viver, melhor viver entre corvos que entre
bajuladores. Os corvos só comem os mortos; bajuladores devoram os vivos. Ri é o
melhor remédio. Mata tua angustia e a do próximo. Cínico ou estoico tu Cirilo ensinastes até a quem não
imaginastes ter como aluno. N´Aroeira, Pedro Marcilio, vaqueiro, pega boi no calumbi. Toda feira bebia, a feira toda. Enciumada de
Angerca, Pedro Marcilio furou, com
peixeira na barriga, corria
Constança, gritaria, bofe e tripa segurando. Pedro Marcílio afamado, vaqueiro, dele
diziam, caparia de um só golpe, um cabra de Lampião. Dona Oláia fazia suas
lapinhas imitadas, mas não igualadas.
Dézinha gritava sua dor, olhos negros sobre todos. Medo? ou
proteção querias? O povo, sim, tinha medo. Alma penada no
mundo. Encosto de noivo morto. Paixão. Fuga de noivo, na lua cheia, na garupa traçoeira do
alazão, amiga leva. Encarnação do tinhoso. Se fosse na Idade
Média, os padres já a tinham queimado,
como se queimou Joana D´Arc, depois virada santa. De possuída a santa.
Dizia falar com Deus. Quem és tu pecadora, pra falar com Deus? Dos mais santos poucos papearam com ele. E tu presunçosa, blasfemas contra o senhor,
dizendo conversar com ele? O que tu ouves? Não é mesmo, a voz de Belzebu,
fingindo-se de Deus?
Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.
Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.
sexta-feira, 25 de março de 2016
CARNAVAL IEMANJÁ
Hoje é carnaval na Bahia, mas também, e acima de
tudo, Dia de Iemanjá. Abiãs com seus contra-eguns, ogãs, babalaôs,
apetebis, babalorixás, dotês e donês,
Tatás de Inquice, mametus de inquice, o alapini do Brasil, assobás, yalorixás,
iyakekerês, Iyalaxês, agibonãs, Iyabassês, ajoyês ou ekedis, babakekerês, akepalôs,
ogans, yaôs-eleguns com seus idês, ebômins, kakanfós, obás, obaxoruns, abás, balés, aquirijebós, amobirins e até
alibãs, todos devotos, e com seus brajás e aladoris na cabeça, diante do peji, entoam a saudação à Rainha do Mar, Odô Iyá,
filha de Olokum e esposa de Olofin-Odudua: Omi
ô odo iyá eruiáque, com seu abebê, certamente abençoará seus filhos
dando-lhes muito axé. Tocam o rum, o lê e o rumpi. Inicia-se o padê.
Sacodem-se agés e caxixis. Percute-se agogôs. Alabês entoam os cantos. Sacodem-se os adés. Começa o
xirê. Agbôs ou amassis são feitos. Serve-se o ungê. Acaçás, acarajés, abarás,
flores, perfumes, espelhos, enfeites diversos, anéis, colares, fitas, brincos,
pentes, bijuterias, jóias, relógios, maquiagens e bonecas, velas, bebidas e
comidas, fava com camarão, cebola e
azeite doce e até champanhe são oferecidos, a Dandalunda, Janaína, Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã,
Maria, Dona Iemanjá, tudo feito numa ânsia maluca de afastar o ajogun e
alcançar o axé. Nas ruas, o samba de roda, o
ijexá, a capoeira, afoxés, muita gente trajando roupas dos rituais
do candomblé. Esta é a festa do Rio Vermelho
da Bahia de São Salvador do Brasil. Quem mora no Ponto da Mangueira é um
pulo, nem vale a pena uma condução. Todos iam a pé mesmo. Estivera trabalhando até quatro da tarde. Carregando pedras, fazer, na frente da casa, um muro de contenção pois, quando chovia, era água entrando pela frente e saindo pelo fundo de casa, bem no pé da
ladeira do Sobradinho. As irmãs, arrumadas para a festa, saíram já. A patota do Colégio Manoel Devoto. Quantas
delas, olhar distante, disfarçado e erradio, não cobiçara! Que elas não o vissem assim apalermado. Lembra-se, tantas, belas. Vera, Neila,
