segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

AS ÁGUAS VÃO ROLAR

        



                 As águas vão rolar, garrafa cheia, eu não quero  ver sobrar. Eu passo a mão na saca, saca, saca-rolha e bebo até, me afogar. Deixa as águas rolar. Se a polícia por isso me prender, e na última hora me soltar, eu pego a saca, saca, saca-rolha ninguém me agarra, ninguém me agarra. Nem mesmo seu Zé da Zilda? Você vai mesmo, deixar me prenderem Dona Zilda? Você deixa Seu Valdir Machado? Aí que saudade! De repente, o Bahiano de Tênis ficou vazio. Não me assustei, comecei a subir a Princesa Leopoldina e logo vi o Largo da Graça, com a Igreja, o abrigo e ponto de táxis e em seguida a Rua 8 de dezembro. Dona Laura pediu para que eu fosse à Telefônica reclamar que o 8456 estava com defeito. Eu fui. Subi a Oito de dezembro, virei à esquerda na esquina da Graça onde morava seu pai, Seu José Catarino e segui até a Telefônica. Vergonha, não entrei. Que dizer? Timidez dando-me uma das muitas derrotas no caminho meu. Ela nunca iria acreditar que não roubei os vinte mil réis que ela tinha levado pra comprar sorvete na Primavera. Carola, aquele, aquela que não  sai das igrejas, passa o dia zanzando de igrejas em igreja, enchendo o saco dos padres, pastores e ministros; caroche, também, um cara que só pensa no trabalho, transferindo seu lar para o local da labuta e não pensa em outra coisa que não o trampo. E as águas rolam e ele se afoga.

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