quinta-feira, 11 de outubro de 2018














                                Rapaz, eu te disse, vai com cuidado, o Brasil é país povoado por pessoas que parecem gente, cagam,mijam, comem e bebem, mas tudo ao mesmo tempo. Te preveni, não preveni? Mas ainda assim, você cometeu um erro imperdoável. Vocês não têm um especialista em comunicação,  não? Temos, mas onde erramos? Em verdade, eles foram até injustos com com você, se eles tivessem pensado um pouco, teriam percebido que você estava fazendo propaganda exatamente do cara que vocês acham que estão combatendo. Veja, Roger, quando você, para atacar alguém fala somente dele, sem mostrar o outro lado, e portanto sua preferência, você estará fazendo exatamente o contrário do que pretende. Você está fazendo propaganda do cara. Olha aí, um idiota anda dizendo por aí, que você é cafonérrimo. Pink Floyd, vocês representam o que de melhor se fazia em música naqueles tempos, a resistência é marca registrada de vocês, não ss pode jogar tudo isto fora. Acho até que você foi enganado pelos promotores do espetáculo. Eles poderiam ter dito que a plateia brasileira é elitista, de direita e até mesmo nazista. Só eles podem comprar um ingresso a turma de esquerda, se comprar um ingresso vai passar o resto do mês passando fome. Te jogaram no meio dos leões. Não é assim que se faz. Uma análise bem feita poderia ter evitado vexames, e se poderia outra maneira de ajudar o candidato de esquerda que você, infelizmente não teve nem pronunciar seu nome, terminando por fazer propaganda gratuita do candidato que você queria combater. Vamos ver na outras cidades, como se deve fazer, mas se você não me ouvir é melhor nem me procurar. Estou cansado de pregar no deserto.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018













                                              A Kim me ligou. Sim, cara, a Kim Kardashian, ela enche o saco, com seu papo chato.É uma bela pessoa, mas tem hora que é insuportável. Quando começa falar de uma coisa parece que não acaba nunca. E o pior é que a gente tem de dar-lhe total atenção, senão ela vira uma jararaca. O que conversamos? Rapaz, sobre tudo. Ela não tem limites, fala de tudo e de todos. É até simpática, pode acreditar, apesar de  esparramar esnobismo para todos os lados. Quer por divina força, que volte a Paris, lhe mostrar os lugares que morei, os bares que frequentava, quer esmiuçar minha vida. Não lhe negar tais pedidos, não posso porém, desvenda-lhe toda minha vida. Quem o faria? Quem não tem segredos para levar para o túmulo? Lembro da Sissel. Dizia. Um dia vão te arrancar tudo dentro de ti. Eu dava  risada. 

sábado, 15 de setembro de 2018













                                       


O dedo na porca de olho na porta até estremecer dedo dedos punho punho mão mão inteira em ti nas ruas do Julião  vagidos de gozo e dor no abandono do tempo caído sobre teu corpo por brutos violado cordas  que o tempo viola  aturdida fome de carne e luz  espaço  zaratempô seca a voz beber queremos todos escravos grita serás ouvido na língua do mundo grande pequeno estranha rebeca  diz histórias faz sonhar e correr mundo abre alas  quero passar como Zé Mancambira queria sou eu sou eu o Mancambira do mundo Horus d´Isis sou eu renascido na noite em Paris perdido na porta do globo abandonado n´amplidão hostil perdulário e pobre pede um sou pagar o omelete comido na Saint-Germain com que cara se riu Gandra rio Sena, qui cena atirei no mar o mar vazou atirei na moreninha baleei o  meu amor no mato verde que sonho não vejo o mundo acordado vai ensina o mundo e aprende kar cidade  sol amon  razominorum sacode este coco moreninha não deixe o coco cair desce do céu te quero na terra  saciar a sede matar a fome verte  lágrimas irriga a terra mãe de todos os começos joga teu laço apanha o ar derrama sobre nós folhas caídas sob os pés silvo de vento e água trêmulo e faminto à busca d´aconchego com frio não entende o flic sem fric onde vai dormir está rodado o suplicio da roda chuviscos de outono vento arrastando folhas sapatos molhados nos pés quebrados versos versus mundo estou in mundo ne ‘stou eis a questão d´água surge a mulher a mesma semper  vestes  transparentes vestais renovados sonhos  ondas do infindo de onde vens eterna  visão de noites em criança tenra nas camas de lona e vento das noutes frias de inverno ao fogo do longo verão desperta-me mil chocalhos de mula imaginária cavalgadura dos sonhos de menino ensandecido por los mistérios da vida  pulula em cada canto  brinca de esconde-esconde chama ardente inapagável alimentando o pensamento viagem per Il  mondo ver é vencer é gozar mil cores  noites  gozei  estreladas como um Van Gogh cantigas de roda ouvir meninas Pai Francisco entrou na roda Teresinha de Jesus de uma queda foi ao chão que Ninguém me tribute lágrimas, nem lamente minha morte, a caminho estou  imortal faço meu Rubicão a ti fortuna acompanho aos fados me entrego veneno da solidão  sacode a poeira vencer é amar moço lindo cobra Norato sou eu sou eu corre corre corre mundo já não canta aracuã no pé de juá cantar o canto triste tarde vento quente  sestroso balançando a capoeira, derribando algarobeiras, monzês e aroeiras serenata  batuque acorda Nepomuceno ensina Brasil.