Margarida. Alice, Beatriz e Aimar. Tomou seu banho, tirar o suor das pedras, pôs a melhor roupa, brilhantina no maracanã jogou um pouco de colônia 1010, penteado o maracanã com brilhantina, partiu para o Yemanjá, ver as garotas, paquerar, se declarar. Um não, que medo. Pela linha do bonde, não sujar de lama os sapatos. Escurecia no Largo de Santana, tocando pó Trio Elétrico Tapajós. Meninas em cordões, ora serpenteando, ora fazendo rodas. Visão eterna mil vezes, como no Carnaval em Colônia. Valquírias, azuis os olhos que nem o céu da Bahia. Em voga, a cabeça de côco, um cabelo curto, surucos, anjos barrocos. Uma, de olhos tão verdes, como os de Aurinha, cortavam a alma. O flerte de tocar os cabelos compridos era agora, acariciar a cabeça como a se consolar uma criança. O sorriso era a senha, mas poucos ousavam tocar-lhes, mesmo sabendo estarem ali pra isso, serem tocados por um macho. Se lhe agradasse, sorte dele. Se não, azar dele. Chamavam irmãos ou parentes ou a polícia e a confusão estava formada. Quantos marmanjos, não foram presos? Sim, por um inocente toque de cabelo? Quantas brigas, quantas? Bulhas surgiam de repente e se batiam contra todos, sem saber o porquê da contenda e quando chegava a polícia, prendia-se, freqüentemente, os que tentavam separar os brigões. Conhecidas estas festas de Largo - Boa Viagem, Lapinha, Bonfim, Ribeira, Conceição e Iemanjá - alegria do baiano, onde se fazia a paquera, origem de casamentos e separações. Todos andavam ombro a ombro, embora outros, privilegiados, assistissem a festa confortavelmente em casas de parentes e amigos. Iemanjá. Ele, só, no branco da multidão. Aqui, os requebros dun’a mulata, ali, o doce olhar da cor de mel, acolá, feitiço do verde
apaixonado, mais ali, o misterioso azul do mar, e, mais na frente, o profundo negro do olhar. Todas lindas, moças da Bahia. Não estava acostumado à algazarra juvenil de quem criado com a liberdade das ruas, sem as amarras do claustro, pouco afeitos às meditações e introspecção. Quem, privilegiado, embora, bolsista, estuda num caro internato, sofre com o isolamento. Depois vem a timidez, aversão às multidões, medo da rejeição. A vida em colégios internos, cortou-lhe a presença feminina, a iniciação no álcool e no fumo, muleta e combustível juvenis, terrível experiência dificultando-lhe a comunicação com sua geração, sempre traumática e desoladora. Censuravam-lhe o falar, escolhendo palavras, sem gírias, sem palavrões, o vestir-se fora da moda, como pessoa de outro mundo. Quando no Duque de
Caxias, a professora de inglês organizara um passeio à praia de Inema, local já na época privilegiado, (Área residencial de oficiais da
Marinha), hoje, famosa no mundo, porque refúgio das lidas de presidentes - Lula e Dilma - descanso
da faina política, no carnaval, páscoa... Tempos de rudeza. A tradição, o tabu se debatendo com as novidades da industria cultural da Europa e Norteamérica. Preso ao passado, sem roupas de praia, sem sandálias, um alienígena. As moças, mais afoitas, entraram n´água, os rapazes na areia. A professora ficara na areia com algumas moças. Cadê as mulheres? Perguntou. Todos coraram e ele, atormentado pelo resto do dia. Todos se entreolharam, um silencio ouvido pelas ondas perpassou. Percebendo sua gafe quis consertar, mas a emenda saiu pior do
que o soneto. Mas, não é mulher mesmo? Elas são homens por acaso? Novo
silêncio, agora acompanhado de uma certa reprovação no olhar de todos. É que
naquela época, dizer mulher era o mesmo que chamar puta. Dizia-se, pomposamente,
minha esposa. As solteiras, simplesmente moça, ofensa, chamar moça de mulher.
Ofensa sem perdão. Traumático, sempre, o embate de gerações. O
novo e o passado. Não se admite
mudanças. Sempre perigosa, quem a
quer é louco, ou degenerado. Nas cavernas, quem sabe? Ser jovem é não ter juízo, sem
responsabilidade. Quem mais se parece com os velhos, é tido como adulto, com juízo, exemplo a ser
seguido. Por que você não faz como fulano de tal? Ali, sim que é um
rapaz ajuizado. Um homem que todo pai queria pra sua filha. Ah se não fossem os doidos, os sem juízos. Que
seria deste mundo? Estaríamos ainda na idade da pedra lascada. Topada é que
leva homem pra frente, diz o ditado.
Mas, como felizmente, o homem não é feito só de
barro e sopro divino, como querem os criacionistas, é antes de tudo o criador do mundo, ou seu
próprio criador, na medida em que ele faz sua historia, faz a historia do
mundo, ele inventa, ele cria, ele surpreende. Quem duvida de que um dia o homem
lascou a pedra e a tomou como instrumento e arma? Que depois a poliu com os
mesmos fins? Quem vive o que se vive agora, com as facilidades que a tecnologia
lhe garante não pode ter dúvida de que tudo isto foi criado pela mente humana.
Se assim não fora, como explicar a diversidade de vida e visões que o homem tem
demonstrado ao longo de séculos? Por isto que não se deve lastimar a existência
dos arredios e foras do contexto. Serventia, eles têm, é só buscar e ver. Equilíbrio
do mundo, por exemplo. Não? Se todos fossem à guerra com igual ímpeto, quantos
sobrariam pra contar a história? O mundo é o homem e cada homem tem seu mundo.
Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.
quinta-feira, 24 de março de 2016
MAMAN GABRIELLE
Levou muito tempo discutindo sobre seu nome.
Conta-lhe a história e origem dos nomes.
Chamava-se Bernadette, passara a
ser conhecida como maman Bernadette, protetora de estudantes estrangeiros.
Conseguira boas colocações aos que ali passaram. Davi Verner, havia-lhe
indicado esta mecenas. Havia passado por suas mãos, mas não tivera tempo de
burilar o ator que havia dentro dele, nem arranjar-lhe um contato com o grand
monde.
Ficou
deveras impressionado com a velha senhora. Um turbilhão. Quase nada
entendeu, mas assim mesmo conversaram.
Queria fazer jornalismo, sobreviver com
ele. Deixar de lado o direito iniciado
na Bahia. Talvez, uma porta pro cinema,
sua verdadeira paixão. Elle bavardait.
Prometeu apresentá-lo a ilustres
personagens, dando-lhe oportunidade de fazer artigos pra publicar no Brasil. E de logo ficou
acertado que deveria levá-la a um jantar, à
la campagne. Um jantar e a vernissage do pintor amigo, anfitrião. Je vous donne rendez-vous pour jeudi, trois heures. Disse e estendeu-lhe a
mão. Bela maneira de mandá-lo embora.
Quinta-feira.
Sim. Quinta-feira, maman Bernadette marcou rendez-vous.
Meu Deus, o que poderia acontecer? Uma
exposição de pintura, um jantar em casa de um amigo, à la campagne. Seu
conhecimento de francês não chegava a entender o real sentido da palavra rendez-vous. No Brasil rendez-vous é lugar de orgia e
libertinagem. Brega. O homem sempre teve o hábito de se apropriar de um termo
de outra língua ou mesmo da mesma língua e modificar inteiramente o seu
sentido. Os linguistas chamam isto de mudança semântica. Rendez-Vous virou nas bocas tupiniquins, simplesmente brega, lugar de encontros pouco recomendáveis.