quarta-feira, 15 de agosto de 2018











                                                      
                                                       
E como não lhe davam pedrinhas para comer misturada à ração diária, as aves passaram a comer areia, pedaços de metal, vidro, ossos, pedaços de ladrilho e tudo que encontravam para substituir as pedras de que necessitavam para a trituração dos alimentos. Assim, estes objetos se quedavam na moela, pois não  eram digeridos pelo suco gástrico e às vezes chegavam a obstruir o intestino. As pobres  aves ficavam então tristes, penas ouriçadas, asas caídas, cambaleantes, sem fome, sem defecar ou com diarreia e depois morriam como gado que pela seca, comia pano, papel, papelão, borracha e plásticos. Iam ficando tristes, pesados, lentos, preguiçosos e caíam para não mais levantar. Morto, abria-se o bucho, incrível aonde leva  a fome. Com fome, também o homem faz coisas que ele próprio duvidaria. Como cães comem as próprias fezes, sedentos bebem a própria urina.  Nas noites de Paris, corrido da Feijoada, corria atrás de pratos pra lavar por comida. Enxotado por uns, acolhido por outros. Comer, inda levar para Jussiê,  envergonhado de Quixeramobim. Filho de padre e freira. Trígamo guloso. Aventureiro, irias morrer se fosses  a Florida de jangada, mesmo com rezas ao Nkisi Tempo, Viracocha, Anubis. Tu não atravessarias o Vale. Que sorte, quantos não morreram enterrados nos claustros. Olorum didê. Ficastes para contar.
Estou contando a história de Jussiê, com 18 anos,  analfabeto e aos trinta encontrado na Sorbonne, Universidade de Paris estudando letras e literatura francesa. Falava-me  de seus 11 irmãos, criados no Quixeramobim, terra dos quixarás, comendo jerimum, tocando todos, algum instrumento, que padre e freira revoltados proibiram de estudar.



terça-feira, 31 de julho de 2018

               












                                   
                                             
Era vinte de dezembro de mil novecentos e setenta e dois. Me vi  no Campo Grande, no meio de uma multidão. Sem razão aparente as pessoas começam a correr para o Corredor da Vitória. O que aconteceu, ninguém soube.
- Corre, corre, é a policia, gritavam.
Eu não tinha razões para correr, não fora o aparecimento repentino  de tanques, tratores e outros carros militares. Vinham destruindo tudo. Mas, quando de fato comecei a correr já se tinham  cercado tudo com arame farpado. Enormes redes de arame. Uma armadilha. Soldados de todas as fardas cercavam o resto. Eu vencia as cercas de arame, mas outras surgiam à minha frente, indefinidamente. Corri desorientado, muito e muito, como se estivesse no escuro. Muitos, muitos dias, e ao abrir os olhos estava no Bonfim, o domingo de Bonfim. Barracas tocavam músicas, no samba de roda, mulatas se sacudiam, na roda de capoeira Caiçara rodopiava o rabo de arraia para impedir a  cabeçada de Bom Cabelo. Como mágica, cercas de arame, soldados, bombas estourando, gaz chiando, gente correndo, mulheres gemendo, uma criança cai no tacho fervente de acaragé. Uma batalha como se fosse a final. Por que fazem guerra, os homens?
Quantos minutos, quantas horas as escaramuças? Coalhada ficou a Baixa do Bonfim. Corpos, queimados, mutilados, tecidos, roupas, pedaços de madeira,  fogões, geladeiras, garrafas, espetos, churraqueiras, pneus fumegando, ferros de engomar, rádios e radiolas, camas, mesas, cadeiras, arlequins, pierrôs e colombina saindo com o sorriso da dor.
Pouco a pouco, como caracóis saídos da concha, vinham chegando. E como formigas avarentas pegavam do butim o que podiam e já entre si tentavam vender o que traziam às costas, na cabeça, nas mãos. Acolá tentam arrancar o dente de ouro de um que jaz semi-morto. Outro foi tirar o relógio de um defunto que acordou e deu um tapona no lalau. Os soldados se misturaram à turba para saquear o que ainda tinha alguma serventia. Como o primeiro de abril de 1964. Corri da faculdade cercada de tanques de guerra, mas soldados me pararam e tomaram os cruzeiros guardados para pegar ônibus da liberdade que partia do Campo Grande. Bela maneira de combater a corrupção. Hoje, os togados tomaram a si o combate à corrupção, mas  se enchem de sinecuras com auxílio isto, auxilio aquilo, nepotismo e todas a benesses que o poder proporciona.