Um dia, com Claudio, no Quatier Latin, perto da Coupole, entram cinco brasileiros, chamava-se embaixadas, viagens de estudantes
em fim de curso. Com Claudio quase, se falavam em francês, por isto o grupo não
percebeu serem brasileiros. Perguntavam-se.
E agora, como é garçon em francês? Cláudio chama o garçon. Aturdidos, vejam,
garçon é o mesmo que em português. Isto não é colonialismo? Perde-se até a noção da língua. Mas voltemos à
velha, ainda que esta história tenha acontecido realmente, não poderá
servir de pretexto a digressões político-filosóficas, em detrimento da verdadeira
história de Maman Bernadette ou de seus coadjuvantes, porque parece só existir
protagonista, desde que os gregos o inventaram, nos livros, nos romances, nas
novelas, na real, na vida de cada dia,
meros coadjuvantes somos, quão
diminutos diante da portentosa e
brava natureza. Imaginou lindas
francesas em orgia no passeio à la
campagne, Jeudi trois heures, não obstante se mostrasse aquela velha
senhora de uma religiosidade a toda prova, com terço de ouro nas mãos que ela
parecia dedilhar mecanicamente, balbuciando aqui e acolá palavras da Ave Maria,
do credo, da jaculatória, do Pai Nosso
denunciando sua devoção e fidelidade à recomendação de Maria quando,
dizem, entregou-o a São Domingos como
arma poderosa contra as tentações do demônio e conversão dos hereges.
Vestidinho composto, negro como as roupas das portuguesas, mas de corte
elegante como são as roupas dos franceses, mestres do vestuário e da
perfumaria. Semiparaplégica, andava com
dificuldade com o auxilio de muletas. Um rostinho quadriredondo, como costumam ter as francesas.
Tipo mignon, que se pode traduzir como pequena e bela. Uma
mulher feia não é mignon, é petitte. Precisa, o francês, talvez mais que o português. O partitivo, por exemplo, evidências da precisão. Não se
bebe água, bebe-se da água, não toda água do mundo. Boire de
l´eau. Talvez, por isto o positivismo francês. Não podia imaginar aquele
rosto encostado ao meu, aqueles lábios
finos, quase uma lombriga, tocando os meus. Nas manhãs calorentas ou chuvosas,
mães acordavam os filhos, caneca de óleo
de rícino na mãos. Segurar uma colher, não vomitar. Expulsar os vermes. A saia
saía botando vermes de todos os tamanhos. As vezes iam saindo dois, três, e a gente
era obrigado a puxá-las como macarrão puxado pelo filete do escorredor. Quando
saído do sertão, viu o macarrão pela primeira vez, lembrou-se dos vermes saídos
do fiofó. Estão rindo de quê? Nojo? Que
culpa tenho de que não tenham vivido a vida? Não tenham nada par contar? Só mentiras. Conquistas nunca realizadas?
Posso voltar a Maman Bernadette? Seu
hálito exalava um cheiro apodrecido, mas
simpática no seu sorriso. Carecia dela. Ajudar nos meus sonhos. Errado,
usar as pessoas. Prostituição, corrupção.
Muitos pensam que só se corrompe por dinheiro. Poder-se-á ser traído pelos próprios
pensamentos. Alguém também estará tentando usar você. Vence o melhor, como na
natureza. O mais preparado. Eu, o mais fraco.
A educação franciscano-jesuítica
impedia avançar sobre as barreiras da moral. Neanmoins, deixemos que o barco da vida nos conduza. Sem atropelo,
sem premeditação. Seja o que Deus quiser. Mundacho torto, como dizia o bom frei
Teodoro nos corredores do Convento da Piedade da Bahia. O mundo é mesmo torto,
mas ainda assim, vale. Anos depois ouvirá alguém dizer: Oh mundão, não acaba não, mundão.
Quinta-feira,
do português, como quis Martinho de Braga. Dia de Júpiter. Jeudi. La mama o recebe esplendorosa em seu tailleur noir e manteau
Cardin. Não era uma paraplegia que a atormentasse, mas, muito mais uma
espondilite que a mantinha curvada sobre o próprio corpo, com certa elegância,
entretanto. As muletas eram-lhe útil, certo que não se movia sem elas. Pena que
morasse no quinto andar. Posso dizer-te
que desceram a escada? Ou pegaram o
elevador? Ela, pelo elevador, sem dúvida. Engenhoca em metais, barulhenta,
cujas portas gradeadas se abriam encolhendo como sanfona, usado só na subida,
descer pela escada, medida de economia. Que importam estes detalhes? Num
realista isto é importante. Tudo é importante. Mas se se disser que tudo não
passa de um sonho? Como se lembrar inteiramente de um sonho? Perdem-se os contornos, como se fora num
lusco-fusco a caminho da noite. Como se se
tivesse nos olhos uma espessa membrana, que mau deixa entrever a massa disforme
das coisas. Tempo é a noite da memória. Realidade vira sonho perdido na
escuridão, mesmo que se tente puxá-la pra perto. Se vêm, chega em pedaços
disformes, sem cronologia, truncados um nos outros, como num quadro abstrato,
religar impossível.
Me
vi, se viram no táxi. Ela, a mãezinha bavardait
como um papagaio, como a nega do leite, diriam avoengos. Vovô. Batia colher de pau em minha cabeça,
que eu falasse sem gaguejar. Falar não
me é mais constrangedor, enjoa, mais ainda quando se entende o que se diz e o que se não diz. Toda palavra tem um sentido, o que tu vês e o
que não vês. La mère falava. Com a cabeça, ora com os olhos acenava-lhe, apenas. Por que mentir? Não
estava entendendo muita coisa. Falam depressa os franceses, pouco se lhes
importam que estejamos ou não entendendo. Nós nos esforçamos pra sermos entendidos, até tentamos falar com o sotaque estrangeiro. Parecer chique. Orgulhamo-nos de falar inglês, mas
não temos vergonha de assassinar o português. Mentalidade de colonizado, de
escravo. Não o francês. Vive cem anos em um país e continua falando com
sotaque, mesmo que pareça amar este país
mais do o seu próprio, como Pierre Verger, o babalaô Fatumbi
que renasceu na Bahia pela graça de Ifá.
Cedo
chegaram. O taxi os deixou à porta do castelo. Era um destes castelos entre
tantos existentes na França, de construção medieval. Acostumados à taipa e
telha vã dos musseques de Salvador da Bahia seus olhos cresceram, como os de um
gato na escuridão. Recebidos por Monsieur Grillon, um senhor circunspecto, mas simpático que os levou a
uma sala ao rés-do-chão na ala esquerda do prédio, onde estavam expostos seus
quadros em pintura abstrata. Nada
entendia de pintura, muito menos abstrata. Poderia se enfeitiçar
pelas cores, porque em verdade a cor é tudo na vida. Se tudo fosse visto em
preto e branco a vida seria muito monótona. As cores tornam a vida doce e
agradável. Quando bate a seca no sertão, esturricado, ocre e chato o chão. Também
o gelo virado lama, o branco é cinza, é preto, desolação. Flocos de neve caindo
à noitinha. Paris, mais que uma festa. Como
tanajuras caindo nas tardes do sertão. Não só ele, abestalhados, todos ficam
com a neve. Crianças e adultos brincam, batalhas no gelo. Um punhado de neve na cara.
Sorrisos largos. No Ceará não tem disto não. No degelo, o coração gela. Um
café, um chá, um conhaque, suportar o frio. Foi
no degelo, vindos de Maman Bernadette,
ele e Jussiê, ofendidos porque, sem
dinheiro, entraram num bar, esquentar o
frio. Dehors étranger de la merde, berrou o francês com seu hálito azedo
de vinho barato. Uma gorda senhora gloterava como cegonha, mostrando,
despudoradamente, os dentes apodrecidos pelas cebolas malcozidas de sua sopa.
Continua no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.
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